sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

A Jangada (1868-69, 1869)


Contribua com a sua opinião acerca desta obra!

Para quem se interessar na obra, sugere-se a leitura do artigo Em viagem pelo Amazonas da revista Mundo Verne nº4.  

2 comentários:

Luis disse...

Desta vez JV leva-nos pela primeira numa viagem ao Brasil pelo rio Amazonas, viagem esta que começa em Iquitos no Perú, e cujo destino é Belém na extremidade oriental do Brasil. Pode-se dividir esta obra em três partes distintas: a preparação para a viagem; a viagem até meio do percurso; e o drama da decifração do criptograma.

Na primeira parte da aventura, a preparação para a viagem, JV cria o ambiente ideal para que o nosso interesse e curiosidade sejam estimulados para o resto da obra, não só, por ter começado a construção do meio de transporte usado, uma jangada, do zero a partir de matéria prima virgem, uma porção de floresta pertencente ao então João Garral, como também, por ter deixado alguns temas soltos que só viriam a ser desvendados na terceira parte da obra.

Na segunda parte, a viagem até Manaus, JV faz uma descrição tão pormenorizada da geografia e de toda a rede hidrográfica de todo o alto rio Amazonas que nos poderia levar à conclusão de que ele tivesse mesmo levado a cabo a viagem descrita, mas que na realidade não é mais que um grande trabalho de pesquisa, pois como é sabido Jules Verne nunca esteve no Brasil. É portanto fundamental ter um Atlas à mão. Como é hábito também em Verne, é-nos dada a conhecer parte da fauna terrestre e aquática bem como da flora de toda a área do rio Amazonas, não tendo deixado de parte o impacto que a descoberta daquela zona, por parte dos primeiros colonizadores, os portugueses, e de vários exploradores de outras nacionalidades, teve na população indígena local, e como algumas tribos viriam a desaparecer depois de terem perdido a própria identidade devido aos sucessivos cruzamentos com os povos “invasores”.

Para terminar, e com uma rampa de lançamento como estes dois actos anteriores, vem então a tentativa de decifração do criptograma que fora apresentado na primeira página, numa dramática corrida contra o tempo para salvar o personagem, agora chamado João da Costa, da pena de morte com que fora punido por supostamente ter cometido um crime muitos anos antes.

Nesta viagem extraordinária, JV começa por nos mostrar, na primeira página e pela primeira vez, um criptograma, revelando-se a si mesmo um pouco mais como entusiasta da criptografia, ao mesmo tempo que referencia o imortal analista Edgar Alan Poe como o grande mestre da criptografia. Apesar de nos confrontar de inicio com um criptograma, este permanece insolúvel e intocado até ao último terço da obra, surgindo aí como “personagem principal“ na forma de objecto de todas as cogitações por parte de todos os personagens da obra.

Não havendo nenhum personagem que se destaque mais do que os restantes, existindo contudo um vilão, todos eles primam por serem dotados de fortes valores morais podendo mesmo dizer-se que a grande mensagem desta obra é a defesa da honra contra toda e qualquer injustiça moral e social de que qualquer homem possa ser vítima, mesmo quando essa injustiça é imposta pelo sistema judicial que também não está isento de poder errar.

Temos assim um personagem que no princípio da obra se chama João Garral, mas que no seu final se chama João da Costa, e que com algum atrevimento pode ser relegado para um dos papeis secundários desta obra, sendo o principal, ocupado pelas qualidades que seriam aquelas que JV acharia que deveriam atravessar todos os quadrantes da sociedade, em particular, a moral, a ética e um forte sentido de honra que deve ser defendido até às últimas consequências, mesmo que o preço a pagar seja a própria vida.

Com tudo isto, trata-se de uma obra que se recomenda, pois para além de ser um hino à honradez, está toda ela cheia de fantásticos momentos de aventura em que há muitas descobertas e surpresas, estando presente toda a trama que JV tão bem nos ensinou a apreciar.

Frederico J. disse...

Obrigado Luís pela tua excelente análise da obra.
Realmente trata-se uma excelente obra de JV mas que infelizmente não se encontra integralmente à venda no nosso país. Encontra-se sim uma versão juvenil e resumida o que é uma pena.

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