quinta-feira, 2 de julho de 2009

Crítica 'Cinco Semanas em Balão (1863)'

Desde a leitura de “Atribulações de um chinês na China”, um livro com altos e baixos, fiquei com uma pulga trás da orelha em relação a Júlio Verne. Sempre tive vontade de conhecer sua obra, tendo em vista a quantidade de famosas estórias que encantaram gerações de jovens. Comecei este ano, por acaso, com o livro citado acima, mas minha avaliação foi abaixo do que eu esperava de um autor tão querido. Apesar da estória, em alguns momentos, ser um pouco monótona, gostei de seu estilo, e me foi imperioso dar outra chance a Júlio Verne, deste vez com um livro mais conhecido e recomendado, “Cinco semanas em um balão”.

E acertei ao dar outra chance a Júlio Verne. “Cinco semanas em um balão” não é uma obra-prima, mas é um livro muito divertido, simples, agradável e cheio de aventuras mirabolantes, como é característico de Verne, que ao lado de Stevenson e Kipling representa o espírito europeu do século XIX. O livro narra a grande aventura do Dr. Fergusson, pesquisador inglês, ao lado de seu criado Joe e seu amigo Richard Kennedy, através de uma viagem pela África a bordo de um balão, meio de transporte na época rudimentar e inseguro, o que torna perigoso e emocionante o trajeto permeado de desafios e descobertas maravilhosas. A estória por si só já é muito divertida, mas o que torna o livro realmente interessante são as entrelinhas da mentalidade de uma sociedade europeia do século XIX, o que vale alguns comentários.

Não se pode ler Júlio Verne, como nenhum outro autor, sem compreender seu contexto histórico, sob o risco de avaliar erroneamente sua obra e sua importância para a literatura e o conhecimento da época. Deve-se ler Júlio Verne com os olhos de uma pessoa do século XIX, pois este era o público alvo esperado pelo autor, não nós. No século XIX, a ciência avançava a largos passos, emitindo pareceres praticamente incontestáveis, pois as maravilhas que ela trazia consigo – como a luz elétrica, a energia a vapor – a elevavam a um status de salvadora da humanidade; para os homens do século XIX, todos os problemas seriam resolvidos pela ciência. Um deste dogmas científicos era o da superioridade da “raça ariana” sobre a “negróide” e a “mongolóide”. O instigante é que a chamada Época Vitoriana também se caracteriza pela religiosidade e forte moralismo. Dá para imaginar? É por isso que eu amo História, me dá a possibilidade de estudar este animal ridículo denominado ser humano.

O que hoje entendemos como racismo era incontestável naquela época, não existia sentimento de igualdade racial em lugar algum do planeta, foi preciso acontecer o holocausto na II Guerra Mundial para que o mundo abrisse os olhos para isso. Não seria Júlio Verne nem qualquer outro samaritano iluminado que mudaria isso sem qualquer razão histórica. Desculpem-me os adeptos da pré-destinação, mas em minha opinião ninguém é bom por natureza, o homem é fruto de seu tempo, a bondade só existe com cultura e estudo, “a ignorância é vizinha da maldade”. Não duvido que no futuro olhem para o século XXI e não entendam como é que as pessoas permitem uma configuração social excludente como a nossa.

A primeira coisa que precisamos para ler Júlio Verne é exatamente ter em mente que o autor viveu seu tempo, como qualquer ser humano na História, e relativizar ideias obsoletas e desagradáveis para nós, cidadãos do século XXI. Uma característica da escrita de Verne que hoje em dia pode nos causar repulsa é o racismo presente em alguns trechos. Numa passagem, os personagens se julgam cercados por africanos, mas depois percebem que na verdade são macacos. Os comentários não poderiam ser mais ofensivos:

- Nós julgávamos que te haviam cercado os indígenas. - Felizmente não passavam de macacos – respondeu o doutor. - A diferença de longe não é grande, caro Samuel. - Nem mesmo de perto – replicou Joe.

Em outra parte, os personagens comentam que é melhor negociar com os árabes do que com os negros, porque são “menos selvagens”. Outro preconceito da época largamente difundido do livro é a oposição entre a Civilização (Europa) e a Barbárie (África), incluindo justificativas para o colonialismo europeu. Ao resgatar um missionário francês preso por cinco anos por uma tribo africana, os personagens perguntam por que empreender uma missão perigosa como aquela, no que o religioso responde: “são almas que devemos resgatar”, a velha explicação para a brutalidade do colonialismo. Entretanto, é curioso que o autor não poupe críticas neste sentido também à Europa, pois num certo momento ele questiona se a execução pela forca, prática comum na Europa daquele tempo, não seria também uma selvageria.

A superioridade da ciência também tem espaço garantido em “Cinco semanas em um balão”. “Mas que remédio há senão submeter-se, aceitar de tempos em tempos o que a ciência ensina” é uma das apologias ao grau absoluto de conhecimento da época. Ao homem cabia dominar a natureza e transformá-la em seu proveito. Naturalistas que não relativizarem a leitura ficarão horrorizados com a quantidade de animais caçados por Richard Kennedy, que tem uma fixação em matar que em algumas vezes é freada pelo Dr. Fergusson, mas em outras é até estimulada – caso de animais julgados perigosos, como crocodilos e leões. É engraçado ver que não existia nenhuma noção de cadeia alimentar e equilíbrio da natureza, há uma sugestão no ar de que os animais predadores eram maus e as presas vítimas inocentes. Ainda sobre a ciência, uma característica muito marcante na obra de Verne é a apresentação de novas tecnologias, a explicação de fenómenos que promovem o funcionamento de inventos, como no presente caso a luz elétrica e o próprio balão utilizado pelos personagens. A descrição dos processos químicos e físicos é minuciosa, tudo aquilo era uma grande novidade, o avanço cientifico e tecnológico do século XIX foi fantástico para aquelas pessoas.

Mas de todos os aspectos do livro, o que mais me chamou a atenção foi a apresentação das expedições na África ocorridas na vida real. Até meados do século XIX, quase nada se conhecia sobre a África. As únicas localidades alcançadas por europeus eram pontos na costa africana. Com o impulso imperialista, surgiu a necessidade de conhecer o interior para descobrir as possibilidades de exploração colonial, o que levou à criação de inúmeras sociedades de Geografia e ao envio de diversos aventureiros para aquelas terras até então desconhecidas, fantásticas, que despertavam divagações e ferviam a imaginação dos escritores. Isso se tornou uma mania nacional em toda a Europa. As pessoas acompanhavam as aventuras de personagens reais como Livingstone e Speke através dos jornais. Os exploradores do século XIX eram contratados pelas sociedades de Geografia e também por jornais, incentivados pela procura do público por tais aventuras da vida real. Muitos deles ficavam anos incomunicáveis e depois reapareciam, para delírio do povo. Era comum que alguns deles se perdessem, criando-se assim novas expedições de resgate.

Júlio Verne apresenta brevemente em “Cinco semanas em um balão” a história dos principais exploradores daquele tempo, que aliás serviram de base para todo o livro, pois o autor nunca pisou na África, mas como prova de sua genialidade narrativa descreve as paisagens, vegetações e pontos geológicos com precisão e beleza.

Uma passagem do livro me chamou muito a atenção, veja se você identifica o porquê:
Se me dais licença meu amo, vou arremessar-lhes uma garrafa vazia. Se lá chegar sã e salva, hão de adorá-la; se se quebrar, farão dos bocados outros tantos talismãs!
Em outra parte, quando arremessam outro objeto do balão, um deles exclama: “Os negros hão de ficar bem espantados quando encontrarem este objeto na floresta. São capazes de fazer deles ídolos”.
Quem via Sessão da Tarde nos anos 90 vai de cara se lembrar de “Os deuses devem estar loucos”!

Os personagens do livro são muito legais, se completando: o Dr. Fergusson com sua serenidade, liderança e conhecimentos que sempre salvam a trupe; Richard Kennedy com suas habilidades de caçador e prontidão para qualquer parada; e Joe, o fiel escudeiro de Fergusson, o que se pode chamar de uma cara “safo”, que dá o jeito dele em qualquer situação. A escrita de Verne é agradável e divertida, não enjoa nem cansa o leitor com repetições de palavras. Não é o que se pode chamar de excepcional, mas simplesmente posso afirmar que fiquei satisfeito, como depois de uma refeição muito gostosa. Procurarei outros livros de Verne para me divertir, e recomendo “Cinco semanas em um balão”, mas sugiro que sua leitura se faça com um mapa da África ao lado. Para mim foi quase irresistível procurar as localidades presentes no texto e traçar o caminho percorrido pelos três aventureiros, apesar da dificuldade por causa de alguns nomes que não são mais usados hoje em dia.

Bom.

Crítica escrita por Fernando Rocha, autor do blog Livro em Foco, e cedida gentilmente para o blog JVernePt.

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2 comentários:

Marcelina Gama disse...

Uma das minhas obras preferidas do JV.
Muito divertido.

Vladimir disse...

Acabei de ler o referido livro e, parece que esta crítica acima(aliás muito bem feita) foi escrita por mim e para mim.
Primeiro em relação ao racismo que eu achei algo lamentável no início, mas depois compreendi que era a mentalidade da época e quase sempre que leio um livro de Júlio Verne, o faço com um mapa ao lado, mas também tive dificuldades pois alguns nomes não são mais utilizados.
Aprecio muito as obras deste escritor: elas ao mesmo tempo divertem, nos fazem viajar e atiçam a curiosidade, fazem com que pesquisemos o contexto histórico da época e os locais onde se passam os acontecimentos

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