sábado, 9 de agosto de 2008

Crítica 'Paris no Século XX (1863)'

Por volta de 1860 Júlio Verne escreveu um romance, ou, mais precisamente, uma novela, intitulada Paris no Século XX, que ficou inédita até há pouco tempo atrás, quando o manuscrito foi localizado num velho cofre da família.
Bem verdade que o título do livro estava catalogado desde a morte do autor, em 1905, quando seu filho Michel Verne fez publicar na imprensa a lista de obras inéditas deixadas pelo pai.

Supunha-se, inclusive, que esta obra não tivesse passado de um projeto não escrito, apenas idealizado; mas em 1986 os herdeiros do editor de Júlio Verne encontraram o rascunho de uma carta onde este informava ao escritor a decisão de não publicar Paris no Século XX. Hetzel foi o único editor parisiense que aceitou publicar Cinco semanas em um balão, vislumbrando o interesse que a obra despertaria. Assim, Júlio Verne enviou para ele os originais deste seu livro anterior, sem conseguir êxito.

Paris no Século XX é, uma obra sem a força de outros livros do autor, talvez pelo fato de se tratar de uma experiência literária da juventude. Se nas cem primeiras páginas do livro ele consegue estabelecer um panorama premonitório do ambiente cultural do século XX, a narrativa não logra manter aceso o interesse do leitor por estes fatos. Bem verdade que Verne tenta fascinar aos seus contemporâneos com inventos fantásticos, mas ele se debruça principalmente sobre as preferências intelectuais do Século XX.

O livro mostra uma cidade gerenciada por máquinas que fazem cálculos sozinhas, onde os homens podem se comunicar entre si e fechar contratos de negócios a milhares de quilômetros de distância.
Os navegantes da Internet e Bill Gates não imaginariam coisas mais assombrosas para a época. O navio Leviatã IV é um colosso tecnológico, onde se vive como numa cidade: além do conforto, seu imenso convés contém alamedas gramadas e arborizadas, onde damas e cavalheiros passeiam ao entardecer. Os trens urbanos, movidos a ar, deslizam em velocidades fabulosas sobre pontes que parecem sobrevoar a cidade.

Mas a invenção de Júlio Verne não é um desvario dos sentidos. O autor fica atento aos avanços da ciência e da técnica para projetar a aplicação das descobertas à vida quotidiana. A chamada telegrafia fotográfica inventada por Casselli, no Século XIX, serviu para Verne descrever os negócios do século XX como sendo comandados através de máquinas que permitiam enviar "fac-símile de toda escrita, autógrafo ou desenho, e que se assinassem letras de câmbio ou contratos a cinco mil léguas de distância." A criação de motores é aproveitada por ele para imaginar carros, automovidos, transportando pessoas pelas ruas de Paris.
A propósito, vale transcrever o que diz Véronique Bedin, editora francesa deste livro de Júlio Verne: "Sua força vem precisamente de saber nunca jamais inventar, mas considerar o real com uma atenção aguda, quase hipnótica, até obrigá-lo a entregar seu segredo e revelar seus possíveis."

Em meio deste bazar de coisas surpreendentes Verne projeta o Século XX como um paraíso da tecnologia. As ciências humanas, as artes ou a literatura não mais encontram lugar numa época dominada pela eficiência das máquinas. Nas escolas, "apenas os estudos científicos causavam acumulo de candidatos aos exames". As engenharias suprem todas as necessidades imagináveis. As cadeiras de Letras são suprimidas na segunda metade do século XX e seus professores desempregados. Os jornais também suprimem as seções literárias e circulam apenas com relatórios de negócios. Ninguém mais lê os poetas e prosadores "pela inquestionável razão de que os escritores haviam ficado mais numerosos do que os leitores". Nas bibliotecas ninguém conhece autores como Victor Hugo ou Rabelais. Os novos poemas e romances têm como tema o átomo ou o cálculo estrutural.

Os costumes também não escapam à observação do autor, através dos seus personagens: "Meu filho, a França perdeu sua verdadeira superioridade; suas mulheres, no delicioso século de Luiz XV, haviam afeminado os homens; de lá para cá passaram para o gênero masculino e já não valem o olhar de um artista nem a atenção de um amante!"
Mesmo com todo este arsenal de projeções e revelações de uma realidade ainda por vir, Júlio Verne faz com que este seu livro resvale para o lugar comum dos romances românticos. Não esqueçamos que o homem romântico exprime sua inadequação ao mundo fugindo para outros mundos. Por isso, talvez, a projeção de uma realidade futura vise apenas mascarar a impossibilidade de conviver com a vida real e concreta. Assim é que Michel, o protagonista de Paris no Século XX, é um jovem que nasceu tarde demais. Ele sentia saudades do século XIX, que não conheceu, e dos valores e costumes não mais existentes.

Os últimos capítulos do livro se ocupam dos sofrimentos e da decadência de um jovem privado do convívio dos outros homens e do amor da sua sonhada Lucy. O impotente arrebatamento do herói conduz à morte, encontrada numa noite de frio, por entre os túmulos do cemitério.
Para um livro que começa vislumbrando o admirável mundo novo, o fim não passa do lugar comum das narrativas sentimentais do Romantismo mais popularesco. Mas, por entre o amontoado de suspiros e ais românticos, o leitor encontra o encanto – e o enlevo – da imaginação de Júlio Verne.


Crítica escrita por Cid Seixas, autor do blog homónimo, e cedida gentilmente para o blog JVernePt.

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