quinta-feira, 20 de maio de 2010

“Eu preferi o livro” por Ivan Cardoso

Essa é uma frase muito comum de se ouvir nas portas de saída de salas de cinema após a exibição de algum filme baseado em um livro. Quase sempre é seguida de críticas a diálogos e/ou cenas retirados, colocados ou alterados, o que, muitas vezes implica numa alteração (sutil ou drástica, depende do roteirista) da trama original, o que causa desapontamentos da parte dos que leram o livro em questão e gera a frase citada (os que não o leram tem poucos comentários dessa ordem a fazer).

Essas alterações, porém, decorrem do fato de que esses filmes são adaptações das obras originais, não as obras transpostas diretamente para a linguagem cinematográfica. Esta difere em muitos pontos da linguagem literária e, por isso, na “tradução”, mudanças são necessárias para que a mensagem fique inteligível na nova língua. O mesmo aconteceria se um livro fosse transformado em uma tela pintada: nem tudo da história poderia aparecer lá, pois, se aparecesse, a tela ficaria demasiadamente grande, cansativa e, possivelmente, desconexa.

Apesar de existirem adaptações que tentam ser fiéis o máximo possível sem perder as nuances originais nem o interesse do público, quando o assunto são obras de Júlio Verne, todos “descambam” e parecem esquecer o que é a fidelidade à obra. O que acontece?

As viagens escritas por Júlio Verne no século XIX já são por si só espetaculares (tanto que muitas são conhecidas como Viagens Extraordinárias), com invenções fantásticas, porém completamente plausíveis (em sua maioria), e teorizações tomadas como verdadeiras (a maioria foi assim provada anos depois), o que já garante um grande entretenimento para o público. Mas, sempre que se tratam delas, o objetivo parece ser o de criar um espetáculo ainda maior e arrebatador. Isso, porém, acaba, na maioria das vezes em alterar de tal forma a história, que apenas o esqueleto principal parece permanecer (muitas vezes apenas fragmentos dele). Cito dois exemplos:

O primeiro, as adaptações de A Volta ao Mundo em 80 dias, onde Philleas Fogg e seu ajudante, Passepartout, numa aposta feita pelo primeiro, correm o mundo de forma linear para voltar a Londres em oitenta dias. A história em si já é magnífica, dado que na época em que se passa, 1872, o mundo ainda parecia grande para tal empreitada, e os personagens utilizam-se de grande parte dos meios de locomoção disponíveis naquele tempo. Na filmagem clássica de 1956, de Michael Anderson, porém, o objetivo foi o de colocar todos os meios de locomoção possíveis e imagináveis para criar um espetáculo ainda maior nas telas. Assim, assistindo ao filme, podemos ver que, agora, Philleas Fogg e Passepartout, além dos trens, barcos a vela e a vapor, elefante e trenó, agora também utilizam-se de um balão, um “barco sobre trilhos” e uma avestruz durante essa empreitada. O resultado dessa adaptação foi a alteração (já prevista) de certas partes da trama (como uma tourada na Espanha, ausente no original, e um drinque chinês anestesiante, em oposição ao ópio do livro) e alterações consideradas “graves”, como as de personagens, sendo a mais notável a sofrida por Passepartout, que, de francês, passou a ser mexicano (interpretado por Cantinflas). No geral, porém, a adaptação não foi sofrível, apenas acrescentou objetos demais.

Isso, porém, não é o mesmo caso da adaptação da mesma obra feita em 2004, e estrelada por Jackie Chan. Nela, Phileas Fogg é um inventor e sonhador, que acaba por contratar Jackie Chan, um chinês que roubou uma estatueta de Buda do Banco Inglês, como seu ajudante, acreditando que seu nome é Passepartout (Passport dito de forma apressada e rápida). Como já era de se esperar, o filme se tornou um filme de ação com a maioria dos personagens alterados (creio que todos) e alguns adicionados, além dos acontecimentos da trama (ressalto a passagem pela vila chinesa natal de Passpartout, que é membro de um grupo heróico de lutadores de kung-fu). Apenas o fato de ser uma viagem ao redor do mundo em 80 dias no século XIX sobreviveu.



O mapa da Viagem em 80 dias original, de Londres a Londres, indo sempre para o leste.

Já o segundo exemplo, são as diversas adaptações das obras A Ilha Misteriosa e Viagem ao Centro da Terra, que acabaram colocando tantas coisas novas e fizeram tanto sucesso, que são as versões dessas histórias conhecidas pelo grande público. Em Viagem, o mundo encontrado nas profundezas da Terra foi descrito nos filmes como um local onde seres pré-históricos ainda sobrevivem e formações rochosas e vegetais estranhas à superfície existem. Essas formações existem no livro, mas quanto aos seres pré-históricos, são descritos somente no sonho de uma das personagens e como uma hipótese para silhuetas observadas em uma mata. Somente fósseis foram encontrados acertadamente. Como há menção disso na obra, essas alterações são “perdoáveis” e fazem jus à mente criativa de Verne.

O caso, porém, são as adaptações d’A Ilha. Estas, sim, foram extrapoladas ao extremo. A trama original conta a histórias de norte-americanos que, durante a Guerra de Secessão, escapam dos sulistas com um balão, mas, devido a um furacão no Pacífico, acabam se perdendo e caindo numa ilha desconhecida. Essa ilha abriga animais já conhecidos e de tamanho normal, e os “náufragos do ar” utilizam-se de técnicas de engenharia e das ciências naturais para lá sobreviverem. Essa é a história (sem contar os outros personagens que acabam aparecendo e o final), porém, a versão mais conhecida pelo público em geral é a divulgada pelas adaptações cinematográficas ou televisivas, em que a ilha é habitada por seres de tamanhos assustadores ou monstros nunca antes vistos e que os “náufragos”, na maioria das vezes, não são os mesmos do livro.

Ou seja, concluindo, podemos dizer que, quando se trata de adaptar as Viagens Extraordinárias de Júlio Verne, a mente de diretores cinematográficos aflora e cria não uma adaptação, mas sim uma nova aventura. Ou seja, deixam de ser adaptações propriamente ditas e se tornam filmes baseados (se não apenas inspirados) nessas obras, o que já conta como uma homenagem a esse grande escritor. Porém, eu fortemente recomendo os livros antes dos filmes.

Texto escrito por Ivan Cardoso, do blog Prolixidade, e cedido gentilmente para o Blog JVernePt.

3 comentários:

André Coroado disse...

Tem toda a razão o nosso amigo Ivan Cardoso.

Não acho que seja realmente possível filmar uma viagem verniana de forma totalmente fidedigna às palavras do escritor: a magia e imaginação vernianas são tão potentes e contagiantes que somos levados a transfigurar radicalmente a história que nos é contada!

Já tive a oportunidade de ver alguns dos filmes baseados em obras de Verne, tais como 20 000 Léguas Submarinas (1954), A Ilha Misteriosa (graças a um aviso aqui no blog), A Ilha Misteriosa (com Omar Shariff), Viagem ao Centro da Terra (com o Brendan Fraser) e excertos das duas adaptações de Volta ao Mundo em 80 Dias.

Devo dizer que fiquei surpreendido pelas "fugas" ao conteúdo das obras, mas achei interessantes as abordagens realizadas, dada a natureza fabulosa e transcendente das maravilhas cinematográficas. Só nos casos da Volta ao Mundo em 80 Dias não gostei tanto dos resultados.

Aprendi que não podemos olhar para os filmes e para os livros da mesma maneira, sobretudo no que toca a Júlio Verne, sendo mais profícuo se apreciarmos a beleza das obras de diferentes tipos, dentro do seu domínio.

Ainda assim, concordo plenamente com Ivan Cardoso: as obras vernianas vêm sempre em primeiro lugar, sendo os filmes "apenas" uma merecida homenagem ao mestre literário!

Resta-me agradecer ao Ivan pelo magnífico texto em que conseguiu clarificar brilhantemente as suas ideias (com as quais me identifico) acerca do assunto em questão, sempre pertinente!

Frederico J. disse...

André, em relação aos filmes vernianos que viste, há muito que ando à procura de A Ilha Misteriosa (com Omar Shariff). Viste na TV ou compraste o filme? Sabes me dizer onde posso encontrar?

E obrigado pelos teus comentários que são sempre bem-vindos. São bastante interessantes e enriquecedores!

André Coroado disse...

Frederico, esta versão d' A Ilha Misteriosa (com Omar Shariff) foi alugada pelo meu pai (para mim) há uns anos no Instituto Franco-Português, aqui em Lisboa.

Provavelmente, ainda estará à disposição do público! Dado que vives no Porto, talvez não seja tão fácil adquiri-lo. No entanto, para um verniano activo e empreendedor como tu, acredito que isso não irá constituir qualquer tipo de obstáculo!

Obrigado pelos elogios aos comentários! Faço-os porque gosto do que leio nos posts e acho que devo manifestar a minha opinião.

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