domingo, 27 de abril de 2008

Crítica 'Os 500 Milhões da Begum (1879)'

Júlio Verne em sua melhor fase! Nesse livro o autor consegue, enfim, reunir o romance de aventura fantástica, com complexa fundamentação científica e mistérios que envolvem o autor. Agora, o autor não se prende por demasiado nem nas explicações físicas e químicas dos acontecimentos (como no Da Terra à Lua), e nem nas questões históricas e geográficas (como no Arquipélago em Chamas). Aqui, o que realmente importa é a AÇÃO, isto é, aquilo que os personagens fazem e constroem.

O enredo, resumidamente, inicia-se com a história de uma nobre milionária indiana (Begum) que morre e deixa 500 milhões (acho que de libras esterlinas ou de francos) para seus dois únicos herdeiros: o professor Sarracin, francês, e o professor Schultze, austro-alemão. Depois de cada um sacar suas fortunas, ambos resolvem aplicar o dinheiro em empreendimentos científicos, construindo cidades-estado na costa oeste dos Estados Unidos. Sarracin constrói a "Cidade da França", com planejamento urbanístico e sanitário que visa maximizar a qualidade de vida (e, em conseqüência, a produtividade do trabalho) de seus habitantes. Schultze, por sua vez, constrói a "Cidade do Aço", marcada pelo culto à obediência, na disciplina e na hierarquia, investindo pesadamente na indústria aramamentícia e exercendo controle totalitário sobre seus domínios. Naturalmente, as cidades vizinhas tornam-se logo rivais, e assim o livro conta a história de Marcelo Bruckmann, um jovem alsasciano (leste da França), que é mandado para trabalhar na Cidade do Aço servindo como espião da Cidade de França. Cabia a Marcelo se infiltrar nas organizações burocráticas dessa cidade para descobrir as armas secretas que o maligno Dr. Schultze estava desenvolvendo para destruir a cidade da França.

Mas lendo o livro com mais cuidado, o enredo descreve, em suma, o choque de modelos de desenvolvimento: o humanismo latino contra o militarismo germânico. Verne, infelizmente adotando estereótipos étnicos para fundamentar suas teorias políticas e institucionais (mesmo que isso fosse recorrente entre os autores do século XIX), discorre sobre as diferenças entre as formas de organização das duas cidades, com uma posição declarada pró-Cidade da França, apresentada como a "heroína", contra a "vilã" Cidade do Aço. Na verdade, Verne parece estar fazendo uma analogia à conjuntura política internacional de sua época. No final do século XIX, os dois principais impérios da Europa (a Alemanha do Segundo Reich e o Império Austro-Húngaro) se aliaram, junto com outros países, em um bloco chamado de Tríplice Aliança, e passaram a hostilizar os países vizinhos mais liberais (França e Inglaterra, que se aliaram à Rússia). Esse período, chamado de "Paz armada", em que os países se preparavam para uma guerra iminente, tendo como objetivo o controle político e militar da Europa, e, conseqüentemente de todas as colônias ná África e Ásia, mesmo faltando um estopim para o conflito, é a mesma situação em que as duas cidades-estado descritas no livro estavam envolvidas.

Para a sorte de Júlio Verne, e da humanidade como um todo, após duas Guerras Mundiais, ficou claro que o humanismo "latino" era superior social e institucionalmente ao militarismo "germânico". Contudo, após as guerras, os países germânicos absorveram muito melhor o modelo humanista-planejado de desenvolvimento, que se traduziram nas suas instituições sociais, políticas e econômicas de social-democracia, obtendo desse modo elevados padrões de qualidade de vida e IDH. Os países latinos, por sua vez, continuaram dominados por regimes autoritários (menos a França, a Costa Rica e outros poucos) até quase o último quarto do século XX.

Por último, é interessante ressaltar a importância que Júlio Verne dá à capacidade criativa individual de seus personagens como motor de todas as suas histórias. Ao contrário dos autores real-naturalistas, seus contemporâneos, que preferiam descrever seus personagens baseados nas suas relações com o meio social em que viviam (o "determinismo pelo meio" de Eça de Queirós e Aluísio de Azevedo), Verne descreve seus personagens principais como entes autônomos e totalmente dotados de livre-iniciativa. Assim, a toda a história do presente livro decorre dos investimentos pessoais de dois professores universitários europeus que subitamente descobriram-se milionários. Do mesmo modo, por exemplo, no livro "20.000 Léguas Submarinas", toda a história deve-se à ação de um príncipe hindu que, entediado de sua sociedade, resolve enclausurar-se em um submarino e navegar pelo mundo. Ou então o jovem oficial francês, que arrisca a sua vida para ajudar os gregos em sua guerra de independência contra os turcos, no livro "Arquipélago em Chamas". Certamente, a visão de homem de Júlio Verne, e sua diferença dos demais autores de sua época, é um tema muito interessante para estudos.

Crítica escrita por Ricardo Agostini, autor do blog Essa Metamorfose, e cedida gentilmente para o blog JVernePt.

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3 comentários:

Bruno Galassi disse...

Eu nao quero ser arrogante, mas na sua critica na parte em que e dito

"20.000 Léguas Submarinas", toda a história deve-se à ação de um milionário francês que, entediado de sua sociedade, resolve enclausurar-se em um submarino e navegar pelo mundo

Devo dizer que essa informacao e falsa, como e explicado na "Ilha Misteriosa" de Verne. Nemo, na verdade era um principe hindu que apos ter sua familia assassinada por britanicos declara guerra aos colonizadores de sua patria e resolve fugir e se isolar do mundo com algumas pessoas de sua confianca.

Frederico J. disse...

Obrigado Bruno Galassi, foi um erro nosso. O autor estaria com certeza a pensar no autor da obra e daí a confusão.

Saulo disse...


Os 500 milhões da Begun

Grande parte das invenções e avanços da engenharia são descritos quase de maneira premonitiva por Julio Verne (creio que não eram premonições, mas fruto de estudos de muitas teorias da época). Grande parte das visualizações de futuro estão relacionados a inventos principalmente da área da mecânica e eletricidade.Como profissional de engenharia sanitária, foi uma grande surpresa encontrar as visualizações de futuro de engenharia sanitária e saúde pública. Neste sentido destaco sistema de coleta e tratamento de esgotos, programa de atendimento de saúde familiar (parecido do que e o Programa Saúde da Família, trabalhos da Pastoral da Criança,...)

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