quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Crítica 'A Casa a Vapor (1880)'

Ainda que esta obra não esteja actualmente a ser editada, podemos encontrá-la em edições antigas brasileiras/portuguesas à venda em alfarrabistas (br: sebos) como também numa colecção de obras de Jules Verne que esteve recentemente à venda em Portugal e no Brasil que, sem dúvida, merece a pena ser procurada e comprada, se encontrada. O nosso amigo Luís Silva encontrou-a, leu-a e deixou-nos a sua crítica que apresentamos.

À Índia é onde Jules Verne nos leva nesta “A casa a vapor”. Em 1860, numa altura em que o poderio dos portugueses, que fora grande nos séculos XV e XVI, era quase inexistente, a Índia encontrava-se então principalmente dominada pelos ingleses. Apesar de viverem séculos sob o domínio de colonizadores, o povo indiano, não obstante bem domesticado, não deixava ainda assim de manifestar pontualmente algum desagrado com o jugo que lhes era imposto pela mão estrangeira. Foi assim que em 1857 se deu a Revolta dos Sipais na Índia setentrional. Jules Verne conduz-nos através desta obra usando como pano de fundo os reveses e sucessos a que tanto indígenas como conquistadores estiveram sujeitos, num ambiente crescente de revolta.

Evidenciando a sua fertilidade visionária, o autor fala-nos da construção de uma máquina a vapor que permitiria a quem a usasse, viajar pelas estradas transportando consigo a sua própria casa. Algo a que hoje em dia poderíamos muito bem chamar de auto-caravana.
Partindo da Calcutá na sua casa a vapor, os nossos personagens dirigem-se primeiro ao norte, até aos Himalaias, descendo de seguida em direcção a Bombaim. Nos Himalaias, que Verne nos descreve como “...uma sobreposição de montanhas, cuja altura não seriam capazes de exceder os Alpes sobre os Alpes, os Andes sobre os Andes, tal é a colossal elevação...”, pretende familiarizar-nos com os hábitos venatórios que tão enraizados estão na cultura britânica. Aí, e nessa época, dava-se caça intensiva aos tigres por mero desporto, com as consequências que todos nós conhecemos nos dias de hoje. Percorrendo todo o vale do Ganges, ficando nós a conhecer um pouco da cultura, história e dos rituais que naquela zona da Índia se praticam, facilmente a elegemos como um dos nossos destinos de viagem.

A aventura orbita à volta do ódio mortal que um indiano, Nana Sahib, mentor da revolução dos Sipais, e o inglês coronel Munro, responsável pelas terríveis represálias resultantes da revolução, nutrem entre si, representando um o oprimido e o outro o opressor, a Índia e a Inglaterra. Este sentimento que ambos alimentam entre si resulta, no caso do coronel Munro, do facto de Nana Sahib ter, durante a revolta dos Sipais, assassinado a mulher do inglês. No caso de Nana Sahib resulta do facto de o coronel Munro ter, consequência das represálias à revolta dos Sipais, feito questão de matar a companheira de Nana Sahib como vingança. É assim uma obra alimentada pelo ódio e pelo sofrimento...

Podemos simplesmente ler a obra imaginando onde se passa a acção, embora seja recomendável a utilização de alguma forma de contextualização geográfica, como um mapa ou qualquer ferramenta informática. Para além disto, torna-se muito mais enriquecedora a leitura caso tenhamos acesso às ilustrações que acompanham as obras de Verne, mas dado que raras são as edições que as contêm na totalidade, uma simples pesquisa pela internet facilita-nos o acesso às mesmas.

Para terminar, apesar de ter achado a obra agradável de se ler e encerrar muitas surpresas, não podia deixar de mencionar a tradução da edição a que tive acesso, que deixa muito a desejar com a presença, do inicio ao fim, de variados erros ortográficos que podiam ter sido evitados caso tivesse sido feita uma simples revisão.

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Crítica escrita por Luís Silva, tradutor para português de alguns contos de J. Verne.

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