terça-feira, 22 de março de 2011

O tsunami que inspirou 'O Eterno Adão'

Relembro que em 2005, e a propósito do tsunami que devastou as costas da Indonésia, eu escrevia, com um pseudónimo verniano, num fórum de aficionados da leitura, sobre a profética e última novela de J. Verne publicada em vida: A invasão do mar (1905).

Hoje, e perante as noticias, algumas exageradas, que nos falam de que o Japão pode sofrer um atraso de cem anos perante o terrível terramoto e a ameaça nuclear da central de Fukushima, não podia deixar de pensar numa outra obra do escritor gaulês publicada postumamente: O eterno Adão.

Neste estranho e enigmático relato a humanidade mostra-se impotente perante uma catástrofe natural, um cataclismo que submerge o mundo com as aguas do mar. É uma história sobre o eterno regresso e sobre os mesmos erros que comete a humanidade, o eterno Adão. Sem dúvida, este é o mais amargo texto que Verne nos podia deixar.


Quiçá, e digo quiçá porque não é um dado que tenha sido confirmado pelos biógrafos nem estudiosos vernianos, o tsunami ocorrido em 1883 tenha inspirado Verne para escrever o relato original que deu forma ao O eterno Adão. Agora vos explico o termo “relato original” porque há polémica sobre a autoria desta obra que, em parte, podemos considerar apócrifa.

Em 1883, uma onda de 40 metros arrasou a pequena ilha vulcânica de Krakatoa. Primeiro, aconteceu uma erupção vulcânica, depois um movimento sísmico que produziu a invasão do mar que atingiu a ilha. Diz-se que o estrondo que produziu a última erupção do vulcão Krakatoa é o som mais ruidoso registado em toda a história. Marinheiros, a 40 km da ilha, ficaram surdos e contaram-se milhares de vítimas em todas as ilhas próximas.


O eterno Adão foi publicado postumamente em 1910 num livro de recompilação de relatos intitulado Ontem e Amanhã. Júlio Verne escreveu um conto com o título original de Edom onde estava toda a base da história, porém, o seu filho Michel parece que adicionou certas coisas e esticou a história acabando por mudar o título do conto. De momento é impossível saber até que ponto Michel reescreveu a obra, já que o manuscrito original de Edom ainda está no poder dos herdeiros do escritor. Para complicar ainda mais a situação, diz-se que há três manuscritos, um deles com anotações manuscritas de Michel. Uma versão foi publicada em 1991 no Bulletin de la Société Jules Verne nº 100, Págs. 21-48.

Na narração localizamo-nos no vigésimo terceiro milénio da humanidade, a poucas horas do mundo ser coberto pelo mar. Conhecemos a história através de um dos sobreviventes num grupo de afortunados onde há alguns cientistas. Embarcados no vapor “Virginia”, chegam quase a morrer de fome a um novo continente surgido perto do que foi Cabo Verde. Os sobreviventes, o que resta da humanidade, têm que começar do zero e voltar à pré-história. Claro que tudo isto se sabe graças à descoberta arqueológico do diário.

Outra curiosidade da obra é que, a civilização que faz a descoberta, utiliza um idioma inventado. Há um verniano japonês (uma saudação daqui esperando que esteja bem junto à sua família) que afirma que os estranhos nomes próprios têm origem chinesa, outros que os nomes são jogos de palavras, em vários idiomas, que têm um carácter sexual (?). Alguns dos nomes são: Hars-Iten-Schu, Andarti-Ha-Sammgor, Mahart-Item-Schu…

O conto verniano, seja do pai ou do filho, não é a única obra literária em que ocorre um argumento semelhante. Por exemplo estas:


POST SCRIPTUM

O meu amigo Octavi Piulats começava assim um artigo, escrito há muito tempo na revista Integral, sobre a era post-Chernobyl:

Na Bíblia, no capítulo VIII do Apocalipse de São João Juan, lê-se:

10. E o terceiro tocou a trombeta; e caiu do céu uma grande estrela, a arder como um facho, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas;
11. E o nome da estrela é Absinto; e a terça parte das águas converteu-se em absinto; e muitos homens morreram por causa daquelas águas, porque se tornaram amargosas.

No dicionário Danae de Russo-castelhano, o mais acreditado da bibliografia espanhola, há a seguinte tradução para o termo “Chernobil”: Absinto (Absinthium lat.)”.

Terá o nome de Fukushima alguma coincidência tão curiosa como esta?

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Artigo escrito por Javier Coria (www.javiercoria.blogspot.com) e enviado gentilmente para o Blog JVernePt.

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