quinta-feira, 12 de julho de 2007

Crítica 'Viagem ao Centro da Terra (1864)'

Não sei ao certo onde comprei essa obra. Acho que foi em algum sebo, há muito tempo. Talvez a tenha herdado de alguém, algum dia. Não sei. Mas, ela estava lá, em minha prateleira, e, como fazia muito que não lia livros de literatura por simples entretenimento, resolvi dedicar uns 2 ou 3 dias para a leitura dessa obra tão famosa. É o tipo de obra que todos conhecem, mas sem nunca ter lido uma página. Sendo assim, já tinha uma idéia bem formada do que aconteceria a cada momento da obra, embora não conhece nenhum dos seus detalhes específicos. Ou seja, apesar de se tratar de ficção científica, em função do desgaste histórico da obra, não há surpresa nos fatos narrados; isso mais por conta do leitor (hoje) do que do livro, pois o leitor contemporâneo já está acostumado com esse gênero e provavelmente já assistiu desenho animado demais. Tudo bem, esse não é o tipo de obra que se deva ler pelas surpresas, há muito mais em jogo.

Das centenas de edições de "Viagem ao centro da Terra" (voyage au centre de la terra, no original) a que li foi a da Editora Ática, lançada em 1994 na coleção "Eu leio", traduzida por Cid Knipel Moreira. Quanto a qualidade da tradução não posso testemunhar, pois não sou habituado com o estilo de Verne, nem com o francês, mas no geral a edição é boa. No livro há cerca de 10 páginas tratando do autor e do livro, constando inclusive uma reprodução de uma das ilustrações originais da obra; Júlio Verne teria sido muito cuidadoso para que a obra fosse bem ilustrada, considerava fundamental a percepção visual de sua obra escrita. As ilustrações da edição que li foram feitas por um tal de "Bilau" e têm um estilo HQ, ou seja, com bastante atenção aos detalhes dos personagens (desenhados basicamente em caneta nanquim de ponta fina) e fazendo muitos jogos de luz e sombra. Esse estilo é interessante, mas eu acredito que peque um pouco na interação personagem/cenário. Fazendo uma analogia com o cinema, parece que as ilustrações foram "filmadas com fundo azul"; o cenário está lá, o personagem também, mas parece que eles não estão "juntos". Pela impressão que tive da gravura original, no original, em função do próprio estilo da ilustração, estão mais inteirados homens e paisagens, o que garante mais movimento para a cena.

Sobre a estória contada no livro há muitos aspectos que podem ser observados. Em linhas gerais ela relata a estória de um cientista do século XIX, defensor de uma antiga teoria que afirmava que a Terra era oca, que em seu centro provavelmente existiriam lagos e oceanos, possivelmente um sol central e talvez até formas de vida. Essa teoria, mesmo no século XIX nunca foi muito bem aceite pela comunidade científica, embora possuísse alguns vários adeptos; por outro lado a teoria do "fogo central" era a mais aceita (e continua assim até hoje), ela afirmava que o centro da terra é composto por uma fusão de metais em altíssimas temperatura e pressão. Na época houveram disputas épicas entre cientistas defensores de cada uma das teorias, alimentadas principalmente pelas falhas mútuas e impossibilidade de prática de testar a teoria (ir efetivamente ao centro da Terra e "ver" a verdade). Pois bem, o cientista da estória acha um registo de uma suposta viagem ao centro da Terra feita por um alquimista do século XVI. Com base nas anotações do alquimista ele parte para um vulcão que possuiria uma caverna que levaria ao centro da Terra. Junto com ele vai um guia nativo e seu sobrinho, este último completamente descrente de qualquer possibilidade de sucesso da expedição; o sobrinho é um jovem pesquisador defensor ferrenho da teoria do fogo central. Um aspecto interessante da obra é que durante toda a expedição tio e sobrinho travam várias batalhas teóricas, cada qual defendendo algumas das teorias e apelando aos "fatos" para convencer o outro do "delírio" que estaria sofrendo (a ambiguidade desta frase é propositada, faz parte de uma interpretação minha do tema). No decorrer da obra a teoria da terra oca é comprovada, fornecendo material para a explanação de vários fatos não explicados pela ciência da época, há encontros com animais fantásticos e os viajantes passam por uma série de problemas frente as dificuldades impostas por um terreno tão indeterminado e desconhecido; mas sempre seguem em frente como numa espécie de loucura científica, um fator psicológico bastante explorado na obra.

Essa obra é muito útil caso queiramos traçar paralelos com as crenças populares e o furor do desenvolvimento científico. Os séculos XVII à XIX foram muito felizes para a ciência, sobretudo quanto as expectativas que foram criadas quanto a sua profundidade (como no caso do positivismo). Com a ciência positiva muitos passaram a acreditar que poderíamos, com aquele método determinado, conhecer todas as coisas, sob todos os aspectos. De lá para cá foram só estocadas contra essa concepção e a própria ciência teve que se adaptar à muita coisa. Hoje, ficção científica é um gênero bastante respeitável, mas já perdeu muito espaço para tudo o que trata do espiritual, indeterminado, oculto e inexplicável. Essa atenção às verdades não-científicas já existia, mas, de maneira geral, foi tratada pejorativamente como crendice e era deixada um tanto de lado pela camada "culta"; hoje ressurge das cinzas e disputa espaço lado à lado com livros que retratam teorias conspiratórias - "sabe tudo aquilo que você julgava verdade, eles mentiram para você" -, enquanto a ficção científica cambaleia procurando uma nova forma.

Crítica escrita por Fernando Moreira, autor do blog Canecas: Idealismo Antártico, e cedida gentilmente para o blog JVernePt.

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