quinta-feira, 22 de maio de 2014

Há 130 anos J. Verne voltou a Portugal

No dia 22 de Maio de 1884, há precisamente 130 anos, Verne volta a Portugal, depois de nos ter visitado em 1878, num cruzeiro que o levaria a Roma onde foi recebido pelo papa Leão XIII. Desta vez, em resultado de uma avaria no motor, o Saint-Michel III demora-se em Vigo e chega a Lisboa às 15h depois de ter passado pelo Cabo da Roca e pelo forte São Julião da Barra, onde registou no diário as suas observações.


Saint-Michel III

Já em terra, alugando um veículo e pago 1000 reis, deslocou-se ao consulado, onde tratou com Sr. Salva (cônsul), de assuntos referentes à sua viagem. Voltou ao seu iate, por voltas das 18.30 horas, onde jantou. Após, aproveitou para visitar a Corveta-Couraçada “Vasco da Gama” (antes da reconversão para cruzador em 1900) e o Transportador “África” lá atracados. Voltou ao seu iate para pernoitar.

No dia seguinte, levantou-se às 5.30 devido à grande agitação no porto. Partiam, para navegar a montante, pequenos barcos com grandes e inclinados mastros e altas velas.
Aproveitou a manhã para percorrer as largas ruas de Lisboa e visitar a praça Dom Pedro IV (Rossio), como também David Corazzi no seu escritório. Agora na companhia de Corazzi, foi à “Loja do Pinto” e comprou 4 toneladas de carvão e 50 litros de óleo para o seu Saint Michel.

Em seguida, dirigiram-se aos correios onde se encontrava uma carta de Honorine, sua mulher.
Voltaram a bordo do iate às 13h para almoçar lagosta e às 14h decidiram ir visitar o amigo e banqueiro Jorge O’Neill a sua casa. Conversaram e contaram histórias durante algumas horas.
Ao final da tarde, e por convite de David Corazzi, aproveitou para se encontrar de novo com Manuel Pinheiro Chagas (na altura Ministro e Secretário de Estado da Marinha) e com os escritores Salomão Saragga e Ramalho Ortigão. Este encontro foi no Hotel Braganza, no nº45 da Rua Vítor Cordon (antiga Rua do Ferragial de Cima), em Lisboa, célebre por ser também um ponto de encontro do grupo "Os Vencidos da Vida".

Hotel Braganza, no nº45 da Rua Vítor Cordon, que tive o prazer de visitar

Ramalho Ortigão fez saber a Verne que Eça de Queiroz (1845-1900), uma figura do maior prestígio nas letras portuguesas, no seu célebre romance "O Mandarim" teria feito a descrição da cidade de Pequim, e da China, baseando-se em elementos colhidos da leitura de “As Atribulações de um chinês na China". Outro conviva foi o célebre pintor Columbano Bordalo Pinheiro, que lhe ofereceu, um esplêndido prato de louça das Caldas da Rainha, representando um lagarto e outros animais. Esta curta estadia inspirou Rafael Bordalo Pinheiro que, no seu famoso e mordaz jornal "António Maria" do dia 29 de Maio, apresentou a caricatura de Júlio Verne ao tamanho da página, acompanhada do seguinte texto:

Página do "António Maria" de 29 de Maio de 1884. (clique para ver o original)

"Júlio Verne o ilustre escriptor francêz, chegou a Lisboa, jantou com David Corazzi e com outros convidados d'aquelle editor, entre elles este seu creado e foi-se. Só andando com esta pressa, póde fazer viagens à Lua no tempo que qualquer gasta em ir à Porcalhota (antigo nome da Amadora) comer coelho guisado. Que tanto elle como seu irmão Paul, façam boa viagem aos antípodas em 1 hora e ¾ e que se voltarem a Lisboa se demorem mais um bocadinho para lhe mostrarmos o jardim da Europa à beira mar plantado."

Após o jantar foram todos ao teatro e por volta das 23.30h Verne despediu-se e voltou ao seu iate onde pernoitou pela segunda vez. Como curiosidade, precisamente um anos depois do seu regresso a Portugal, o seu amigo Victor Hugo viria a falecer.

Às 6h da manhã de sábado, dia 24 de Maio, o céu estava muito nublado e o Tejo lotado de embarcações. Porém, o mar estava maravilhoso tendo sido possível atingir os 9,5 nós no seu Saint-Michel III rumo a Gibraltar.

Infelizmente Verne não tornou a voltar ao nosso país por motivos de saúde.
Para além do já citado "António Maria", outros jornais, como o "Diário de Notícias" e "Diário da Manhã" (dirigido por Pinheiro Chagas) apresentaram, no dia 24 de Maio, notícias acerca desta segunda visita de Verne ao nosso país:

"Está novamente em Lisboa este célebre romancista. Chegou ante-hontem ao Tejo no seu bello yacht a vapor, St Michel, vindo de Nantes em oito dias, tendo arribado em Vigo por ter a machina do navio soffrido uma pequena avaria."
"Passou hontem o dia em Lisboa este illustre escriptor. Chegou ante-hontem no seu yacht Saint-Michel. Às 9 horas desembarcou e foi ter com David Corazzi. Às 6 horas foram jantar cremos ao hotel Braganza, assistindo á refeição o sr. ministro da marinha (Salomão Saragga). Verne esteve fallando muito tempo com o sr. Jorge O'Neill (amigo e anfitrião de Hans Christian Andersen) e ficou tão encantado com esse cavalheiro que tenciona descrevel-o n'um dos romances que vai escrever. Julio Verne parte esta madrugada para Oran."
Informação cedida por Pedro O'Neill.

No dia seguinte, 25 de Maio, o "Diário de Notícias" e "O Século" apresentaram as notícias a seguir citadas:

"Partiu hontem de madrugada, no seu yacht St. Michel para Oran, o romancista Julio Verne. Foi-lhe offerecido na vespera um jantar no Hotel Braganza, e um dos convivas, o sr. Rafael Bordalo Pinheiro, deu-lhe um esplêndido prato de louça das Caldas, representando um lagarto e outros animaes."

"Chegou a Lisboa na quarta-feira às 9 horas da noite, arribado, por causa do mau tempo, o notavel romancista Julio Verne. Hontem foi-lhe offerecido pelo sympathico editor David Corazzi um jantar a que assistiram muitos homens de letras. Às 9 horas devia ter partido o notavel escriptor. Saudamos o illustre escriptor."

Apesar das duas visitas, as duas únicas referências a Portugal nas dezenas de livros de Verne são lugares-comuns.

Primeiro, o escritor criou uma personagem portuguesa, "pouco simpática" segundo Margot: um marinheiro, como seria de esperar. E deixou que uma outra personagem falasse d'Os Lusíadas como uma obra da literatura espanhola, jogando com o lugar-comum da rivalidade cultural luso-castelhana. Estes episódios foram contados pelo verniano suíço Jean-Michel Margot, presidente da "North American Jules Verne Society", numa conferência no Instituto Franco-Português, em Lisboa.

Em época de datas redondas, Margot aproveitou para contar um episódio original do comemorativismo português, ocorrido em 1923. Nesse ano, antecipando-se cinco anos à data correcta, a Sociedade de Geografia comemorou em Lisboa os 100 anos do nascimento de Júlio Verne. Entre os oradores, contou, terá estado o aviador português Gago Coutinho.
Hoje, o orador Margot assume uma mensagem contracorrente:

"Dizer que (Verne) previu, que foi um visionário... deixem-no ser um escritor: foi um dos melhores do século XIX."

Notas:
-nas notícias de jornal foi mantida a grafia original.
-este mesmo texto encontra-se também no site JVernePt.
-para a elaboração deste texto foi fundamental a visita a várias bibliotecas nacionais, a visita ao
Hotel Braganza (Lisboa), a compra de livros franceses aquando da minha visita à Maison Jules Verne (Amiens) e a cedência de informações do diário de J. Verne (este encontra-se na Biblioteca de Amiens numa zona com acesso restrito) por vernianos de grande renome que pediram o anonimato. Por estes motivos, é expressamente proibido a cópia parcial ou integral deste artigo sem se citar o autor do texto, Frederico Jácome, e o Blog JVernePt (www.jvernept.blogspot.com).
-o meu obrigado a Pedro O'Neill pela cedência de algumas cópias dos jornais da época obtidas pelas suas constantes visitas a bibliotecas da sua cidade.

1 comentário:

Carlos Patrício disse...

Estupenda pesquisa, Fred. Parabéns.

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