segunda-feira, 22 de junho de 2009

A megalomania de Michael Todd



Baseado na obra literária de Júlio Verne, o filme “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, de 1956, consegue ser uma das comédias mais fascinantes, suntuosas, faraónicas e megalomaníacas de seu tempo. A história, que cativava muitos produtores desde os anos 40, estava engavetada em alguma escrivaninha da Warner. Era tida como algo tão nababesco que seria impossível transpor sua concepção literária para a materialização do cinema. Até que o produtor Michael Todd resolveu quebrar todos os dogmas envolvendo o assunto e, remando contra a maré, arriscou suas fichas e apostou na ideia. Ele, de fato, sempre fora um inveterado apostador.

Para a história do cinema contemporâneo, Todd será sempre lembrado como o produtor de A Volta ao Mundo em 80 dias. Fora o seu primeiro e único filme. Resultado: foram 8 indicações ao Oscar e 5 estatuetas; melhor fotografia, melhor roteiro adaptado, melhor edição, melhor música e, para arrebatar, melhor filme. Um índice invejável.

A concepção da película tornava sua produção demasiadamente cara: a maioria das gravações ocorria em ambientes externos; 13 países serviriam como pano de fundo para ambientar a história; 68.894 figurantes; 74.685 peças de figurino; 6 milhões de quilómetros percorridos ao término das filmagens; 90 domadores que ficaram responsáveis por 8.500 animais que entrariam em cena; 140 cenários construídos.

Detalhe: Todd foi conseguindo um empréstimo aqui, outro acolá... Teve de driblar seus credores, inúmeras vezes, durante as filmagens e precisava provar a todos que aquilo não se tratava da maior barca furada da história de Hollywood. Para ajudar, o primeiro diretor do filme, John Farrow, foi sumariamente demitido logo em sua primeira semana. Em seu lugar, o jovem e desconhecido à época, Michael Anderson, que ficaria mais tarde conhecido por filmes como “As Sandálias do Pescador” e “Operação Crossbow”, fora recrutado.

Na obra em questão, fica claro a predileção do diretor em usar e abusar de takes com as lentes “Grande Angular”, para dar discernimento de espaço, amplitude e pontos longínquos ao cerne da cena. Tudo, sempre com movimentos absolutamente perfeitos amparados por um edição de primeiríssima linha.

O elenco é outro show à parte. Um verdadeiro grupo, que contava com o mestre David Niven, o fabuloso Cantinflas e a ainda novata Shirley Maclaine. Mas, como tudo aqui tem um “q” de afetação, Todd criou uma nova modalidade em se tratando de aparições em filmes: o papel camafeu. Tratava-se de uma pequena ponta feita por um grande nome da indústria. Não que seu papel fosse pequeno; nessa nova concepção de Todd era como se um espaço fosse aberto para a “assinatura” de um grande astro. E, no decorrer das gravações, uma corrente de estrelas fez questão de participar. Há aparições de gente como Frank Sinatra, Peter Lorre, Buster Keaton e Marlene Dietrich, só para citar alguns.

O filme nos dá um retrato da sociedade burguesa da Inglaterra, em fins do século XIX. A aristocracia costumava se reunir em clubes ultra tradicionais, para ler os jornais, jogar xadrez, tomar chá e fazer apostas com as cartas. Numa dessas reuniões, um figurão bretão aposta que Sir David Niven seria incapaz de dar uma volta completa no mundo em 80 dias. É o ponto de partida para uma das mais divertidas aventuras já realizadas pelo cinema.



Ninguém melhor nesse mundo que Niven para ilustrar o típico inglês: sistemático, sempre pontual, de modos pragmáticos, de ar petulante, senso imperialista, tom sofisticado, gestos delicados, muito educado (até quando ofende alguém), enfim, todas essas características fundidas, com precisão de dosagem, deixam o personagem de Niven sempre com um ar cómico. Impossível não rir e não se apaixonar. Mesmo ficando claro que para eles, os ingleses, o resto do mundo era visto como uma aldeia tribal, composta por seres ferozes e animalescos, prontos para serem doutrinados e dominados pela cultura da Rainha. Incrível ver o enorme desdém despejado por Niven por tudo o que é americano, durante a passagem dos aventureiros por lá.

Impossível, também, é não falar da presença do maior comediante da história do México: Cantinflas. Ele era o ator mais rico do mundo, em 1955, quando foi convidado a participar do projeto. Trata-se de seu primeiro filme em língua inglesa e um dos raros em que atuou até o fim de sua carreira. Mario Moreno, o Cantinflas, arrasa nesse filme. Além de notório comediante, ele dança, faz malabarismos, enfrenta um touro durante uma tourada na Espanha, doma cavalos e inventa as mais improváveis peripécias. Seu modo visceral, gestual e físico de fazer comédia pode ser comparado com o de Buster Keaton, ainda mais pela ausência total de dublês. Cantinflas, oriundo dos palcos de pequenos e modestos circos mexicanos, emana a mais pura luz, em cada cena que aparece. É o showman, um artista nato, daqueles tão raros de se encontrar nos dias de hoje.



Com um final escandalosamente incrível e engraçado, seria , no mínimo, injusto de minha parte não dar a nota máxima a essa obra que, ainda, abriu as portas para que outros profissionais ingleses fossem respeitados e premiados nos Estados Unidos, pondo fim a um ranço histórico entre colonizado e colonizador. Compará-lo ao remake de 2004, com Jackie Chan, seria de uma deselegância com David Niven que sinto-me na obrigação de me abster sobre o assunto.

Fiquem com o trailer deste magnífico filme:



Por Thiago Fernando Secco, do blog Salada de Filmes e cedido gentilmente para o Blog JVernePt.

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