quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Crítica 'Os Filhos do Capitão Grant (1868)'

Parte 1:

Lancei-me novamente na leitura de Júlio Verne, que tanto me move. Admiro os seus amplos conhecimentos de quase todas as matérias e a sua imaginação fértil e em constante invenção.

Bem, falo-vos agora do primeiro volume de uma trilogia que relata a verdadeira odisseia promovida por Mary e Roberto Grant em busca do seu pai, o capitão Grant. Parte-se do pressuposto de que este valoroso marinheiro escocês naufragou juntamente com dois companheiros. E como se sabe isto? Tudo começa de uma forma completamente fantasiosa, digna das histórias mais criativas de marinheiros piratas e tesouros. A bordo do “Duncan”, o “yacht” pertencente a lord Glenarvan (homem de longa linhagem, considerado como um verdadeiro escocês, amante profundo da sua pátria, riquíssimo mas grande filantropo), é pescado um tubarão cabeça-de-martelo, de cujas entranhas se recolhe uma garrafa… de dentro dela, sai uma mensagem de socorro!

Pois bem, é a partir dessa mensagem que lord Glenarvan, seus companheiros, servidores do seu castelo na Escócia, e sua mulher, vão inferir o paradeiro do Capitão. Julgam-no algures na Patagónia, refém dos índios. Glenarvan e lady Helena (a mulher) vêem recusada a ajuda do governo para ir em busca do capitão e decidem, por meios próprios, fazerem-no eles. Mary e Roberto acabam por se lhes juntar.

Bem, à partida estão lançados os elementos para mais uma louca aventura, bem ao gosto de Verne, mas penso que, desta feita, resulta um pouco inferior. Pelo menos, em relação ao que já li dele e sobre o qual opinei há algum tempo. Estava tentada a dar-lhe 3 estrelas mas acabo por lhe dar mais meio valor, pelo que arredondo para 4.

Notei, logo de início, algo curioso: o imenso patriotismo. Todos os homens que servem na casa de Glenarvan são descendentes de escoceses puros. Glenarvan faz parte da mais pura e elevada linhagem nacional e fez questão de se rodear desses homens valorosos. Depois, a própria mulher também reúne esse requisito precioso, apesar de pertencer a famílias muito modestas. Por último, todos eles se lançam no encalço de um escocês corajoso que se vê abandonado pelo seu próprio governo.

Portanto, parece, efectivamente, uma ode à Escócia, contra a Grã-Bretanha. Depois, achei curioso mas perfeitamente compreensível o trato dado às mulheres. É preciso perceber que estamos na segunda metade do século XIX. Lady Helena e Mary têm aqui um papel subalterno, são eclipsadas durante grande parte da obra e são tratadas com alguma condescendência: “as mulheres, segundo se diz, são sempre um tanto curiosas.” (pág. 9).

Houve várias coisas que não me agradaram tanto neste volume de Júlio Verne, portanto. Para além do patriotismo exacerbado e do extremo nacionalismo e independência destes escoceses face à Inglaterra (embora, não sem razão), achei o discurso do autor demasiado romântico – no sentido da corrente literária com o mesmo nome. Um dos exemplos mais significativos é o momento de fervor religioso na Igreja de Saint Mungo (pouco antes da partida para a América do Sul).

Depois, achei um pouco presunçoso e até mesmo cínico, o discurso de Glenarvan e lady Helena. Estas duas personagens dizem-se movidas pelo desejo sincero de salvar um compatriota e ajudar os seus filhos mas parecem fazê-lo por condescendência (do mesmo modo que a Lili Caneças foi ao bairro do Fim do Mundo ou os americanos para o Iraque). Ou seja, são os exemplos típicos dos patronos ricos que se sacrificam em prole dos desgraçados (fazem o seu dever). Por muito que as intenções sejam verdadeiras, a mim eles soam-me a artificial.

Tenho ainda a apontar a visão de Júlio Verne acerca da ilha da Madeira na época. Ainda que justa, não deixa de ser desoladora: “Nada oferece de interessante a um geógrafo [aqui, refere-se a Paganel, geógrafo que também os acompanha]. Tem-se dito e escrito tudo quanto é possível a respeito deste grupo, que, aliás, se acha em grande decadência sob o ponto de vista da vinicultura.”

A viagem tem início e encaminha-se para a América do Sul, mais propriamente para o Chile, cordilheira dos Andes e Pampas argentinas.

Júlio Verne é um homem de uma cultura imensa. A descrição que faz do povo autóctone, bem como dos seus costumes, personalidade, condições atmosféricas e de viagem é apaixonante. Percebe-se, contudo, que Verne se comporta como um cientista, observando analiticamente o que o rodeia. Isso dever-se-á certamente ao facto de a sua formação académica ser de Direito e a maior parte dos temas que ele abordava nos seus livros estarem fora do seu leque de conhecimentos. Assim, foram muitas as horas de pesquisa empreendidas na construção de cada uma das suas obras. Júlio Verne faz ainda, por vezes, juízos de valor, sobretudo no que respeita à suposta inferioridade dos índios e dos negros face aos brancos mas fá-lo de modo natural para a época.

Verne é também muito didáctico, mostrando-se muitíssimo interessado e informado acerca dos viajantes e descobridores que haviam passado por estes lados do Novo Mundo.

A viagem ao longo da cordilheira dos Andes é belíssima, mas não passa sem os habituais perigos que uma escalada nestas altas montanhas comporta. Verne consegue colocar-nos a viajar juntamente com as suas personagens.

De todas elas, a mais excêntrica e curiosa é um francês, o geógrafo e sábio Paganel. Para já, é muito mas mesmo muito distraído e acaba por entrar no “Duncan” por acaso, quando o seu verdadeiro objectivo era a Índia. Apesar de muito inteligente e pró-activo, acaba por estudar português em vez do espanhol. Achava, pois, muito estranho que os nativos não compreendessem o que dizia. Afinal tinha lido “Os Lusíadas" e aprendido português. Também não deixa de ser curioso que seja um francês, mesmo o mais distraído deles, a arrancar do documento achado no tubarão uma interpretação completamente contrária à que todos haviam presumido inicialmente. Apesar de tudo, para mim, é o que está melhor caracterizado, de forma mais expressiva e original. Destacam-se, depois, o índio Thalcave, Glenarvan e Roberto. Os restantes quase não existem, ouvimo-los poucas vezes e de forma inexpressiva e desinteressante.·

Mas Júlio Verne compreende perfeitamente que episódios ou acontecimentos entremear com os momentos mais mortos do percurso. Exemplo disso mesmo são as horas de tensão no deserto salgado, em busca de água, o ataque dos lobos vermelhos e o desaparecimento de Roberto (em dois momentos: durante o tremor de terra e aquando do ataque dos lobos).

Verne é mestre em atiçar quer a curiosidade (imensa informação sobra as Pampas: fauna, flora, hábitos humanos, raças de índios, os conflitos intestinos na Argentina, a colonização) quer a tensão dos leitores.

É um livro repleto de emoções, não há momentos parados, mas não se compara com outras obras de Verne, pelo menos as mais emblemáticas e pelo menos este primeiro volume. Percebe-se que o livro cresce e até o seu desfecho é apoteótico, embora não sem a sua pontinha de acção. Sentimo-nos transportados para os locais calcorreados pelas personagens e não é sem alguma nostalgia que partimos da Argentina. Para onde vamos, saber-se-á no segundo volume.

Verne prima pela imaginação e é um gosto andar a caçar tatus ou nandus para o jantar; dormir nas árvores; atravessar os Andes; deslizar numa placa de terra arrancada ao solo depois do terramoto; fazer fogueiras à noite e dormir ao relento; quase morrer de sede no deserto; ver os animais mortos nos pântanos.

Enfim, aconselho a quem já tenha lido melhor do aturo e seja persistente na contínua perseguição das suas obras. Penso também que será melhor esperar pelos outros volumes. Apesar de não ter sido uma desilusão completa, não me apaixonou por aí além. Acaba por salvar-se das 3 estrelas porque ganha um fôlego maior a partir da jornada no terreno, mas há muitas arestas por limar.

Refiro ainda que li o livro através da colecção lançada pela RBA Editores, que não é nada de especial mas é barata – com a desvantagem de ter aquele papel rugoso e amarelado que não gosto nada.


Parte 2:

Com muitíssimo menos entusiasmo que no volume primeiro desta saga, acabei o segundo volume. Decididamente, o benefício da dúvida que havia concedido a Verne não teve grandes frutos. Até agora, foi das obras mais desinspiradas que li do autor. Depois de um primeiro volume empolgante, cheio de aventuras deliciosas, Verne desilude completamente.

A expedição de lord Glenervan segue a pista do documento encontrado no estômago do tubarão e continua a sua demanda, desta vez, pelas terras da Austrália, depois da passagem atribulada pela Argentina.

Tinha colocado algumas expectativas quanto ao seguimento da obra e acabei por vê-las absolutamente goradas. Este segundo volume é uma sombra, o reflexo muito, muito pálido do estilo, da imaginação contagiante do autor. Parece-me mesmo que constitui um acidente de percurso, esperando eu que a última parte da busca pelo capitão Grant possa redimir Verne – pelo menos, aos meus olhos.

Tenho a nítida sensação de que Verne andou à deriva, como que inventando tema para encher um volume extra. Continuam, contudo, a persistir aqueles traços que fazem de Verne um autor fascinante. Sobretudo, o constante optimismo e a descrição das soluções mais improváveis nos momentos em que já não resta qualquer esperança. Isso acontece menos abundantemente no segundo volume, mas dá-se, por exemplo, com o aparecimento de Ayrton, que alega ser um dos náufragos do Brittnania.

Pelo meio da narração fantástica, Verne inclui as já habituais informações factuais, apesar de aqui quase se limitarem a uma descrição enfadonha, sem espírito, informações às quais todos nós hoje podemos aceder – talvez à época da sua edição, a informação contida no livro se revestisse de maior interesse e importância. Gostei de saber, por exemplo, num dos raros momentos em que Verne discorre de forma a interessar, que a Austrália, como país colonizado pelos ingleses, apresenta – à semelhança do continente africano –, uma divisão territorial perfeitamente geométrica, sem olhar às particularidades da topografia nem da cultura e geografia.

Curiosa mas não surpreendentemente, é Paganel, o geógrafo francês, o crítico mais amargo da visão colonizadora inglesa e o que mais se insurge contra alguma falta de sensibilidade nesse processo. É na pessoa de Paganel e na do major Mac-Nabs, aliás, que se centrará umas das discussões mais tendenciosas e nacionalistas deste livro e do conjunto dos dois volumes. Esse momento é o da discussão acerca do progresso, em que Paganel representa a posição tradicionalista francesa e o major, britânico, a posição que passa sobre o passado uma esponja (“- O que importa, se o progresso penetra nele! – replicou o major”, pág. 153 da versão da RBA Editores). Não deixa de ser curiosa a disputa de nações que, aliás, está presente de forma mais acentuada no discurso do geógrafo. Indiscutivelmente, a mentalidade desta segunda metade do século XIX tem de ser compreendida e aceite. Não querendo ver com repugnância, através dos meus olhos de século XXI, o discurso de Verne, tento compreendê-lo. Verne, para além de tendenciosamente nacionalista, mostra ainda uma ideia que permanece desde o primeiro volume: o menosprezo pelos indígenas. Desta vez, muito curiosamente, não temos um índio companheiro e fiel que surja por toda a obra, mas apenas um fugaz rapazinho selvagem que desaparece em poucas páginas sem nunca mais ser mencionado. O porquê da sua aparição tão lacunar permanece um mistério, embora me pareça que tenha servido apenas de base de discussão. Nesta altura, Toliné, o selvagem, é apresentado como um indígena cristianizado, evangelizado, que aspira a ser missionário, no seguimento daquela ideia secular de que as almas perdidas dos selvagens sem credo têm de ser salvas – ainda hoje os indígenas brasileiros são enganados por falsos profetas. O que é certo é que eles têm os seus próprios credos, adorando e respeitando a natureza, algo considerado como pagão e herético aos olhos da Igreja.

A descrição que Verne faz da Austrália nada tem a ver com a feita aquando da peregrinação pela América do Sul. O autor torna-se apenas num relator de datas, nomes de exploradores e dados estatísticos sobre a exploração do ouro neste país. Porém, é no ponto em que descreve os números da exploração aurífera que Verne demonstra plenamente ser um homem do seu tempo – embora possamos, noutras obras, vê-lo como um precursor, muito para lá do século XXI. Verne diz-nos que “Os países auríferos não são privilegiados. Só criam populações ociosas e nunca raças fortes e trabalhadoras. Veja-se o Brasil, o México, a Califórnia, a Austrália! Onde estão eles no século XIX? O país por excelência, meu rapaz, não é o país do ouro, é o país do ferro!” (pág. 188). Apesar de considerar a Califórnia como um país, Verne, através de Paganel, tem aqui uma das mais marcantes frases e conceitos do livro.

Por outro lado, continua, à semelhança do primeiro volume, a ideia de que as mulheres são demasiado frágeis ou histéricas para estarem a par das decisões mais sérias. Embora também possamos compreender esta mentalidade, para as mulheres mais feministas, é capaz de lhes pôr o cabelo de pé :)

Verne repete, pois, as mesmas fórmulas do primeiro volume, mas faltam-lhe aqui aquelas que conferem verdadeiro interesse à leitura. Nem sequer a lamechice romântica, o exagero sentimental o encontramos, excepto, talvez, na aproximação de John Mangles a Mary Grant.

Este segundo volume decai imenso em qualidade e entusiasmo. Para além do desaparecimento prematuro e inexplicável de Toliné, o episódio do crime em Camden-Bridge é mencionado de forma superficial e sensacionalista, porém fugaz. Nem mesmo o twist final apaga o sabor amargo do resto da obra porque as pistas deixadas por Mac-Nabs tornam-no absolutamente previsível.

Numa atitude aparentemente desesperada, Verne inventa uns episódios de dificuldades no deserto a caminho de Twofold-Bay, onde o yacht Duncan os devia esperar – depois de percorrerem a Austrália de uma ponta à outra. Ora, durante mais de 200 páginas é a pasmaceira, não é assim, à pressa, que se redime uma má obra.

Portanto, desta vez, a desilusão foi grande, Verne leva 2 estrelas. Contudo, esta travessia no deserto torna-se necessária para chegarmos ao desenlace da aventura, no terceiro volume, pelo que aconselho a leitura apenas aos mais resistentes – embora já se possa adivinhar qual será o derradeiro desfecho (não convém que sejam demasiado curiosos e espreitem as ilustrações que se encontram adicionadas em qualquer das edições da obra de Verne, é que podem ficar a saber o final do livro através delas).

Há uma grande diferença de estilo, mas tenho ainda esperança no último volume. Sinceramente, espero não ter motivos para dar novamente uma pontuação tão baixa.


Parte 3:

E ao terceiro volume, Verne redime-se, sem, apesar de tudo, fazer um livro brilhante. É, certamente, muito mais empolgante e completo que o segundo (um enorme erro de percurso), concluindo – com sucesso ou não, não vou contar – a demanda em busca do Capitão Grant. Se bem se lembram, o capitão havia naufragado algures na Patagónia e os seus filhos, juntamente com toda a tripulação do Duncan, vinham-lhe seguindo o rasto desde aquele local, passando depois pela Austrália e, agora, pela Nova Zelândia. Verne dá-nos um impressionante testemunho da realidade neo-zelandesa – pelo menos, uma parte e um pouco tendenciosa –, focando, sobretudo, a fortíssima inclinação canibal das populações autóctones. Sempre expressando-se através dos seus personagens, percebe-se que Verne está em pano de fundo, sente-se a sua presença. Visivelmente chocado com estas práticas, será maioritariamente através de Paganel, o geógrafo francês excêntrico e distraído, que demonstrará de forma mais aguerrida a sua repulsa.

Neste último volume, perpassa um enorme sentimento de desilusão e resignação. Depois de infrutífera expedição pela Austrália, todos os tripulantes perderam a esperança de voltar a ver o capitão com vida.

Percebe-se ainda uma novidade, algo que vem contrariar o aparente facilitismo que o narrador Verne aplicava à narrativa. Desta vez, os tripulantes – lord Glenarvan, lady Helena, Mary e Roberto Grant, Wilson, Mulrady, Paganel e John Mangles – deparam-se com muito maiores dificuldades, já não temos aquela sensação de passeio de gente fina pelo meio dos selvagens. Agora, enfrentam naufrágios a sério, correm perigo de vida até ao último instante. Muito mais que nos volumes anteriores, sentimos estar a ler o verdadeiro Verne.

Mas o tema que domina grande parte do livro é o da antropofagia. Mais uma vez, os tripulantes se chocam e insurgem: “Mas como é que o cristianismo não pôde ainda destruir os costumes da antropofagia?” (pág. 67 da edição da RBA Editores). Todavia, apesar da narrativa interessantíssima das tentativas de cristianizar e dominar os povos autóctones da Nova Zelândia, Verne retorna ainda à narrativa aborrecida e desgastada da História do país através da descrição dos aventureiros que por lá passaram. Ora, isto acontece com frequência em todos os volumes e é, sinceramente, um aborrecimento de morte.

Neste volume, contudo, Verne introduz elementos ricos que acabam por compensar alguns outros mais entediantes. Atreve-se mesmo a algum suspense, pese embora ingénuo: “(…) quando na Nova Zelândia alguém está um ano sem aparecer (…), é porque se acha irremediavelmente perdido!” (pág. 99). É neste estilo que Verne nos tenta confundir em relação ao destino do capitão, não nos revelando nunca se nefasto ou benfazejo, até muito, muito perto do final.

Verne junta ainda a estes elementos que promovem o interesse, episódios de curiosidades. Por exemplo, adorei saber – sim, porque eu não sabia, confesso, e senti-me uma criancinha, a rir-me sozinha para o livro – que as focas engolem seixos de dimensões consideráveis para mergulharem a maior profundidade. Achei engraçado LOL! Também gostei muito da descrição sobre os kiwis, aquelas aves sem asas e bico longo e fino, tipicamente australianas – até as ilustrações do bicharoco estão um brinco.

O terceiro volume continua, apesar de tudo, a mostrar-nos juízos de valor bem depreciativos – mas compreensíveis – acerca dos indígenas. Para além da condenação sem compreensão prévia dos hábitos antropofágicos, quase que se goza com a bandeira utilizada por uma das tribos locais, referindo-se-lhe como “um pedaço de estofo que o vento fazia ondular no alto de uma cabana. Era a bandeira nacional.” (pág. 125). Bem, se formos realistas, o que é bandeira de cada país? Um pedaço de pano tingido, nada mais. Parece-me muito depreciativa e até ofensiva e racista – embora se perceba bem o contexto da época de Verne – que não se tenha em conta que a bandeira é o significado que se lhe atribui. Para quem a veja e não lhe conheça o simbolismo, não tem qualquer interesse ou significado.

Aquilo que Verne descreve de forma absolutamente impressionante é o luto dos neo-zelandeses, esse sim, um testemunho mais próximo de antropológico: “Os parentes e amigos dos guerreiros mortos [em combate contra os ingleses], as mulheres principalmente, rasgavam o rosto e os ombros com cortantes conchas. O sangue escorria e misturava-se com as suas lágrimas. As profundas incisões atestam grande desespero.” (pág. 133).

Ainda, Verne procede do mesmo modo ao descrever todo o cerimonial que rodeia o enterramento de Kara-Té Té, chefe tribal. Descrição extremamente vívida, sem tabus, mas ao mesmo tempo parcial, vista claramente pelos olhos de um ocidental. Aliás, será claramente desrespeitado e profanado o local do túmulo do chefe, apesar de por óbvia e absoluta necessidade. Esta visão ocidentalizante está constantemente expressa, até nas considerações acerca do criminoso Ayrton – antigo cabo de marinheiros do capitão Grant. As personagens criados por Verne estão impregnados de puritanismo, religiosidade ocidental exacerbada e cristianismo bíblico – é quase repugnante a forma como falam de Ayrton: como é que um homem com tantas capacidades usa a sua inteligência para o mal?

As novidades – algumas – de que falei não ofuscaram totalmente o renascimento do ideal Romântico, pelo que é possível que em alguns leitores possa surgir a náusea face aos sentimentos de John Mangles por Mary Grant, disposto a morrer por ela.

Não vos vou contar o final, para quem algum dia vá ler esta trilogia, mas deixo uma pequena nota de interesse sobre Paganel. Será muito curioso descobrir porque afinal, a partir de certa altura, o geógrafo andará tão silencioso e coberto de roupa até ao pescoço: “Paganel, ele que, em caso de necessidade teria inventado a esperança, Paganel conservava-se triste e silencioso.” (pág. 212).

Chegada ao fim do terceiro volume, só posso mesmo recomendar estas obras a quem se interesse muito em ler grande parte da produção escrita deste autor. Eu, sinceramente, apesar do desaire do segundo volume, aprendi muita coisa com Verne, aprecio a sua capacidade inventiva e imaginação viva, mesmo quando não estão ao seu mais alto nível. É o caso destes 3 volumes, irregulares e, em certa medida, repetitivos nas suas fórmulas. Ler-se-ão apenas por alguma teimosia. Verne tem obras muito superiores e de um só volume que valem muito mais por estes 3. Assim, dou 4 estrelas a este último por ser bem melhor que os dois anteriores mas, no cômputo geral da trilogia, daria 3 estrelas.

Crítica escrita novamente por Cátia Santos, autora do blog Há Fogo na Lua, e cedida gentilmente para o blog JVernePt. Poderão ler outra crítica da Cátia aqui.

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