sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Jules Verne - História da Edição Portuguesa (1873-2021) 9 - Os Tradutores entre 1873 e 1938

Cristóvão de Magalhães Sepúlveda Aires (1853-1930) – Tenente Coronel de Cavalaria, Professor Catedrático da Escola do Exército e deputado. Autor, entre outros, de História Orgânica e Política do Exército Português (1904) e Fernão Mendes Pinto e o Japão (1906)

Joaquim dos Anjos (1856-1918) – Jornalista; autor do Manual do Typógrapho (1886), director da revista O Grande Elias: Semanário Ilustrado, Literário e Teatral (1903-1905)


Tomás Lino de Assunção (1844-1902) – Engenheiro civil, funcionário do Ministério das Obras Públicas e dramaturgo; autor de Os Lázaros (1899) e Eva (1899); escreveu para as revistas Brasil-Portugal: Revista Quinzenal Ilustrada, Serões: revista semanal ilustrada e o jornal O Dia


Gaspar Borges de Avellar (1844-1889) – Escritor e jornalista; escreveu para o jornal portuense, Diário da Tarde


Aníbal Lúcio de Azevedo (1876-1952) – Engenheiro de minas, director da Casa da Moeda e deputado


Manuel Maria de Mendonça Pinto Balsemão (1836-1907) - Tradutor


Francisco Augusto Correia Barata (1847-1950) – Professor Catedrático de Filosofia na Universidade de Coimbra; autor, entre outros, de As Raças Históricas da Península Ibérica (1873) e Origens Antropológicas da Europa (S/D)


Mariano Cirilo de Carvalho (1836-1905) – Político e jornalista; escreveu para o jornal Gazeta de Portugal (1864-1867) e fundou os jornais Notícias, Novidades (1885), Correio Português e Diário Popular


Artur Urbano Monteiro de Castro (1850-1902) – Escritor e jornalista; director dos jornais Correio da Manhã, Diário da Manhã e A Tarde; autor, entre outros, de Rimas Simples (1895) e de Na Aldeia: Comédia em Um Acto (1896)


Manuel Pinheiro Chagas (1842-1895) – jornalista, escritor e político; autor, entre outros, de Poema da Mocidade (1864) e de uma História de Portugal em oito volumes (1869-1874)


José Fernandes Costa (1848-1920) – General de Artilharia e poeta; fundador e redactor único do Almanach Bertrand (1900-1920); autor de O Eterno Feminino: Realismos e Evocações (1910)


Fernando da Silva Correia (1893-1966) – Médico higienista, professor e escritor; autor, entre outros, de Leonor de Lencastre: Tragédia de uma Grande Alma (1932) e Vida Errada: O Romance de Coimbra


Henrique de Macedo Pereira Coutinho (1843-1910) – Professor Catedrático de Matemática na Escola Politécnica de Lisboa; Ministro da Marinha e Ultramar, sócio fundador da Sociedade de Geografia


Xavier da Cunha (1840-1920) – Médico, escritor e poeta; director da Biblioteca Nacional de Portugal (1902-1911); colaborou no jornal Gazeta de Portugal, autor, entre outros, de A Bíblia dos Bibliófilos (1911)


Pedro Guilherme dos Santos Diniz (1829?-1896) – Poeta e escritor; autor do poema Vozes dos Animais e, sob o pseudónimo de Amaro Mendes Gaveta, de As Folhas Caídas Apanhadas a Dente e Publicadas em Nome da Moralidade (1854), uma sátira à obra de Almeida Garrett, Folhas Caídas


Vicente Almeida d'Eça (1852-1929) – Militar, historiador e oceanógrafo; autor, entre outros, de Luís de Camões Marinheiro (1880) O Infante D. Henrique e a Arte de Navegar dos Portugueses (1894)


Augusto Maria Fuschini (1843-1911) – Engenheiro civil, pintor e aquarelista; Autor, entre outros, de O Presente e o Futuro de Portugal (1899) e A Arquitectura Religiosa na Idade Média (1904)


João Maria Jalles (?-?) – Militar, Professor Catedrático de Artilharia e escritor; autor dos volumes Geologia, Mineraologia, Gravidade, Trigonometria e Mecânica da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas da Editora David Corazzi


Manuel Maria de Macedo (1839-1915) – Pintor, cenógrafo e ilustrador; co-fundador e director artístico da revista Occidente (1878) e autor de Restauração de Quadros e Gravuras (1885), o primeiro livro sobre restauro e conservação de pintura editado em Portugal


António Higino de Magalhães Mendonça (18??-1920) – Pintor, jornalista e crítico de arte; colaborador do jornal Novidades


Henrique Lopes de Mendonça (1856-1931) – Militar, historiador e arqueólogo naval; autor, entre outros, de Sangue Português: Contos de Outro Tempo (1920) e Vasco da Gama na História Universal (1925)


José Coelho de Jesus Pacheco (1894-1951) – Militar, empresário do ramo automóvel e poeta; colaborou com as revistas Renascença (1914) e Correio Ilustrado (1916)


António José da Silva Pinto (1848-1911) – Escritor e dramaturgo; autor, entre outros, de Contos Fantásticos (1875) e O Padre Gabriel, Drama Original em Três Actos (1878)


Salomão Bensabat Saragga (1845-1900) – Proprietário e editor da revista Os Dois Mundos: Illustração para Portugal e Brazil (1877)


António Manuel da Cunha e Sá (1854-1909) – Director dos serviços de correio na estação central de Lisboa; escritor de romances históricos; autor, entre outros, de Da Parte D’El-Rei (1873) e Da Parte da Rainha (1874)


Agostinho Barbosa de Sottomayor (1845-1923) – Juíz


Pedro de Alcântara Vidoeira (1834-1917) – Escritor, jornalista e crítico cultural; autor, entre outros, de A Fidalga do Juncal (1904) e Nova Lírica Popular (1913)


* Não foi possível encontrar informação biográfica concreta referente aos seguintes tradutores: Pompeu Garrido, Francisco Gomes Moniz, Diogo do Carmo Reis, Napoleão Toscano e J.B. Pinto da Silva.

Jules Verne - História da Edição Portuguesa (1873-2021) 8

O período cronológico entre 1974 e 2021 é possível de ser retratado de forma mais telegráfica por duas razões: primeiro pela sua menor dimensão temporal face ao período de 1874-1973, mas, sobretudo, pelos critérios de nítida unidimensionalidade do próprio mercado editorial português no que diz respeito à obra de Verne.

O ano de 1974 trouxe uma democratização não só do regime político português, mas também da edição Verniana em terras lusas. Esta democratização teve aspectos positivos, porém pouco inovadores, face à posição (não somente em número de traduções e de vendas) que Jules Verne ocupa, ainda hoje, no panorama literário mundial.

A Bertrand prosseguiu a reedição da obra do escritor, apresentando apenas a publicação de um único título até então inédito (A caça ao meteoro, 1978), mas eclipsou-se paulatinamente do mercado para dar lugar a novos selos editoriais nas três décadas seguintes.


Na segunda metade da década de 1970, bem como nas décadas de 1980 e 1990, a publicação das obras do escritor foi feita pela já citada Europa-América, mas também pelo Círculo de Leitores, Livros do Brasil, Amigos do Livro e outros projectos editoriais de maior ou menor relevância que existiram nestes anos. Contudo, a estratégia comercial seguida por todas estas editoras pautou-se sempre por um espírito demasiado púdico e conservador: uma vez mais, todas elas publicaram apenas os títulos mais conhecidos junto do público.

A única e honrosa excepção a este cenário é a das Edições António Ramos. Entre 1978 e 1981, esta chancela publicou títulos ainda inéditos em Portugal como A espantosa aventura da Missão Barsac (1978), O segredo de Wilhelm Storitz (1978), O piloto do Danúbio (1980) ou O homenzinho (1981), além das novelas de Ontem e amanhã (1978).


Outra excepção digna de elogio: as obras inicialmente escritas por Michel Verne e recuperadas pela Société Jules Verne foram publicadas no início dos anos 2000 pela já extinta Editorial Notícias: A caça ao meteoro (1999), O segredo de Wilhelm Storitz (1999), O vulcão de ouro (2000), Um padre em 1839 (2001) e Le Phare du bout du monde (2005). Relativamente a obras inéditas, devemos também referir as duas excepções à Editorial Notícias: O tio Robinson (1991) publicado pela Livros do Brasil um ano depois da sua edição original e o ressurgimento de Verne na Bertrand com Paris no século vinte (1994) em 1995.

A primeira década deste século, e a celebração do primeiro centenário da sua morte (2005), impulsionou um crescimento do interesse pela obra de Verne em Portugal: dois jornais diários, o Correio da Manhã (2002-2003) e o Público (2005) lançaram uma colecção (algo) parcial das suas obras.

A edição de maior fôlego do corpus Verniano não coube, porém, a uma editora portuguesa, mas sim à espanhola Editorial RBA que, em 2003, lançou uma colecção de sessenta e sete volumes actualizando, em parte, o “método Corazzi” dos anos 1870: distribuição semanal de um volume (em vez de fascículos) em papelarias e quiosques de jornais. Infelizmente, esta colecção nunca foi disponibilizada em livrarias, o que impediu a sua divulgação mais ampla junto de um público mais vasto.

Há factores muito positivos na colecção da RBA como a possibilidade dos leitores contactarem com obras menos conhecidas de Verne. Contudo, o aspecto mais negativo é o de recorrer de forma sistemática às traduções do século dezanove sem qualquer revisão de texto efectuada por tradutores contemporâneos. Embora só se encontre disponível em alfarrabistas, a edição da RBA continua a ser a mais completa porta de entrada das obras de Jules Verne lançada em Portugal no século vinte e um.

A década de 2010-2020, e o início da década de 2020, prosseguiram o mesmo tipo de estratégia comercial unidimensional. A obra de Verne regressou, por assim dizer, à sua “casa-mãe” do século vinte, isto é, à Bertrand, que tem reeditado as suas obras mais populares (com novas traduções ou traduções revistas), através da editorial 11x17, que faz parte do seu grupo empresarial.

O mesmo tipo de estratégia tem sido seguida por outras editoras de maior ou menor dimensão, sem que seja possível ter acesso directo em livrarias a obras menos conhecidas de Verne. Para consegui-las, as bibliotecas públicas e os alfarrabistas continuam a ser os melhores recursos para os leitores mais ávidos do autor.

Para terminar, e ainda de acordo com a nossa pesquisa bibliográfica, pelo número de edições que conheceu em quase cento e cinquenta anos, A volta ao mundo em 80 dias continua a ser a obra mais popular de Verne em Portugal. Continuamos, no entanto, a aguardar a edição portuguesa das suas obras completas. Esperemos apenas, sinceramente, que esta “volta ao mundo” editorial do Lusitânia Verne, a acontecer, não leve oitenta anos a completar-se.



Bibliografia

Anselmo, A. (1997). Estudos de História do Livro. Lisboa: Guimarães.

Bezerra, V. (2022). “ Le Tour du Monde” das obras de Jules Verne: Uma análise da atuação internacional dos editores Pierre-Jules Hetzel e Baptiste-Louis Garner. Alea: Estudos Neolatinos, vol. 24/1, 52-76.

Bragança, A. (2016). O Editor de Livros e a Promoção da Cultura Lusófona: a trajectória de Francisco Alves. In Bragança, A. (Ed.) (2016), Rei do Livro – Francisco Alves na história do livro e da leitura no Brasil (pp.227-243). São Paulo: Edusp.

Catarina, P. e Guirra, E. (2014). Jules Verne na Imprensa Brasileira no Século XIX. Pensares em Revista, nº4, 5-25.

Domingos, M. (1985). Estudos de Sociologia da Cultura: Livros e Leitores do Século XIX. Lisboa: Instituto Português do Ensino à Distância.

Ferreira, A.J. (1994). Como Jules Verne Conquistou Portugal. Nº13 – Informações e Estudos sobre Jornais Infantis, Literatura Popular e Histórias aos Quadradinhos, números 42 a 46 (Jul. – Nov. 1994).

Flor, J.A. (2013). Publishing translated literature in late 19th century Portugal: the case of David Corazzi’s catalogue (1906). In Seruya T., D’Hulst L. e Moniz, M.L. (2013), Translation in Anthologies and Collections (19th and 20th Centuries). Filadélfia: John Benjamins Publishing Company, 123-146.

Morgado, A. (2017). Editores. In Dicionário de Historiadores Portugueses – Da Academia Real das Ciências ao Final do Estado Novo [Online] Disponível em https://dichp.bnportugal.gov.pt/tematicas/tematicas_editores.htm [consultado em 11 Maio 2022].

Jules Verne - História da Edição Portuguesa (1873-2021) 7

Em 1956, houve uma reedição total das obras, em que se actualizou a ortografia portuguesa, de acordo com o Acordo Ortográfico de 1945 (Ferreira 45 2).

Alinhamento editorial das edições Bertrand entre 1956 e 1967

De 1967 em diante, surgiria a última grande reedição da obra de Verne na Bertrand (Ferreira 45 3) e que terminou no início da década de 1980. A edição de Corazzi, mais uma vez, continuou a ser a edição de referência.
   

A edição de 1967 de Cinco semanas em balão

Esta foi a última grande colecção das obras de Verne por parte de qualquer editora ou grupo editorial português. A mais recente colecção das suas obras em Portugal, já publicada em pleno século vinte e um, (como veremos na última secção deste artigo) não teve origem portuguesa, nem nunca foi disponibilizada em livrarias.

Porém, de volta, ao século vinte: na década de 1960 surgem novos projectos editoriais a lançar obras de Verne. Pontos positivos: são edições que apresentam novas traduções. Pontos negativos: a tendência estratégica de publicar apenas os títulos mais conhecidos do autor. A única excepção a esta regra foi a publicação de uma obra até então inédita em Portugal, O senhor do mundo, publicada pela Europa-América, em 1960.

Os projectos editoriais que publicaram Verne na década de 1960 são os seguintes: editorial Europa-América (Da terra à Lua, 1960; As aventuras do capitão Hatteras, 1960; A ilha misteriosa, 1960; O raio verde, 1960; Robur, o conquistador, 1960; Uma cidade flutuante, 1970) e a editorial Aster (À volta da Lua, 1960; Da terra à Lua, 1965; A volta ao mundo em 80 dias, 1966).


As edições da Editorial Aster da década de 1960

Apesar destas novas publicações, a “hegemonia” da editorial Bertrand permaneceu intacta. Só a partir de 1974, irão surgir novas chancelas a publicar o autor francês. Mas nem mesmo essas arriscaram muito em termos de estratégia comercial e editorial até aos dias de hoje.

Jules Verne - História da Edição Portuguesa (1873-2021) 6

Para se compreender melhor os capítulos seguintes da viagem da obra de Verne em Portugal, é necessário mencionar estes dois nomes: Francisco Alves de Oliveira (1848-1917) e Júlio Monteiro Aillaud (1858-1927). Foi com base nas suas fusões empresariais transnacionais nos anos 1910 que Verne continuou a ser um autor prestigiado em Portugal ao longo de quase todo o século vinte.

Francisco Alves, embora nascido em Portugal, foi um livreiro luso-brasileiro radicado no Rio de Janeiro desde 1863, para onde foi trabalhar na Livraria Clássica, fundada pelo seu tio, Nicolau António Alves, em 1854 (Bragança 231). Almejando trabalhar por conta própria, só em 1897 que Alves logrou concretizar o seu projecto: nesse ano assume por completo a direcção da Livraria Clássica, e esta, a partir de 1903, passaria a ser conhecida simplesmente como Livraria Francisco Alves (Bragança 233).

Detentor da maior editora e livraria no Brasil do início do século vinte, em 1907, Francisco Alves resolve expandir os seus negócios para Portugal, adquirindo uma parte da editora (livraria e tipografia) Aillaud. Em 1910, Alves e Aillaud compraram a centenária Livraria Bertrand e já antes, em 1908, Alves tornara-se sócio maioritário de A Editora (Bragança 238), consumando a sua aquisição total em 1912. Com estas movimentações empresariais, Aillaud e Alves tornaram-se detentores dos direitos de publicação de Verne em Portugal e no Brasil.

Em Portugal, o escritor passaria a ser publicado pela chancela Aillaud e Bertrand entre 1926 e 1934.

 Alinhamento editorial das edições de 1926


Alinhamento editorial das edições de 1927.

Sucedem-se, entretanto, novas movimentações empresariais que vão interromper esta designação editorial: após o falecimento de Aillaud em 1927, a sua filha, Germaine, associa a empresa à Livraria Lellos, da cidade do Porto (Bragança 240). Em 1933, a Bertrand transforma-se numa sociedade anónima (Morgado), para, em 1942, ser comprada pelo livreiro francês, Marcel Didier (Ferreira 45 3).

A partir de 1934, e até 1974, Verne passaria a ser publicado quase exclusivamente pela Bertrand.

Alinhamento editorial das edições Bertrand 1934-1938

Porém, estas novas edições devem tudo ao trabalho editorial efectuado por David Corazzi no século dezanove. Tanto a Aillaud e Betrand, primeiro, como, a Bertrand, depois, mantiveram a designação de Viagens Maravilhosas (edição de luxo) e Grande Edição Popular das Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos e a sua respectiva numeração (oitenta e dois volumes editados entre 1874 e 1938).

Anúncio da Grande Edição Popular das obras de Verne (agora editado apenas pela Bertrand) na revista Ilustração de 16 de Dezembro de 1938.

Jules Verne - História da Edição Portuguesa (1873-2021) 5

A edição das obras de Verne foi acompanhando as diversas mudanças de nome comercial que a editora foi sofrendo: primeiro a Empreza Horas Românticas (1870-1883) dá lugar à Casa Editora David Corazzi (1884-1888). Depois, já em parecia com o tipógrafo Justino Guedes (1852-1924), esta passa chamar-se Companhia Nacional Editora (1890-1902).

A partir de 1903, a Companhia Nacional Editora deixa de ser Companhia Nacional e passa a figurar simplesmente com um nome que não pressagiava assim tantas horas românticas: A Editora. E, de facto, a partir de 1905, a empresa começou a passar por contratempos de diversa índole. Vendo diminuir em quantidade e qualidade o seu volume editorial (Domingos 91), A Editora encerraria definitivamente a sua actividade em 1912.

A vida de David Corazzi também conheceu diversos reveses, não chegando sequer a entrar no século vinte. Em 1890, vê-se forçado a cessar a sua actividade profissional devido ao declínio da sua saúde. Viria a falecer a 26 de Novembro de 1896, vitimado por complicações cardíacas.

Obituário de David Corazzi. Revista Occidente de 15 de Dezembro de 1896.

O seu precoce afastamento do ramo editorial constituiu um rude golpe para a edição Verniana em Portugal. Esta afirmação explica-se através da confrontação de alguns números. De 1876 a 1892, tirando as obras de Verne que tinham sido publicadas no período anterior à primeira data, David Corazzi, com apenas duas excepções (Dois anos de férias e Os primeiros exploradores), publicou as Voyages Extraordinaires no próprio ano em que saíram em França ou, quando muito, no ano seguinte. A última obra a conhecer a luz do dia em solo português com esta regularidade temporal foi A mulher do capitão Branican (1891), publicada em 1891 e 1892.

Com Justino Guedes ao leme, a situação alterou-se drasticamente e o ritmo da edição Verniana tornou-se bastante mais moroso. Eis o que apurámos na nossa pesquisa bibliográfica: O castelo dos Cárpatos (1892) teve a primeira edição portuguesa apenas em 1894, A carteira do repórter (1892) em 1900, A ilha de Helice (1895) em 1898/1899, Em frente da bandeira (1896) em 1898, Clovis Dardentor (1896) em 1899, A esfinge dos gelos (1897) em 1899, O soberbo Orenoco (1898) em 1903, Um drama na Livónia (1904) em 1911, A invasão do mar (1905) em 1912, O farol do cabo do mundo (1905) em 1912 e Os náufragos do Jonathan (1909) em 1911.

A própria forma de edição concebida por David Corazzi sofreu alterações nestes anos: entre 1899 e 1907, o topo das páginas da Grande Edição Popular tornou-se igual ao das edições de luxo, passando apenas a figurar a expressão Viagens Maravilhosas (Ferreira 44 3). As edições distinguiam-se apenas porque a edição de luxo mencionava conter ilustrações, como se pode ver nas fotos de ambas as edições de A carteira do repórter.

Folha de rosto das duas edições. A de luxo (1900) menciona conter ilustrações, ao passo que a Grande Edição Popular (1903) é omissa nessa questão.

Outras obras como A aldeia aérea (1901) e A Agência Thompson e Ca. (1908) seriam publicadas muito mais tarde, respectivamente em 1937 e em 1938, mas já por outras chancelas que marcaram um período importante na história da edição portuguesa e brasileira do século vinte.

Jules Verne - História da Edição Portuguesa (1873-2021) 4

Embora não deixe de causar bastante perplexidade a entrada tão tardia de Verne no mercado português, tendo em conta a influência cultural que a França exercia sobre Portugal (Flor 127), a publicação deve-se ao segundo oficial dos serviços de correio na estação central de Lisboa, David Augusto Corazzi (1845-1896).

Órfão de pai aos quinze anos, com a venda dos direitos de autor de um livro publicado pelo seu progenitor (médico cirurgião), Corazzi fundou, em 1870, a editora Empreza Horas Românticas, começando um meritório trabalho de editor e de divulgador cultural.

O primeiro livro publicado por Corazzi foi Les Chevaliers de la Nuit de Ponson du Terrail (1829-1871), ao que se seguiu El Rey Maldito, do espanhol Manuel Fernández y Gonzalez (1821-1888), em 1871. Este último, impresso num novo formato de fascículos de oito páginas e gravuras, permitiu a Corazzi o necessário desafogo financeiro para impulsionar a sua editora (Domingos 22) e dedicar-se a novos projectos, como a Biblioteca do Povo e das Escolas, uma colecção de divulgação cultural e científica destinada a um público mais amplo.

Instalado na Baixa de Lisboa (Rua da Atalaia do número 40 ao 52) e dispondo de tipografia própria, em 1874, Corazzi adquire junto de Hetzel os direitos exclusivos das ilustrações que acompanham as Voyages Extradordinaires em França

Livro de registo de Pierre-Jules Hetzel. Contratos referentes a À volta da Lua. Na imagem comprova-se que, a 26 de Fevereiro de 1874, Corazzi comprou os direitos de trinta e nove ilustrações da obra para publicação em Portugal (Créditos: Valéria Bezerra).

e sistematicamente publicou-as na colecção que ele próprio designou como Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos. A existência das ilustrações foi o factor-chave para o sucesso editorial de Verne em Portugal e Corazzi compreendeu isso desde o início. Tal como em França ou em muitos outros países, os leitores valorizavam imenso as ilustrações que acompanhavam as obras. Na única ocasião em que Corazzi resolveu editar Verne sem gravuras, na primeira edição de A Galera Chancellor (1875), o público não gostou da novidade e o editor viu-se perante um tremendo insucesso comercial (Ferreira 42 6). A segunda edição da obra, em 1878, já viria acompanhada de ilustrações.

Em 1886, a colecção passou a chamar-se Grande Edição Popular das Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos e foi publicada num formato ligeiramente mais pequeno e mais barato que a sua antecessora “edição de luxo” (Ferreira 43 4).

Dando prioridade à excelência gráfica, Corazzi teve o mesmo tipo de cuidado no campo da tradução. Este trabalho foi sempre encomendado a figuras de relevo da sociedade portuguesa, oriundas de áreas profissionais diversas (veja-se o último post deste artigo, onde apresentamos uma breve biografia de quase todos os primeiros tradutores portugueses de Verne): escritores (Manuel Pinheiro Chagas e A.M. da Cunha e Sá), militares (Fernandes Costa e Almeida D’Eça), médicos (Fernando Correia e Xavier da Cunha) ou pintores (Manuel Macedo e Higino Mendonça).

Jules Verne - História da Edição Portuguesa (1873-2021) 3

Não encontrámos registos bibliográficos nas bases de dados consultadas de algumas destas primeiras edições, o que, contudo, não invalida a cronologia elaborada por Ferreira. Como explica João Almeida Flor, na análise que fez sobre o catálogo da Empreza Horas Românticas,

Muitas vezes deparamo-nos com reimpressões ou segundas edições de textos anteriormente publicados na imprensa periódica sob a forma de folhetins, mas que mais tarde ascenderam ao estatuto material de livros (Flor 135).

As primeiras edições de Verne passaram seguramente por este processo. Embora publicadas num único e dispendioso volume (Ferreira 42 3) de tiragem mais limitada, foram igualmente disponibilizadas no formato mais popular e mais barato de fascículos. Isto constituía uma estratégia comercial adoptada pela Empreza Horas Românticas (Flor 134) e, também, uma prática comum do mercado livreiro da época.

De acordo com André Morgado, autor do verbete “Editores” do Dicionário de Historiadores Portugueses – Da Academia Real das Ciências ao Final do Estado Novo, na segunda metade do século dezanove

Os fascículos (ou cadernetas, conforme se dizia à época) tornaram-se o meio privilegiado para fazer chegar o livro a mais pessoas. Os leitores compravam e coleccionavam os fascículos, que chegavam periodicamente ao mercado, encadernando-os. Uma ideia simples que permitia ao editor reduzir o investimento; e ao leitor, comprar a prestações – através de agentes espalhados pelo país, que escoavam o que se produzia.

Os fascículos não eram apenas uma forma mais abrangente de estabelecer uma relação entre autor e leitor. Eram também uma forma de evitar o pagamento de direitos autorais. Embora os direitos de autor estivessem regulamentados em França desde a Revolução de 1789, essa prática restringia-se ao território francês e às suas colónias e era quase impossível impedir a reprodução ilegal das obras (Bezerra 58). Em Portugal, a propriedade intelectual só foi regulamentada no Código Civil de 1867 (Flor 127).

Apesar de França e Portugal, em 1851, terem assinado um tratado bilateral que obrigava os editores portugueses a pagarem os direitos de tradução de autores franceses em território português, a contrafacção de obras perdurou por várias décadas. No Brasil, por exemplo, embora a publicação de Verne estivesse a ser feita pela Livraria Garnier, isso não impediu que surgissem traduções do autor comercializadas por outras casas editoriais (Bezerra 65).

A predominância da edição em fascículos tem também muito a ver com as próprias condições económicas do mercado editorial português. Segundo Artur Anselmo, em Estudos da História do Livro,

Por motivos económicos (dificuldade em escoá-las a um maior preço), as edições eram de fraca qualidade; livros de luxo, ilustrados ou com bom acabamento (no papel e na encadernação, impressos com caracteres de boa qualidade) só se tornarão mais comuns a partir dos anos de 1870 (Anselmo 128).

Esta situação não se aplicava apenas ao mercado português. Em França, por exemplo, a edição das obras de Verne num único volume nem sempre foi feita no ano da sua primeira data de aparição. No mundo de língua portuguesa, como já vimos, a aparição do primeiro livro foi igualmente tardia, apenas em 1873, tanto na primeira tradução portuguesa como nas edições da livraria Garnier comercializadas no Brasil (as traduções importadas por Chardron são também as primeiras edições brasileiras no formato único de livro).

Jules Verne - História da Edição Portuguesa (1873-2021) 2

A tarefa de inventariar rigorosamente as circunstâncias históricas das primeiras etapas deste empreendimento editorial Verniano coube a António Joaquim Ferreira (1924-2022). Ferreira não era académico e muito menos um apreciador incondicional de Jules Verne. Segundo o que conseguimos apurar junto do seu ex-editor, José Manuel Vilela, A.J. Ferreira foi controlador aéreo de profissão e grande admirador da obra de Emilio Salgari.

Depois de se reformar, Ferreira frequentou diariamente a Biblioteca Nacional de Portugal durante quinze anos consecutivos, efectuando um notável trabalho de pesquisa nas áreas de literatura infantil e juvenil e dos primórdios da história do cinema em Lisboa, trabalho esse que o próprio doou àquela instituição na condição de os seus textos ficarem disponíveis na principal sala de leitura, de forma a estarem facilmente acessíveis ao público em geral.

É o muito bem documentado texto de Ferreira, “Como Verne conquistou Portugal”, que nos permite dar uma resposta inequívoca à pergunta formulada acima. Os insustentáveis caprichos do acaso parecem tê-lo condenado a um estado de ostracismo em forma dactilografada. Esse ostracismo só não é maior porque Frederico Jácome publicou uma adaptação do mesmo neste blogue em 2008 e Ariel Pérez Rodriguez traduziu para espanhol a adaptação de Jácome e publicou-a na revista Mundo Verne do primeiro semestre de 2009. Apesar disso, Ferreira é um nome absolutamente desconhecido para o restrito panorama académico dos Vernianos portugueses.

Segundo Ferreira, Da terra à Lua foi a primeira obra a ser publicada em Lisboa, pela editora Empreza Horas Românticas, no ano de 1874, “em fascículos de 32 páginas, tendo cada um 32 linhas” (Ferreira 42 3). A data de publicação do primeiro fascículo foi 12 de Março de 1874, segundo um anúncio do jornal Diário Ilustrado (Ferreira 42 3).

O anúncio do Diário Ilustrado de 12 de Março de 1874 encontra-se assinalado pelo rectângulo preto. Nele pode ler-se: «Recebemos a primeira caderneta das Viagens Maravilhosas editadas pela empresa Horas Românticas. A primeira viagem é da Terra à Lua, de Júlio Verne, admiravelmente traduzida pelo Sr. Henrique de Macedo, lente da escola politécnica, e cavalheiro que junta a um bom e sólido talento uma grande ilustração. A primeira caderneta é ilustrada com seis boas gravuras».

Folha de rosto da segunda edição portuguesa de Verne (1874). A morada da editora é ainda Rua dos Calafates, 102. Só em 1875, a editora mudaria a sua empresa para a Rua da Atalaya, 40 a 52.

No mesmo ano de 1874 seguir-se-iam ainda, por esta ordem, À volta da lua, A volta ao mundo em 80 dias e As aventuras do capitão Hatteras.

 
Folhas de rosto das primeiras edições de A volta ao mundo em 80 dias e As aventuras do capitão Hatteras (1874).

Jules Verne - História da Edição Portuguesa (1873-2021) 1*

* Este post, bem como os posts que se vão seguir, constituem a adaptação de uma parte do artigo Once Upon a Time in Lisbon: The Extraordinary "Editorial Voyages" of Lusitânia Verne 1874-2021, que publiquei em Julho de 2022 na revista de Estudos Vernianos, Verniana [http://verniana.org/volumes/13/index.en.html] e pretende divulgar junto do público português em geral a história do escritor francês no nosso país.


Nas linhas que se vão seguir, o que se pretende é o seguinte: 1) identificar a data em que Jules Verne foi publicado em Portugal pela primeira vez e 2) contar a história da sua edição em Portugal desde a sua primeira publicação até aos dias de hoje.

A honra de estreia da publicação de Jules Verne em Portugal coube à cidade do Porto, onde, em 1873 e em edição da Typographia Manoel José Pereira, foi publicada a primeira parte de Vinte mil léguas submarinas (O homem das águas), com tradução de Gaspar Borges D’Avellar (1844-1889), jornalista da cidade invicta e o primeiro tradutor português de Verne.

A primeira obra de Jules Verne em Portugal

Em 1874, a mesma chancela publicaria a segunda parte da obra, O fundo do mar, com tradução de Francisco Gomes Moniz, de quem não se conhece qualquer dado biográfico.

A segunda parte da obra

Trata-se, estamos em crer, de uma edição única e, por isso mesmo, bastante rara. A mesma não se encontra registada em qualquer base de dados bibliográfica, nem sequer houve outras publicações de Verne nesta casa editorial que operou no Porto nas décadas de 1860, 1870 e 1880. Outro ponto que nos leva a acreditar no insucesso comercial desta edição é o facto de não conter ilustrações, um ponto capital na obra Verniana.

Em 1874, e ainda no Porto, circulavam já algumas traduções brasileiras do escritor francês, importadas por Ernesto Chardron (1840-1885), um livreiro francês radicado na cidade desde 1858 e dono da Livraria Internacional. A foto abaixo, extraída do Catálogo das Publicações Brazileiras recebidas pela Livraria Internacional de E. Chardron (1874) dá-nos conta das obras Vernianas a circular em Portugal naquela data.


Com o nome de Verne no plural, Ernesto Chardron oferecia ao seu público leitor as traduções brasileiras de A volta ao mundo em 80 dias, Viagem ao centro da Terra e os três volumes de Os filhos do Capitão Grant, todas elas publicadas no Brasil, em 1873.

As obras vendidas por Chardron eram as traduções da Livraria Garnier, pertencente ao livreiro francês Baptiste-Louis Garnier (1823-1893). Contudo, à semelhança da edição de Vinte mil léguas submarinas acima mencionada, estas edições não continham ilustrações (Bezerra 69). No mesmo ano de 1874, esta questão foi resolvida por um editor de Lisboa, de quem falaremos mais à frente. E será na capital portuguesa que terá lugar a mais longa e fecunda edição das obras de Jules Verne em Portugal, durante todo o século dezanove e uma grande parte do século vinte.

Tradutores de Jules Verne - JV e a Wikipédia. Onde se Desmonta o Mito do seu Primeiro Tradutor Português

Templo de saber do nosso tempo, a Wikipédia é uma das maiores fontes de acesso à informação e ao conhecimento na era digital. Se esta (muito) parcial Biblioteca de Alexandria existisse no seu tempo de vida, Jules Verne não só ter-se-ia perdido, maravilhado, dias a fio pelas suas páginas, como certamente lhe teria sido muito útil como ferramenta de pesquisa para a escrita das suas obras.

Porém, dado que qualquer utilizador registado pode editar o conteúdo de uma página, pelo menos na sua versão portuguesa, a enciclopédia livre nem sempre está livre... de mitos. É o caso deste que se encontra na página da Wikipédia dedicada a Mariano Cirilo de  Carvalho [https://pt.wikipedia.org/wiki/Mariano_de_Carvalho].


Mariano Cirilo de Carvalho (1836-1905)


Nela pode ler-se textualmente: "Foi o primeiro tradutor para português das obras de Júlio Verne". E como uma mentira muitas vezes repetida torna-se (uma falsa) verdade, esta afirmação tem feito o seu caminho pelos diversos motores de pesquisa da internet e ajudado a alimentar um mito reproduzido em várias páginas da web [https://toponimialisboa.wordpress.com/2017/09/27/a-rua-do-conselheiro-mariano-de-carvalho-professor-da-escola-politecnica/] e, inclusive, em alguns artigos científicos dedicados à presença de Verne em Portugal.

É quase impossível saber como começou a circular a ideia de que coube a Mariano Cirilo de Carvalho iniciar o público português na obra de Verne, mas há uma hipótese plausível: o livro de memórias publicado pela sua filha, Maria da Conceição da Cunha Carvalho. Terá nascido aqui o mito?


1946, Lisboa Ottosgráfica

A resposta é: não. Eis as fotos das duas únicas páginas da obra em que se faz referência a Verne.




Em nenhuma delas surge a afirmação de ter sido Mariano de Carvalho o primeiro tradutor português de Jules Verne. 

Mariano de Carvalho foi, efectivamente, uma figura bastante activa na vida pública portuguesa da segunda metade do século 19, tanto no jornalismo como na política, além de ser um reputado lente (a designação à época para professor universitário) de matemática na Escola Politécnica de Lisboa. 

Como tradutor de Verne, se de alguma competição se tratasse ou se algum pódio houvesse, o pretensamente afamado "primeiro tradutor português" do escritor francês não chegou à meta em primeiro, nem sequer em segundo lugar. Foi responsável, sim, pela tradução da sexta e da sétima obras Vernianas a serem editadas em Portugal, Aventura de Três Russos e Três InglesesViagem ao Centro da Terra A Galera Chancellor em 1875. Traduziu, posteriormente, O País das Peles (1877). 

Nos posts seguintes, de uma vez por todas, vamos desvendar o enigma do(s) primeiro(s) tradutor(es) português(es) de Jules Verne.