Mostrar mensagens com a etiqueta Críticas das obras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Críticas das obras. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Piloto do Danúbio

“O Piloto do Danúbio”, um dos últimos romances escritos por Verne, foi publicado postumamente, em capítulos, no "Le Journal" entre 24 de setembro e 2 de novembro de 1908. Posteriormente chegou às livrarias, em forma de romance, numa edição dupla com “A Caça ao Meteoro”, em 15 de novembro do mesmo ano.

Inicialmente batizada como "Le beau Danube jaune" ("O Belo Danúbio Amarelo"), a história se passa quase inteiramente sobre as águas deste importante rio da Europa Oriental, que corta ou delimita as fronteiras da Alemanha, Áustria, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Croácia, Sérvia, Romênia, Bulgária e Ucrânia, tendo como pano de fundo a conturbada época da ocupação, pelo Império Otomano, dos territórios a sudeste do continente europeu. Verne, como sempre, aproveita para descrever em pormenores a grande diversidade de cenários que se descortinam ao longo das margens do segundo maior rio da Europa, e o que banha mais nações.

Ilia Brusch, o grande vencedor do concurso anual da Liga Danubiana de Pescadores, em comemoração a seu feito propõe a seus pares o estabelecimento de um recorde, que trará repercussão e fama à liga internacional: descer o rio em toda sua extensão, da nascente alemã na Floresta Negra à foz, no Mar Negro e viver, durante todo o percurso de mais de três mil quilômetros, exclusivamente da produção de sua pesca. No meio do caminho, Brusch se vê obrigado, pelas circunstâncias, a aceitar um passageiro em seu barco. O austríaco Jaeger acaba por se tornar um valioso aliado na empreitada do pescador.

Ao mesmo tempo, as margens do Danúbio viviam assoladas por um constante banditismo. Piratas saqueavam, roubavam e assaltavam fazendas, residências e embarcações, numa série de audaciosos crimes que não podiam ser praticados por indivíduos isolados, mas por um bando bem organizado e sem dúvida muito numeroso. O experiente investigador húngaro Karl Dragoch viu-se designado, pelos governos interessados em combater o crime, a essa perigosa e arriscada missão. Na Bulgária, ficamos conhecendo outros importantes personagens da trama: o piloto Serge Ladko, um patriota inconformado com a dominação turca em seu amado país, a bela órfã Natcha Gregorevitch e Ivan Striga, traidor a soldo do opressor muçulmano e rival direto de Ladko pelo coração de Natcha.

Essas linhas de narrativa, aparentemente sem ligação entre si, convergem num feixe único de acontecimentos envolvendo romances, duplas identidades, intrigas políticas, ação policial, aventuras de guerra, um inquérito judicial e até uma espetacular fuga de uma prisão. Para além de tudo isso, o autor – mais uma vez surpreendendo seus leitores com a extensão e profundidade de seus conhecimentos em aparentemente todo e qualquer tema - ainda nos delicia com uma verdadeira aula sobre a arte dos preparativos da pesca e da pescaria em si, na voz do experiente Brusch a seu “pupilo” Jaeger, enquanto ambos singram, a toda velocidade, as águas douradas do belo Danúbio.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Crítica 'A Caça ao Meteoro (1901)'

A Caça ao Meteoro é um dos chamados “livros póstumos” de Jules Verne. Isto lhe confere duas características específicas: a primeira, óbvia, porque, apesar de escrito em 1901, foi publicado apenas após sua morte no ano de 1905. A segunda é que, assim como outras obras póstumas (O Vulcão de Ouro, O Segredo de Wilhelm Storitz, Um Padre em 1839 e O Farol no Fim do Mundo são exemplos), seu manuscrito foi, a pedido do editor Jules Hetzel Filho, inteiramente reescrito pelo filho de Verne, Michel, com a justificativa de “adequá-lo aos novos tempos”.

O que por si só já seria uma blasfêmia revelou-se um completo desastre: Michel não possuía um milésimo da capacidade inventiva, da habilidade narrativa ou do talento literário do pai. Assim, os livros acima citados foram recebidos pelo público e pela crítica da época com relativa frieza. Descaracterizados, sem atrativos e mal escritos, caíram no esquecimento rapidamente - e durante décadas a fio.

Graças a esforços de estudiosos vernianos como Piero Gondolo de la Riva, os manuscritos originais de Jules Verne foram encontrados e suas ideias, personagens e situações, recuperadas. Mas sem dúvida, o maior benefício para essas obras foi o retorno do inconfundível estilo de seu verdadeiro autor, cheio de elegância, inteligência e humor, muitas vezes irônico e sarcástico. E é justamente esse o maior atributo de A Caça ao Meteoro: não se trata de uma aventura fantástica, como o nome poderia sugerir, nem de uma viagem cheia de detalhes geográficos pitorescos, mas de uma deliciosa e bem-humorada crítica à sociedade de então – especialmente a norte-americana – suas ambições, valores, manias e vaidades.

A observação da proximidade de um grande cometa, realizada simultaneamente por dois astrônomos da cidade de Whaston, no estado da Virginia, os coloca numa disputa pela primazia da descoberta, que em nada interessa ao sobrinho de um e à filha do outro, apaixonados que estão. A súbita rivalidade surgida entre os dois rabugentos cientistas afasta as duas famílias e ameaça os planos do romântico casal, numa divertida paródia de Romeu e Julieta.

Quando se desconfia que o bólido celeste possa vir a ser uma enorme rocha de ouro puro prestes a cair na Terra, Verne mostra como os representantes dos países no trajeto dos possíveis locais de queda do cometa digladiam-se enquanto esperam ser atingidos pelo mesmo, num “golpe de sorte” onde ninguém parece se preocupar muito com as nefastas consequências que tamanho impacto poderá acarretar em seus territórios e junto à sua população.

Verne aproveita também para expor a efemeridade das relações e das instituições naqueles tempos “modernos”, mostrando, por exemplo, as idas e vindas de um casal que contrai o matrimônio, separa-se e se casa novamente num pequeníssimo intervalo de tempo e sem maiores traumas para ambas as partes. Os casamentos e divórcios à americana espantam o escritor, que faz um de seus personagens exclamar: “Eu admiro verdadeiramente a facilidade que há em casar na América... quase tanto como a facilidade em se divorciar!”

A edição portuguesa de 1999, a cargo da Editorial Notícias, traz ainda um prefácio do então presidente da Société Jules Verne, Olivier Dumas. Ao defender a publicação do relato assim como Verne o imaginou apresentar aos leitores do século XX, Dumas compara as duas versões, a de Verne e as alterações promovidas por Michel, demonstrando o quanto o trabalho original havia perdido de seu brilhantismo, comicidade, leveza e genialidade. E conclui: “A versão original, a única autêntica, desembaraçada das alterações de Michel – que não só a tornam mais pesada, mas também a transformam - reencontra suas cores, a sua fantasia, o seu encanto, a sua filosofia irónica, a sua ligeireza e a sua fluidez. Teria essa agradável caça no campo das estrelas necessidade de ser reescrita? Não!”

Eu concordo.

----------------------------------------------

Se pretender comentar esta crítica faça-o aqui. Caso pretenda comentar a obra use a secção correspondente.
Qualquer pessoa pode escrever uma crítica para qualquer obra. Para isso leia o tópico 'Críticas das obras'.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Crítica 'A Casa a Vapor (1880)'

Ainda que esta obra não esteja actualmente a ser editada, podemos encontrá-la em edições antigas brasileiras/portuguesas à venda em alfarrabistas (br: sebos) como também numa colecção de obras de Jules Verne que esteve recentemente à venda em Portugal e no Brasil que, sem dúvida, merece a pena ser procurada e comprada, se encontrada. O nosso amigo Luís Silva encontrou-a, leu-a e deixou-nos a sua crítica que apresentamos.

À Índia é onde Jules Verne nos leva nesta “A casa a vapor”. Em 1860, numa altura em que o poderio dos portugueses, que fora grande nos séculos XV e XVI, era quase inexistente, a Índia encontrava-se então principalmente dominada pelos ingleses. Apesar de viverem séculos sob o domínio de colonizadores, o povo indiano, não obstante bem domesticado, não deixava ainda assim de manifestar pontualmente algum desagrado com o jugo que lhes era imposto pela mão estrangeira. Foi assim que em 1857 se deu a Revolta dos Sipais na Índia setentrional. Jules Verne conduz-nos através desta obra usando como pano de fundo os reveses e sucessos a que tanto indígenas como conquistadores estiveram sujeitos, num ambiente crescente de revolta.

Evidenciando a sua fertilidade visionária, o autor fala-nos da construção de uma máquina a vapor que permitiria a quem a usasse, viajar pelas estradas transportando consigo a sua própria casa. Algo a que hoje em dia poderíamos muito bem chamar de auto-caravana.
Partindo da Calcutá na sua casa a vapor, os nossos personagens dirigem-se primeiro ao norte, até aos Himalaias, descendo de seguida em direcção a Bombaim. Nos Himalaias, que Verne nos descreve como “...uma sobreposição de montanhas, cuja altura não seriam capazes de exceder os Alpes sobre os Alpes, os Andes sobre os Andes, tal é a colossal elevação...”, pretende familiarizar-nos com os hábitos venatórios que tão enraizados estão na cultura britânica. Aí, e nessa época, dava-se caça intensiva aos tigres por mero desporto, com as consequências que todos nós conhecemos nos dias de hoje. Percorrendo todo o vale do Ganges, ficando nós a conhecer um pouco da cultura, história e dos rituais que naquela zona da Índia se praticam, facilmente a elegemos como um dos nossos destinos de viagem.

A aventura orbita à volta do ódio mortal que um indiano, Nana Sahib, mentor da revolução dos Sipais, e o inglês coronel Munro, responsável pelas terríveis represálias resultantes da revolução, nutrem entre si, representando um o oprimido e o outro o opressor, a Índia e a Inglaterra. Este sentimento que ambos alimentam entre si resulta, no caso do coronel Munro, do facto de Nana Sahib ter, durante a revolta dos Sipais, assassinado a mulher do inglês. No caso de Nana Sahib resulta do facto de o coronel Munro ter, consequência das represálias à revolta dos Sipais, feito questão de matar a companheira de Nana Sahib como vingança. É assim uma obra alimentada pelo ódio e pelo sofrimento...

Podemos simplesmente ler a obra imaginando onde se passa a acção, embora seja recomendável a utilização de alguma forma de contextualização geográfica, como um mapa ou qualquer ferramenta informática. Para além disto, torna-se muito mais enriquecedora a leitura caso tenhamos acesso às ilustrações que acompanham as obras de Verne, mas dado que raras são as edições que as contêm na totalidade, uma simples pesquisa pela internet facilita-nos o acesso às mesmas.

Para terminar, apesar de ter achado a obra agradável de se ler e encerrar muitas surpresas, não podia deixar de mencionar a tradução da edição a que tive acesso, que deixa muito a desejar com a presença, do inicio ao fim, de variados erros ortográficos que podiam ter sido evitados caso tivesse sido feita uma simples revisão.

----------------------------------------------

Crítica escrita por Luís Silva, tradutor para português de alguns contos de J. Verne.

sábado, 25 de setembro de 2010

Crítica 'A Galera Chancellor (1875)'

Ainda que esta obra não esteja actualmente a ser editada, podemos encontrá-la em edições antigas brasileiras/portuguesas à venda em alfarrabistas (br: sebos) como também numa colecção de obras de Jules Verne que esteve recentemente à venda em Portugal e no Brasil que, sem dúvida, merece a pena ser procurada e comprada, se encontrada. Daí se justificar um comentário à mesma.

Eis mais uma aventura passada exclusivamente no mar. Esta obra é apresentada de uma forma ligeiramente diferente, no formato de um diário que é escrito na primeira pessoa, em que J. Verne fala directamente com os leitores conseguindo assim uma maior proximidade com estes. Ao princípio, quando começamos a sua leitura, não ficamos muito impressionados com o desenlace da aventura, podendo assumir que se trata de apenas uma obra que nos leva de Charlston nos EUA até Liverpool no RU, pois este é o itinerário previsto, a bordo de um navio, o Chancellor, que transporta uma carga de algodão ao mesmo tempo que transporta alguns passageiros com destino a Inglaterra. Continuamos assim a leitura sem que sejam criadas grandes expectativas em relação à aventura.

Porém, e para quem conhece as obras de Verne, sabe que as suas aventuras não podem ser simplesmente tranquilas viagens a bordo de navios sem que haja um verdadeiro drama a bordo e sem que os seus personagens passem por incríveis momentos em que são postas a descoberto as qualidades e defeitos do homem, i. e., a verdadeira natureza humana.

Assim acontece! Começa por haver um fogo a bordo, no porão, sem que lhe possamos dar grande importância, tal é a forma como Verne o descreve, mas que é apenas o início e a origem de um grande drama que nos vai encher de angústia até aos momentos finais da aventura. Apesar de o fogo ter sido extinto, o navio fica fragilizado acabando mesmo por se afundar. No entanto, é construída uma jangada onde os náufragos são forçados a viver grandes privações e em que ficamos a conhecer segundo Verne, o ponto a que o ser humano pode chegar quando este é confrontado com situações limite e que nenhum de nós saberá exactamente a que tipo de instintos poderão dar origem.

Privados de comida e de água, os náufragos experimentam, para além da resignação perante a situação em que se encontram, as mais espantosas manifestações que vão desde a loucura ao suicídio, passando mesmo pelo canibalismo, havendo, ainda assim, lugar para verdadeiras demonstrações de princípio e de amor paterno quando um pai se propõe a dar a sua vida para salvar a de seu filho.

Resumindo, a obra começa de uma forma muito tranquila, a bordo de uma confortável galera em Charleston, tranquilidade que vai gradualmente sendo perdida chegando na parte final a um verdadeiro e violento apogeu da desgraça quando é alcançada a foz do rio Amazonas, em vez de Liverpool, a bordo de uma jangada do sofrimento e na qual apenas resta uma parte da tripulação inicial.

Excelente obra!

Poderá ainda lançar-se a questão se esta obra poderá ter sido uma possível inspiração para a criação de futuras obras, nomeadamente, “A jangada” dado que esta se passa exclusivamente no rio Amazonas e termina exactamente no mesmo sítio em que termina “A galera Chancellor”. Apesar de ainda não ter lido “A invasão do mar” e não saber assim se existe alguma ligação temática, poder-se-ia supor que também esta obra poderia ter sido inspirada em “A galera Chancellor” dado que são literalmente mencionadas as palavras a invasão do mar a dada altura.

----------------------------------------------

Crítica escrita por Luís Silva, tradutor para português de alguns contos de J. Verne.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Crítica 'Cinco Semanas em Balão (1863)'

Desde a leitura de “Atribulações de um chinês na China”, um livro com altos e baixos, fiquei com uma pulga trás da orelha em relação a Júlio Verne. Sempre tive vontade de conhecer sua obra, tendo em vista a quantidade de famosas estórias que encantaram gerações de jovens. Comecei este ano, por acaso, com o livro citado acima, mas minha avaliação foi abaixo do que eu esperava de um autor tão querido. Apesar da estória, em alguns momentos, ser um pouco monótona, gostei de seu estilo, e me foi imperioso dar outra chance a Júlio Verne, deste vez com um livro mais conhecido e recomendado, “Cinco semanas em um balão”.

E acertei ao dar outra chance a Júlio Verne. “Cinco semanas em um balão” não é uma obra-prima, mas é um livro muito divertido, simples, agradável e cheio de aventuras mirabolantes, como é característico de Verne, que ao lado de Stevenson e Kipling representa o espírito europeu do século XIX. O livro narra a grande aventura do Dr. Fergusson, pesquisador inglês, ao lado de seu criado Joe e seu amigo Richard Kennedy, através de uma viagem pela África a bordo de um balão, meio de transporte na época rudimentar e inseguro, o que torna perigoso e emocionante o trajeto permeado de desafios e descobertas maravilhosas. A estória por si só já é muito divertida, mas o que torna o livro realmente interessante são as entrelinhas da mentalidade de uma sociedade europeia do século XIX, o que vale alguns comentários.

Não se pode ler Júlio Verne, como nenhum outro autor, sem compreender seu contexto histórico, sob o risco de avaliar erroneamente sua obra e sua importância para a literatura e o conhecimento da época. Deve-se ler Júlio Verne com os olhos de uma pessoa do século XIX, pois este era o público alvo esperado pelo autor, não nós. No século XIX, a ciência avançava a largos passos, emitindo pareceres praticamente incontestáveis, pois as maravilhas que ela trazia consigo – como a luz elétrica, a energia a vapor – a elevavam a um status de salvadora da humanidade; para os homens do século XIX, todos os problemas seriam resolvidos pela ciência. Um deste dogmas científicos era o da superioridade da “raça ariana” sobre a “negróide” e a “mongolóide”. O instigante é que a chamada Época Vitoriana também se caracteriza pela religiosidade e forte moralismo. Dá para imaginar? É por isso que eu amo História, me dá a possibilidade de estudar este animal ridículo denominado ser humano.

O que hoje entendemos como racismo era incontestável naquela época, não existia sentimento de igualdade racial em lugar algum do planeta, foi preciso acontecer o holocausto na II Guerra Mundial para que o mundo abrisse os olhos para isso. Não seria Júlio Verne nem qualquer outro samaritano iluminado que mudaria isso sem qualquer razão histórica. Desculpem-me os adeptos da pré-destinação, mas em minha opinião ninguém é bom por natureza, o homem é fruto de seu tempo, a bondade só existe com cultura e estudo, “a ignorância é vizinha da maldade”. Não duvido que no futuro olhem para o século XXI e não entendam como é que as pessoas permitem uma configuração social excludente como a nossa.

A primeira coisa que precisamos para ler Júlio Verne é exatamente ter em mente que o autor viveu seu tempo, como qualquer ser humano na História, e relativizar ideias obsoletas e desagradáveis para nós, cidadãos do século XXI. Uma característica da escrita de Verne que hoje em dia pode nos causar repulsa é o racismo presente em alguns trechos. Numa passagem, os personagens se julgam cercados por africanos, mas depois percebem que na verdade são macacos. Os comentários não poderiam ser mais ofensivos:

- Nós julgávamos que te haviam cercado os indígenas. - Felizmente não passavam de macacos – respondeu o doutor. - A diferença de longe não é grande, caro Samuel. - Nem mesmo de perto – replicou Joe.

Em outra parte, os personagens comentam que é melhor negociar com os árabes do que com os negros, porque são “menos selvagens”. Outro preconceito da época largamente difundido do livro é a oposição entre a Civilização (Europa) e a Barbárie (África), incluindo justificativas para o colonialismo europeu. Ao resgatar um missionário francês preso por cinco anos por uma tribo africana, os personagens perguntam por que empreender uma missão perigosa como aquela, no que o religioso responde: “são almas que devemos resgatar”, a velha explicação para a brutalidade do colonialismo. Entretanto, é curioso que o autor não poupe críticas neste sentido também à Europa, pois num certo momento ele questiona se a execução pela forca, prática comum na Europa daquele tempo, não seria também uma selvageria.

A superioridade da ciência também tem espaço garantido em “Cinco semanas em um balão”. “Mas que remédio há senão submeter-se, aceitar de tempos em tempos o que a ciência ensina” é uma das apologias ao grau absoluto de conhecimento da época. Ao homem cabia dominar a natureza e transformá-la em seu proveito. Naturalistas que não relativizarem a leitura ficarão horrorizados com a quantidade de animais caçados por Richard Kennedy, que tem uma fixação em matar que em algumas vezes é freada pelo Dr. Fergusson, mas em outras é até estimulada – caso de animais julgados perigosos, como crocodilos e leões. É engraçado ver que não existia nenhuma noção de cadeia alimentar e equilíbrio da natureza, há uma sugestão no ar de que os animais predadores eram maus e as presas vítimas inocentes. Ainda sobre a ciência, uma característica muito marcante na obra de Verne é a apresentação de novas tecnologias, a explicação de fenómenos que promovem o funcionamento de inventos, como no presente caso a luz elétrica e o próprio balão utilizado pelos personagens. A descrição dos processos químicos e físicos é minuciosa, tudo aquilo era uma grande novidade, o avanço cientifico e tecnológico do século XIX foi fantástico para aquelas pessoas.

Mas de todos os aspectos do livro, o que mais me chamou a atenção foi a apresentação das expedições na África ocorridas na vida real. Até meados do século XIX, quase nada se conhecia sobre a África. As únicas localidades alcançadas por europeus eram pontos na costa africana. Com o impulso imperialista, surgiu a necessidade de conhecer o interior para descobrir as possibilidades de exploração colonial, o que levou à criação de inúmeras sociedades de Geografia e ao envio de diversos aventureiros para aquelas terras até então desconhecidas, fantásticas, que despertavam divagações e ferviam a imaginação dos escritores. Isso se tornou uma mania nacional em toda a Europa. As pessoas acompanhavam as aventuras de personagens reais como Livingstone e Speke através dos jornais. Os exploradores do século XIX eram contratados pelas sociedades de Geografia e também por jornais, incentivados pela procura do público por tais aventuras da vida real. Muitos deles ficavam anos incomunicáveis e depois reapareciam, para delírio do povo. Era comum que alguns deles se perdessem, criando-se assim novas expedições de resgate.

Júlio Verne apresenta brevemente em “Cinco semanas em um balão” a história dos principais exploradores daquele tempo, que aliás serviram de base para todo o livro, pois o autor nunca pisou na África, mas como prova de sua genialidade narrativa descreve as paisagens, vegetações e pontos geológicos com precisão e beleza.

Uma passagem do livro me chamou muito a atenção, veja se você identifica o porquê:
“Se me dais licença meu amo, vou arremessar-lhes uma garrafa vazia. Se lá chegar sã e salva, hão de adorá-la; se se quebrar, farão dos bocados outros tantos talismãs!”
Em outra parte, quando arremessam outro objeto do balão, um deles exclama: “Os negros hão de ficar bem espantados quando encontrarem este objeto na floresta. São capazes de fazer deles ídolos”.
Quem via Sessão da Tarde nos anos 90 vai de cara se lembrar de “Os deuses devem estar loucos”!

Os personagens do livro são muito legais, se completando: o Dr. Fergusson com sua serenidade, liderança e conhecimentos que sempre salvam a trupe; Richard Kennedy com suas habilidades de caçador e prontidão para qualquer parada; e Joe, o fiel escudeiro de Fergusson, o que se pode chamar de uma cara “safo”, que dá o jeito dele em qualquer situação. A escrita de Verne é agradável e divertida, não enjoa nem cansa o leitor com repetições de palavras. Não é o que se pode chamar de excepcional, mas simplesmente posso afirmar que fiquei satisfeito, como depois de uma refeição muito gostosa. Procurarei outros livros de Verne para me divertir, e recomendo “Cinco semanas em um balão”, mas sugiro que sua leitura se faça com um mapa da África ao lado. Para mim foi quase irresistível procurar as localidades presentes no texto e traçar o caminho percorrido pelos três aventureiros, apesar da dificuldade por causa de alguns nomes que não são mais usados hoje em dia.

Bom.

Crítica escrita por Fernando Rocha, autor do blog Livro em Foco, e cedida gentilmente para o blog JVernePt.

Se pretender comentar esta crítica faça-o aqui. Caso pretenda comentar a obra use a secção correspondente. Qualquer pessoa pode escrever uma crítica para qualquer obra. Para isso leia o tópico 'Críticas das obras'.

sábado, 9 de agosto de 2008

Crítica 'Paris no Século XX (1863)'

Por volta de 1860 Júlio Verne escreveu um romance, ou, mais precisamente, uma novela, intitulada Paris no Século XX, que ficou inédita até há pouco tempo atrás, quando o manuscrito foi localizado num velho cofre da família.
Bem verdade que o título do livro estava catalogado desde a morte do autor, em 1905, quando seu filho Michel Verne fez publicar na imprensa a lista de obras inéditas deixadas pelo pai.

Supunha-se, inclusive, que esta obra não tivesse passado de um projeto não escrito, apenas idealizado; mas em 1986 os herdeiros do editor de Júlio Verne encontraram o rascunho de uma carta onde este informava ao escritor a decisão de não publicar Paris no Século XX. Hetzel foi o único editor parisiense que aceitou publicar Cinco semanas em um balão, vislumbrando o interesse que a obra despertaria. Assim, Júlio Verne enviou para ele os originais deste seu livro anterior, sem conseguir êxito.

Paris no Século XX é, uma obra sem a força de outros livros do autor, talvez pelo fato de se tratar de uma experiência literária da juventude. Se nas cem primeiras páginas do livro ele consegue estabelecer um panorama premonitório do ambiente cultural do século XX, a narrativa não logra manter aceso o interesse do leitor por estes fatos. Bem verdade que Verne tenta fascinar aos seus contemporâneos com inventos fantásticos, mas ele se debruça principalmente sobre as preferências intelectuais do Século XX.

O livro mostra uma cidade gerenciada por máquinas que fazem cálculos sozinhas, onde os homens podem se comunicar entre si e fechar contratos de negócios a milhares de quilômetros de distância.
Os navegantes da Internet e Bill Gates não imaginariam coisas mais assombrosas para a época. O navio Leviatã IV é um colosso tecnológico, onde se vive como numa cidade: além do conforto, seu imenso convés contém alamedas gramadas e arborizadas, onde damas e cavalheiros passeiam ao entardecer. Os trens urbanos, movidos a ar, deslizam em velocidades fabulosas sobre pontes que parecem sobrevoar a cidade.

Mas a invenção de Júlio Verne não é um desvario dos sentidos. O autor fica atento aos avanços da ciência e da técnica para projetar a aplicação das descobertas à vida quotidiana. A chamada telegrafia fotográfica inventada por Casselli, no Século XIX, serviu para Verne descrever os negócios do século XX como sendo comandados através de máquinas que permitiam enviar "fac-símile de toda escrita, autógrafo ou desenho, e que se assinassem letras de câmbio ou contratos a cinco mil léguas de distância." A criação de motores é aproveitada por ele para imaginar carros, automovidos, transportando pessoas pelas ruas de Paris.
A propósito, vale transcrever o que diz Véronique Bedin, editora francesa deste livro de Júlio Verne: "Sua força vem precisamente de saber nunca jamais inventar, mas considerar o real com uma atenção aguda, quase hipnótica, até obrigá-lo a entregar seu segredo e revelar seus possíveis."

Em meio deste bazar de coisas surpreendentes Verne projeta o Século XX como um paraíso da tecnologia. As ciências humanas, as artes ou a literatura não mais encontram lugar numa época dominada pela eficiência das máquinas. Nas escolas, "apenas os estudos científicos causavam acumulo de candidatos aos exames". As engenharias suprem todas as necessidades imagináveis. As cadeiras de Letras são suprimidas na segunda metade do século XX e seus professores desempregados. Os jornais também suprimem as seções literárias e circulam apenas com relatórios de negócios. Ninguém mais lê os poetas e prosadores "pela inquestionável razão de que os escritores haviam ficado mais numerosos do que os leitores". Nas bibliotecas ninguém conhece autores como Victor Hugo ou Rabelais. Os novos poemas e romances têm como tema o átomo ou o cálculo estrutural.

Os costumes também não escapam à observação do autor, através dos seus personagens: "Meu filho, a França perdeu sua verdadeira superioridade; suas mulheres, no delicioso século de Luiz XV, haviam afeminado os homens; de lá para cá passaram para o gênero masculino e já não valem o olhar de um artista nem a atenção de um amante!"
Mesmo com todo este arsenal de projeções e revelações de uma realidade ainda por vir, Júlio Verne faz com que este seu livro resvale para o lugar comum dos romances românticos. Não esqueçamos que o homem romântico exprime sua inadequação ao mundo fugindo para outros mundos. Por isso, talvez, a projeção de uma realidade futura vise apenas mascarar a impossibilidade de conviver com a vida real e concreta. Assim é que Michel, o protagonista de Paris no Século XX, é um jovem que nasceu tarde demais. Ele sentia saudades do século XIX, que não conheceu, e dos valores e costumes não mais existentes.

Os últimos capítulos do livro se ocupam dos sofrimentos e da decadência de um jovem privado do convívio dos outros homens e do amor da sua sonhada Lucy. O impotente arrebatamento do herói conduz à morte, encontrada numa noite de frio, por entre os túmulos do cemitério.
Para um livro que começa vislumbrando o admirável mundo novo, o fim não passa do lugar comum das narrativas sentimentais do Romantismo mais popularesco. Mas, por entre o amontoado de suspiros e ais românticos, o leitor encontra o encanto – e o enlevo – da imaginação de Júlio Verne.


Crítica escrita por Cid Seixas, autor do blog homónimo, e cedida gentilmente para o blog JVernePt.

Se pretender comentar esta crítica faça-o aqui. Caso pretenda comentar a obra use a secção correspondente. Qualquer pessoa pode escrever uma crítica para qualquer obra. Para isso leia o tópico 'Críticas das obras'.

domingo, 27 de abril de 2008

Crítica 'Os 500 Milhões da Begum (1879)'

Júlio Verne em sua melhor fase! Nesse livro o autor consegue, enfim, reunir o romance de aventura fantástica, com complexa fundamentação científica e mistérios que envolvem o autor. Agora, o autor não se prende por demasiado nem nas explicações físicas e químicas dos acontecimentos (como no Da Terra à Lua), e nem nas questões históricas e geográficas (como no Arquipélago em Chamas). Aqui, o que realmente importa é a AÇÃO, isto é, aquilo que os personagens fazem e constroem.

O enredo, resumidamente, inicia-se com a história de uma nobre milionária indiana (Begum) que morre e deixa 500 milhões (acho que de libras esterlinas ou de francos) para seus dois únicos herdeiros: o professor Sarracin, francês, e o professor Schultze, austro-alemão. Depois de cada um sacar suas fortunas, ambos resolvem aplicar o dinheiro em empreendimentos científicos, construindo cidades-estado na costa oeste dos Estados Unidos. Sarracin constrói a "Cidade da França", com planejamento urbanístico e sanitário que visa maximizar a qualidade de vida (e, em conseqüência, a produtividade do trabalho) de seus habitantes. Schultze, por sua vez, constrói a "Cidade do Aço", marcada pelo culto à obediência, na disciplina e na hierarquia, investindo pesadamente na indústria aramamentícia e exercendo controle totalitário sobre seus domínios. Naturalmente, as cidades vizinhas tornam-se logo rivais, e assim o livro conta a história de Marcelo Bruckmann, um jovem alsasciano (leste da França), que é mandado para trabalhar na Cidade do Aço servindo como espião da Cidade de França. Cabia a Marcelo se infiltrar nas organizações burocráticas dessa cidade para descobrir as armas secretas que o maligno Dr. Schultze estava desenvolvendo para destruir a cidade da França.

Mas lendo o livro com mais cuidado, o enredo descreve, em suma, o choque de modelos de desenvolvimento: o humanismo latino contra o militarismo germânico. Verne, infelizmente adotando estereótipos étnicos para fundamentar suas teorias políticas e institucionais (mesmo que isso fosse recorrente entre os autores do século XIX), discorre sobre as diferenças entre as formas de organização das duas cidades, com uma posição declarada pró-Cidade da França, apresentada como a "heroína", contra a "vilã" Cidade do Aço. Na verdade, Verne parece estar fazendo uma analogia à conjuntura política internacional de sua época. No final do século XIX, os dois principais impérios da Europa (a Alemanha do Segundo Reich e o Império Austro-Húngaro) se aliaram, junto com outros países, em um bloco chamado de Tríplice Aliança, e passaram a hostilizar os países vizinhos mais liberais (França e Inglaterra, que se aliaram à Rússia). Esse período, chamado de "Paz armada", em que os países se preparavam para uma guerra iminente, tendo como objetivo o controle político e militar da Europa, e, conseqüentemente de todas as colônias ná África e Ásia, mesmo faltando um estopim para o conflito, é a mesma situação em que as duas cidades-estado descritas no livro estavam envolvidas.

Para a sorte de Júlio Verne, e da humanidade como um todo, após duas Guerras Mundiais, ficou claro que o humanismo "latino" era superior social e institucionalmente ao militarismo "germânico". Contudo, após as guerras, os países germânicos absorveram muito melhor o modelo humanista-planejado de desenvolvimento, que se traduziram nas suas instituições sociais, políticas e econômicas de social-democracia, obtendo desse modo elevados padrões de qualidade de vida e IDH. Os países latinos, por sua vez, continuaram dominados por regimes autoritários (menos a França, a Costa Rica e outros poucos) até quase o último quarto do século XX.

Por último, é interessante ressaltar a importância que Júlio Verne dá à capacidade criativa individual de seus personagens como motor de todas as suas histórias. Ao contrário dos autores real-naturalistas, seus contemporâneos, que preferiam descrever seus personagens baseados nas suas relações com o meio social em que viviam (o "determinismo pelo meio" de Eça de Queirós e Aluísio de Azevedo), Verne descreve seus personagens principais como entes autônomos e totalmente dotados de livre-iniciativa. Assim, a toda a história do presente livro decorre dos investimentos pessoais de dois professores universitários europeus que subitamente descobriram-se milionários. Do mesmo modo, por exemplo, no livro "20.000 Léguas Submarinas", toda a história deve-se à ação de um príncipe hindu que, entediado de sua sociedade, resolve enclausurar-se em um submarino e navegar pelo mundo. Ou então o jovem oficial francês, que arrisca a sua vida para ajudar os gregos em sua guerra de independência contra os turcos, no livro "Arquipélago em Chamas". Certamente, a visão de homem de Júlio Verne, e sua diferença dos demais autores de sua época, é um tema muito interessante para estudos.

Crítica escrita por Ricardo Agostini, autor do blog Essa Metamorfose, e cedida gentilmente para o blog JVernePt.

Se pretender comentar esta crítica faça-o aqui. Caso pretenda comentar a obra use a secção correspondente. Qualquer pessoa pode escrever uma crítica para qualquer obra. Para isso leia o tópico 'Críticas das obras'.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Crítica 'Os Filhos do Capitão Grant (1868)'

Parte 1:

Lancei-me novamente na leitura de Júlio Verne, que tanto me move. Admiro os seus amplos conhecimentos de quase todas as matérias e a sua imaginação fértil e em constante invenção.

Bem, falo-vos agora do primeiro volume de uma trilogia que relata a verdadeira odisseia promovida por Mary e Roberto Grant em busca do seu pai, o capitão Grant. Parte-se do pressuposto de que este valoroso marinheiro escocês naufragou juntamente com dois companheiros. E como se sabe isto? Tudo começa de uma forma completamente fantasiosa, digna das histórias mais criativas de marinheiros piratas e tesouros. A bordo do “Duncan”, o “yacht” pertencente a lord Glenarvan (homem de longa linhagem, considerado como um verdadeiro escocês, amante profundo da sua pátria, riquíssimo mas grande filantropo), é pescado um tubarão cabeça-de-martelo, de cujas entranhas se recolhe uma garrafa… de dentro dela, sai uma mensagem de socorro!

Pois bem, é a partir dessa mensagem que lord Glenarvan, seus companheiros, servidores do seu castelo na Escócia, e sua mulher, vão inferir o paradeiro do Capitão. Julgam-no algures na Patagónia, refém dos índios. Glenarvan e lady Helena (a mulher) vêem recusada a ajuda do governo para ir em busca do capitão e decidem, por meios próprios, fazerem-no eles. Mary e Roberto acabam por se lhes juntar.

Bem, à partida estão lançados os elementos para mais uma louca aventura, bem ao gosto de Verne, mas penso que, desta feita, resulta um pouco inferior. Pelo menos, em relação ao que já li dele e sobre o qual opinei há algum tempo. Estava tentada a dar-lhe 3 estrelas mas acabo por lhe dar mais meio valor, pelo que arredondo para 4.

Notei, logo de início, algo curioso: o imenso patriotismo. Todos os homens que servem na casa de Glenarvan são descendentes de escoceses puros. Glenarvan faz parte da mais pura e elevada linhagem nacional e fez questão de se rodear desses homens valorosos. Depois, a própria mulher também reúne esse requisito precioso, apesar de pertencer a famílias muito modestas. Por último, todos eles se lançam no encalço de um escocês corajoso que se vê abandonado pelo seu próprio governo.

Portanto, parece, efectivamente, uma ode à Escócia, contra a Grã-Bretanha. Depois, achei curioso mas perfeitamente compreensível o trato dado às mulheres. É preciso perceber que estamos na segunda metade do século XIX. Lady Helena e Mary têm aqui um papel subalterno, são eclipsadas durante grande parte da obra e são tratadas com alguma condescendência: “as mulheres, segundo se diz, são sempre um tanto curiosas.” (pág. 9).

Houve várias coisas que não me agradaram tanto neste volume de Júlio Verne, portanto. Para além do patriotismo exacerbado e do extremo nacionalismo e independência destes escoceses face à Inglaterra (embora, não sem razão), achei o discurso do autor demasiado romântico – no sentido da corrente literária com o mesmo nome. Um dos exemplos mais significativos é o momento de fervor religioso na Igreja de Saint Mungo (pouco antes da partida para a América do Sul).

Depois, achei um pouco presunçoso e até mesmo cínico, o discurso de Glenarvan e lady Helena. Estas duas personagens dizem-se movidas pelo desejo sincero de salvar um compatriota e ajudar os seus filhos mas parecem fazê-lo por condescendência (do mesmo modo que a Lili Caneças foi ao bairro do Fim do Mundo ou os americanos para o Iraque). Ou seja, são os exemplos típicos dos patronos ricos que se sacrificam em prole dos desgraçados (fazem o seu dever). Por muito que as intenções sejam verdadeiras, a mim eles soam-me a artificial.

Tenho ainda a apontar a visão de Júlio Verne acerca da ilha da Madeira na época. Ainda que justa, não deixa de ser desoladora: “Nada oferece de interessante a um geógrafo [aqui, refere-se a Paganel, geógrafo que também os acompanha]. Tem-se dito e escrito tudo quanto é possível a respeito deste grupo, que, aliás, se acha em grande decadência sob o ponto de vista da vinicultura.”

A viagem tem início e encaminha-se para a América do Sul, mais propriamente para o Chile, cordilheira dos Andes e Pampas argentinas.

Júlio Verne é um homem de uma cultura imensa. A descrição que faz do povo autóctone, bem como dos seus costumes, personalidade, condições atmosféricas e de viagem é apaixonante. Percebe-se, contudo, que Verne se comporta como um cientista, observando analiticamente o que o rodeia. Isso dever-se-á certamente ao facto de a sua formação académica ser de Direito e a maior parte dos temas que ele abordava nos seus livros estarem fora do seu leque de conhecimentos. Assim, foram muitas as horas de pesquisa empreendidas na construção de cada uma das suas obras. Júlio Verne faz ainda, por vezes, juízos de valor, sobretudo no que respeita à suposta inferioridade dos índios e dos negros face aos brancos mas fá-lo de modo natural para a época.

Verne é também muito didáctico, mostrando-se muitíssimo interessado e informado acerca dos viajantes e descobridores que haviam passado por estes lados do Novo Mundo.

A viagem ao longo da cordilheira dos Andes é belíssima, mas não passa sem os habituais perigos que uma escalada nestas altas montanhas comporta. Verne consegue colocar-nos a viajar juntamente com as suas personagens.

De todas elas, a mais excêntrica e curiosa é um francês, o geógrafo e sábio Paganel. Para já, é muito mas mesmo muito distraído e acaba por entrar no “Duncan” por acaso, quando o seu verdadeiro objectivo era a Índia. Apesar de muito inteligente e pró-activo, acaba por estudar português em vez do espanhol. Achava, pois, muito estranho que os nativos não compreendessem o que dizia. Afinal tinha lido “Os Lusíadas" e aprendido português. Também não deixa de ser curioso que seja um francês, mesmo o mais distraído deles, a arrancar do documento achado no tubarão uma interpretação completamente contrária à que todos haviam presumido inicialmente. Apesar de tudo, para mim, é o que está melhor caracterizado, de forma mais expressiva e original. Destacam-se, depois, o índio Thalcave, Glenarvan e Roberto. Os restantes quase não existem, ouvimo-los poucas vezes e de forma inexpressiva e desinteressante.·

Mas Júlio Verne compreende perfeitamente que episódios ou acontecimentos entremear com os momentos mais mortos do percurso. Exemplo disso mesmo são as horas de tensão no deserto salgado, em busca de água, o ataque dos lobos vermelhos e o desaparecimento de Roberto (em dois momentos: durante o tremor de terra e aquando do ataque dos lobos).

Verne é mestre em atiçar quer a curiosidade (imensa informação sobra as Pampas: fauna, flora, hábitos humanos, raças de índios, os conflitos intestinos na Argentina, a colonização) quer a tensão dos leitores.

É um livro repleto de emoções, não há momentos parados, mas não se compara com outras obras de Verne, pelo menos as mais emblemáticas e pelo menos este primeiro volume. Percebe-se que o livro cresce e até o seu desfecho é apoteótico, embora não sem a sua pontinha de acção. Sentimo-nos transportados para os locais calcorreados pelas personagens e não é sem alguma nostalgia que partimos da Argentina. Para onde vamos, saber-se-á no segundo volume.

Verne prima pela imaginação e é um gosto andar a caçar tatus ou nandus para o jantar; dormir nas árvores; atravessar os Andes; deslizar numa placa de terra arrancada ao solo depois do terramoto; fazer fogueiras à noite e dormir ao relento; quase morrer de sede no deserto; ver os animais mortos nos pântanos.

Enfim, aconselho a quem já tenha lido melhor do aturo e seja persistente na contínua perseguição das suas obras. Penso também que será melhor esperar pelos outros volumes. Apesar de não ter sido uma desilusão completa, não me apaixonou por aí além. Acaba por salvar-se das 3 estrelas porque ganha um fôlego maior a partir da jornada no terreno, mas há muitas arestas por limar.

Refiro ainda que li o livro através da colecção lançada pela RBA Editores, que não é nada de especial mas é barata – com a desvantagem de ter aquele papel rugoso e amarelado que não gosto nada.


Parte 2:

Com muitíssimo menos entusiasmo que no volume primeiro desta saga, acabei o segundo volume. Decididamente, o benefício da dúvida que havia concedido a Verne não teve grandes frutos. Até agora, foi das obras mais desinspiradas que li do autor. Depois de um primeiro volume empolgante, cheio de aventuras deliciosas, Verne desilude completamente.

A expedição de lord Glenervan segue a pista do documento encontrado no estômago do tubarão e continua a sua demanda, desta vez, pelas terras da Austrália, depois da passagem atribulada pela Argentina.

Tinha colocado algumas expectativas quanto ao seguimento da obra e acabei por vê-las absolutamente goradas. Este segundo volume é uma sombra, o reflexo muito, muito pálido do estilo, da imaginação contagiante do autor. Parece-me mesmo que constitui um acidente de percurso, esperando eu que a última parte da busca pelo capitão Grant possa redimir Verne – pelo menos, aos meus olhos.

Tenho a nítida sensação de que Verne andou à deriva, como que inventando tema para encher um volume extra. Continuam, contudo, a persistir aqueles traços que fazem de Verne um autor fascinante. Sobretudo, o constante optimismo e a descrição das soluções mais improváveis nos momentos em que já não resta qualquer esperança. Isso acontece menos abundantemente no segundo volume, mas dá-se, por exemplo, com o aparecimento de Ayrton, que alega ser um dos náufragos do Brittnania.

Pelo meio da narração fantástica, Verne inclui as já habituais informações factuais, apesar de aqui quase se limitarem a uma descrição enfadonha, sem espírito, informações às quais todos nós hoje podemos aceder – talvez à época da sua edição, a informação contida no livro se revestisse de maior interesse e importância. Gostei de saber, por exemplo, num dos raros momentos em que Verne discorre de forma a interessar, que a Austrália, como país colonizado pelos ingleses, apresenta – à semelhança do continente africano –, uma divisão territorial perfeitamente geométrica, sem olhar às particularidades da topografia nem da cultura e geografia.

Curiosa mas não surpreendentemente, é Paganel, o geógrafo francês, o crítico mais amargo da visão colonizadora inglesa e o que mais se insurge contra alguma falta de sensibilidade nesse processo. É na pessoa de Paganel e na do major Mac-Nabs, aliás, que se centrará umas das discussões mais tendenciosas e nacionalistas deste livro e do conjunto dos dois volumes. Esse momento é o da discussão acerca do progresso, em que Paganel representa a posição tradicionalista francesa e o major, britânico, a posição que passa sobre o passado uma esponja (“- O que importa, se o progresso penetra nele! – replicou o major”, pág. 153 da versão da RBA Editores). Não deixa de ser curiosa a disputa de nações que, aliás, está presente de forma mais acentuada no discurso do geógrafo. Indiscutivelmente, a mentalidade desta segunda metade do século XIX tem de ser compreendida e aceite. Não querendo ver com repugnância, através dos meus olhos de século XXI, o discurso de Verne, tento compreendê-lo. Verne, para além de tendenciosamente nacionalista, mostra ainda uma ideia que permanece desde o primeiro volume: o menosprezo pelos indígenas. Desta vez, muito curiosamente, não temos um índio companheiro e fiel que surja por toda a obra, mas apenas um fugaz rapazinho selvagem que desaparece em poucas páginas sem nunca mais ser mencionado. O porquê da sua aparição tão lacunar permanece um mistério, embora me pareça que tenha servido apenas de base de discussão. Nesta altura, Toliné, o selvagem, é apresentado como um indígena cristianizado, evangelizado, que aspira a ser missionário, no seguimento daquela ideia secular de que as almas perdidas dos selvagens sem credo têm de ser salvas – ainda hoje os indígenas brasileiros são enganados por falsos profetas. O que é certo é que eles têm os seus próprios credos, adorando e respeitando a natureza, algo considerado como pagão e herético aos olhos da Igreja.

A descrição que Verne faz da Austrália nada tem a ver com a feita aquando da peregrinação pela América do Sul. O autor torna-se apenas num relator de datas, nomes de exploradores e dados estatísticos sobre a exploração do ouro neste país. Porém, é no ponto em que descreve os números da exploração aurífera que Verne demonstra plenamente ser um homem do seu tempo – embora possamos, noutras obras, vê-lo como um precursor, muito para lá do século XXI. Verne diz-nos que “Os países auríferos não são privilegiados. Só criam populações ociosas e nunca raças fortes e trabalhadoras. Veja-se o Brasil, o México, a Califórnia, a Austrália! Onde estão eles no século XIX? O país por excelência, meu rapaz, não é o país do ouro, é o país do ferro!” (pág. 188). Apesar de considerar a Califórnia como um país, Verne, através de Paganel, tem aqui uma das mais marcantes frases e conceitos do livro.

Por outro lado, continua, à semelhança do primeiro volume, a ideia de que as mulheres são demasiado frágeis ou histéricas para estarem a par das decisões mais sérias. Embora também possamos compreender esta mentalidade, para as mulheres mais feministas, é capaz de lhes pôr o cabelo de pé :)

Verne repete, pois, as mesmas fórmulas do primeiro volume, mas faltam-lhe aqui aquelas que conferem verdadeiro interesse à leitura. Nem sequer a lamechice romântica, o exagero sentimental o encontramos, excepto, talvez, na aproximação de John Mangles a Mary Grant.

Este segundo volume decai imenso em qualidade e entusiasmo. Para além do desaparecimento prematuro e inexplicável de Toliné, o episódio do crime em Camden-Bridge é mencionado de forma superficial e sensacionalista, porém fugaz. Nem mesmo o twist final apaga o sabor amargo do resto da obra porque as pistas deixadas por Mac-Nabs tornam-no absolutamente previsível.

Numa atitude aparentemente desesperada, Verne inventa uns episódios de dificuldades no deserto a caminho de Twofold-Bay, onde o yacht Duncan os devia esperar – depois de percorrerem a Austrália de uma ponta à outra. Ora, durante mais de 200 páginas é a pasmaceira, não é assim, à pressa, que se redime uma má obra.

Portanto, desta vez, a desilusão foi grande, Verne leva 2 estrelas. Contudo, esta travessia no deserto torna-se necessária para chegarmos ao desenlace da aventura, no terceiro volume, pelo que aconselho a leitura apenas aos mais resistentes – embora já se possa adivinhar qual será o derradeiro desfecho (não convém que sejam demasiado curiosos e espreitem as ilustrações que se encontram adicionadas em qualquer das edições da obra de Verne, é que podem ficar a saber o final do livro através delas).

Há uma grande diferença de estilo, mas tenho ainda esperança no último volume. Sinceramente, espero não ter motivos para dar novamente uma pontuação tão baixa.


Parte 3:

E ao terceiro volume, Verne redime-se, sem, apesar de tudo, fazer um livro brilhante. É, certamente, muito mais empolgante e completo que o segundo (um enorme erro de percurso), concluindo – com sucesso ou não, não vou contar – a demanda em busca do Capitão Grant. Se bem se lembram, o capitão havia naufragado algures na Patagónia e os seus filhos, juntamente com toda a tripulação do Duncan, vinham-lhe seguindo o rasto desde aquele local, passando depois pela Austrália e, agora, pela Nova Zelândia. Verne dá-nos um impressionante testemunho da realidade neo-zelandesa – pelo menos, uma parte e um pouco tendenciosa –, focando, sobretudo, a fortíssima inclinação canibal das populações autóctones. Sempre expressando-se através dos seus personagens, percebe-se que Verne está em pano de fundo, sente-se a sua presença. Visivelmente chocado com estas práticas, será maioritariamente através de Paganel, o geógrafo francês excêntrico e distraído, que demonstrará de forma mais aguerrida a sua repulsa.

Neste último volume, perpassa um enorme sentimento de desilusão e resignação. Depois de infrutífera expedição pela Austrália, todos os tripulantes perderam a esperança de voltar a ver o capitão com vida.

Percebe-se ainda uma novidade, algo que vem contrariar o aparente facilitismo que o narrador Verne aplicava à narrativa. Desta vez, os tripulantes – lord Glenarvan, lady Helena, Mary e Roberto Grant, Wilson, Mulrady, Paganel e John Mangles – deparam-se com muito maiores dificuldades, já não temos aquela sensação de passeio de gente fina pelo meio dos selvagens. Agora, enfrentam naufrágios a sério, correm perigo de vida até ao último instante. Muito mais que nos volumes anteriores, sentimos estar a ler o verdadeiro Verne.

Mas o tema que domina grande parte do livro é o da antropofagia. Mais uma vez, os tripulantes se chocam e insurgem: “Mas como é que o cristianismo não pôde ainda destruir os costumes da antropofagia?” (pág. 67 da edição da RBA Editores). Todavia, apesar da narrativa interessantíssima das tentativas de cristianizar e dominar os povos autóctones da Nova Zelândia, Verne retorna ainda à narrativa aborrecida e desgastada da História do país através da descrição dos aventureiros que por lá passaram. Ora, isto acontece com frequência em todos os volumes e é, sinceramente, um aborrecimento de morte.

Neste volume, contudo, Verne introduz elementos ricos que acabam por compensar alguns outros mais entediantes. Atreve-se mesmo a algum suspense, pese embora ingénuo: “(…) quando na Nova Zelândia alguém está um ano sem aparecer (…), é porque se acha irremediavelmente perdido!” (pág. 99). É neste estilo que Verne nos tenta confundir em relação ao destino do capitão, não nos revelando nunca se nefasto ou benfazejo, até muito, muito perto do final.

Verne junta ainda a estes elementos que promovem o interesse, episódios de curiosidades. Por exemplo, adorei saber – sim, porque eu não sabia, confesso, e senti-me uma criancinha, a rir-me sozinha para o livro – que as focas engolem seixos de dimensões consideráveis para mergulharem a maior profundidade. Achei engraçado LOL! Também gostei muito da descrição sobre os kiwis, aquelas aves sem asas e bico longo e fino, tipicamente australianas – até as ilustrações do bicharoco estão um brinco.

O terceiro volume continua, apesar de tudo, a mostrar-nos juízos de valor bem depreciativos – mas compreensíveis – acerca dos indígenas. Para além da condenação sem compreensão prévia dos hábitos antropofágicos, quase que se goza com a bandeira utilizada por uma das tribos locais, referindo-se-lhe como “um pedaço de estofo que o vento fazia ondular no alto de uma cabana. Era a bandeira nacional.” (pág. 125). Bem, se formos realistas, o que é bandeira de cada país? Um pedaço de pano tingido, nada mais. Parece-me muito depreciativa e até ofensiva e racista – embora se perceba bem o contexto da época de Verne – que não se tenha em conta que a bandeira é o significado que se lhe atribui. Para quem a veja e não lhe conheça o simbolismo, não tem qualquer interesse ou significado.

Aquilo que Verne descreve de forma absolutamente impressionante é o luto dos neo-zelandeses, esse sim, um testemunho mais próximo de antropológico: “Os parentes e amigos dos guerreiros mortos [em combate contra os ingleses], as mulheres principalmente, rasgavam o rosto e os ombros com cortantes conchas. O sangue escorria e misturava-se com as suas lágrimas. As profundas incisões atestam grande desespero.” (pág. 133).

Ainda, Verne procede do mesmo modo ao descrever todo o cerimonial que rodeia o enterramento de Kara-Té Té, chefe tribal. Descrição extremamente vívida, sem tabus, mas ao mesmo tempo parcial, vista claramente pelos olhos de um ocidental. Aliás, será claramente desrespeitado e profanado o local do túmulo do chefe, apesar de por óbvia e absoluta necessidade. Esta visão ocidentalizante está constantemente expressa, até nas considerações acerca do criminoso Ayrton – antigo cabo de marinheiros do capitão Grant. As personagens criados por Verne estão impregnados de puritanismo, religiosidade ocidental exacerbada e cristianismo bíblico – é quase repugnante a forma como falam de Ayrton: como é que um homem com tantas capacidades usa a sua inteligência para o mal?

As novidades – algumas – de que falei não ofuscaram totalmente o renascimento do ideal Romântico, pelo que é possível que em alguns leitores possa surgir a náusea face aos sentimentos de John Mangles por Mary Grant, disposto a morrer por ela.

Não vos vou contar o final, para quem algum dia vá ler esta trilogia, mas deixo uma pequena nota de interesse sobre Paganel. Será muito curioso descobrir porque afinal, a partir de certa altura, o geógrafo andará tão silencioso e coberto de roupa até ao pescoço: “Paganel, ele que, em caso de necessidade teria inventado a esperança, Paganel conservava-se triste e silencioso.” (pág. 212).

Chegada ao fim do terceiro volume, só posso mesmo recomendar estas obras a quem se interesse muito em ler grande parte da produção escrita deste autor. Eu, sinceramente, apesar do desaire do segundo volume, aprendi muita coisa com Verne, aprecio a sua capacidade inventiva e imaginação viva, mesmo quando não estão ao seu mais alto nível. É o caso destes 3 volumes, irregulares e, em certa medida, repetitivos nas suas fórmulas. Ler-se-ão apenas por alguma teimosia. Verne tem obras muito superiores e de um só volume que valem muito mais por estes 3. Assim, dou 4 estrelas a este último por ser bem melhor que os dois anteriores mas, no cômputo geral da trilogia, daria 3 estrelas.

Crítica escrita novamente por Cátia Santos, autora do blog Há Fogo na Lua, e cedida gentilmente para o blog JVernePt. Poderão ler outra crítica da Cátia aqui.

Se pretender comentar esta crítica faça-o aqui. Caso pretenda apenas comentar a obra use a secção correspondente. Qualquer pessoa pode escrever uma crítica para qualquer obra. Para isso leia o tópico 'Críticas das obras'.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Crítica '20000 Léguas Submarinas (1870)'

Ganhei há bem pouco tempo o gosto de ler Júlio Verne. Tenho aproveitado as colecções que foram lançadas muito recentemente, uma pela RBA Editores e outra no Correio da Manhâ. Estou a completar a primeira. Mas já tinha adquirido as Vinte Mil Léguas Submarinas antes. E finalmente encontrei um género literário que me satisfaz completamente.

Em relação a este título em particular, posso dizer que me fez sonhar como sempre desejei. Conta-nos a história de um professor francês, o seu companheiro (Conseil) e Ned Land, um marinheiro canadiano e de como todos acabam "prisioneiros" do Nautilus e do capitão Nemo, após terem seguido a bordo de um navio cuja missão era capturar um terrível monstro que assolava os mares e afundava navios - o Nautilus.

É surpreendente a vivacidade com que o autor nos faz a descrição das aventuras e desventuras daqueles 3 personagens e a relação algo tempestuosa com o capitão, um homem duro, decidido a isolar-se irremediavelmente do mundo civilizado para viver a bordo do submarino por ele desenhado. Este é uma verdaderia fortaleza contra todos os perigos. Toda a tripulação se alimenta dos recursos fornecidos pelo mar, tudo o que encontramos na terra tem o seu homólogo na água. O que é uma visão fascinante embora um pouco utópica de como utilizar recursos que são praticamente inesgotáveis e não poluentes. Aliás, Júlio Verne aponta-nos aqui uma faceta sua que me parece muito recorrente: a de naturalista e em muitos aspectos de ecologista.

O que me aborreceu mais foi, de facto, a imensa descrição de peixes, moluscos, enfim, todos os animais marinhos classificados por ordens, subordens, classes... acho um pouco desnecessário e, para quem não tenha em mente todos aqueles animais, é demasiado exaustivo. Contudo, somos compensados com as maravilhosas viagens ao fundo do mar, os fatos de mergulhador bastante arcaicos, mas uma descrição bem realista da sensação de estar no fundo do mar. Percorrem-se todos os oceanos a bordo do Nautilus e só no Árctico é que correrá verdadeiro perigo, como que antecipando o final, que não vou revelar.

Às tantas, a meio do livro, depois de tanto ler sobre a inesgotável electricidade que alimentava o Nautilus, do material inquebrável que o compunha, das velocidades que aquele subamarino atingia, é que parei para pensar um pouco e dar-me conta de que este homem, Júlio Verne, era de facto um visionário. Escrevendo em meados do século XIX, mais propriamente 1873, quase que nem damos por isso, embora se possa rever precisamente naquele espírito analítico e necesariamente classificador um reflexo da maneira como a ciência era encarada na época.

Os personagens são caracterizados perfeitamente. Temos o subserviente Conseil, que segue o seu mestre para todo lado e só opina o que o mestre opina, vive porque ele vive, respira para ele, sem autonomia mas muito fiel. Temos Ned Land, o impetuoso pescador, cujo único pensamento desde o início é escapar - incapaz de estar preso durante tanto tempo. Temos ainda o Professor, de que não me recordo o nome, espírito perfeitamente sereno e observador, esperando pelo momento certo, escolhendo bem as palavras, aproveitando a prisão involuntária para aumentar os seus conhecimentos e estudos. E temos também a figura incontornável do capitão Nemo, homem de personalidade vincada, obstinado e decidido, um estudioso excêntrico, como a maior parte dos personagens de Verne.

Enfim, é um livro muito aconselhável a quem se queira iniciar na ficção científica de excelente qualidade, é um clássico de incontornável gosto, imprescindível, mas que pode maçar um pouco nas suas divagações acerca dos habitantes marinhos. De resto, até acabamos por aprender algo com isso, sem querermos. Portanto, só tem vantagens. Leiam.

Crítica escrita por Cátia Santos, autora do blog Há Fogo na Lua, e cedida gentilmente para o blog JVernePt.

Se pretender comentar esta crítica faça-o aqui. Caso pretenda apenas comentar a obra use a secção correspondente. Qualquer pessoa pode escrever uma crítica para qualquer obra. Para isso leia o tópico 'Críticas das obras'.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Crítica 'As Atribulações de um Chinês na China (1879)'

Kin-Fo é um homem jovem, saudável, extremamente rico e profundamente entediado. Nem o casamento próximo com a bela Le-U o anima, o que leva seu amigo inseparável, o filósofo Wang, a acusá-lo de não ter passado por provações na vida, nem ter sentido a infelicidade, o desconforto ou a desgraça, e por isso não dar valor à real Felicidade.

Porém, uma notícia inesperada dá conta de que sua fortuna foi perdida com a falência do banco americano onde estava depositada.
Kin-Fo assina então um contrato numa Companhia de Seguros, cuja apólice beneficiaria Le-U e Wang no caso de sua morte (a qual ele planeja, com intuito de dar um último alento - e uma pequena fortuna - aos dois).

Em nome de sua infinita amizade, força Wang a se comprometer com ele em cumprir a missão de matá-lo, até o dia final do contrato de seguro de vida. Para isso, assina uma carta onde exime o portador de toda a culpa, assumindo sozinho a responsabilidade por seu ato.

Quando Wang desaparece, começa o "desconforto" de Kin-Fo, que aumenta quando ele recebe a notícia de que sua fortuna estava salva, e não perdida. Ele resolve atravessar a China tentando evitar de ser morto por seu até então melhor amigo (mas agora com muito dinheiro para ganhar com sua morte) antes que o contrato expire.

O "desconforto" de Kin-Fo cresce de forma insuportável quando ele recebe uma nota de Wang dizendo não ter reunido coragem para cumprir a promessa feita ao amigo - e passado a carta, e o montante a ser pago quando de sua morte, a um renomado e frio assassino, Lao-Shen.

Este romance, cheio de humor e aventuras, percorre o território chinês no final do século XIX, revelando aspectos culturais, religiosos e geográficos do país mais populoso do planeta.
Verne explora, com a maestria costumeira, os aspectos mais pitorescos e surpreendentes dessa civilização, à época e ainda hoje, bastante desconhecida.

No plano moral, o livro encerra uma lição de amor à Vida : o dinheiro tem um preço certo, mas os valores espirituais do homem - o livre arbítrio, a paz interior, a justiça, o Amor - são imensuráveis.

Crítica escrita por Carlos Patrício, um dos nossos conhecidos colaboradores aqui no blog JVernePt, a quem eu agradeço mais uma vez.

Se pretender comentar esta crítica faça-o aqui. Caso pretenda comentar a obra use a secção correspondente. Qualquer pessoa pode escrever uma crítica para qualquer obra. Para isso leia o tópico 'Críticas das obras'.

domingo, 16 de setembro de 2007

Secção 'Críticas das obras vernianas'

É com agrado que inauguro mais uma secção no nosso blog.

Nesta secção denominada "Críticas das obras" estarão regularmente presente críticas, sejam elas positivas ou negativas, sobre as diversas obras do autor. Estas críticas serão mais que um mero comentário (secção já aberta no blog). Serão opiniões mais desenvolvidas, ou seja, apresentarão descrição de aspectos objectivos que dêem sustentação à opinião do crítico. É de relembrar que uma crítica terá uma perspectiva descritiva (observar o que há de bom e/ou de mau numa obra), como também de avaliação.

Pretende-se com isto que haja no blog uma maior interacção entre os que nos visitam como também incentivar à escrita/leitura. Os nossos visitantes poderão comentar as críticas das obras que já leram e comentar se estão de acordo, ou não, com a opinião do crítico. Caso se apresente uma crítica de uma obra não lida, quem sabe se esta não abrirá o "apetite" para a sua leitura?

Temos neste momento algumas colaborações de críticos, que em breve disponibilizemos, mas também pretendemos que os nossos visitantes colaborem. Para isso enviem as vossas críticas para o email (indiquem a obra a analisar e o vosso nome), que iremos analisá-las e proceder, se assim determinarmos, à sua colocação no blog com o vosso respectivo nome. Com certeza irão ser uma mais valia para todos nós. Além disso, terão a oportunidade de ver o vosso trabalho divulgado na internet.

Espera-se que, com esta nova iniciativa, se fale, se discuta, se analise mais a obra de Verne que tão rica é.

Que seja um sucesso...

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Crítica 'Viagem ao Centro da Terra (1864)'

Não sei ao certo onde comprei essa obra. Acho que foi em algum sebo, há muito tempo. Talvez a tenha herdado de alguém, algum dia. Não sei. Mas, ela estava lá, em minha prateleira, e, como fazia muito que não lia livros de literatura por simples entretenimento, resolvi dedicar uns 2 ou 3 dias para a leitura dessa obra tão famosa. É o tipo de obra que todos conhecem, mas sem nunca ter lido uma página. Sendo assim, já tinha uma idéia bem formada do que aconteceria a cada momento da obra, embora não conhece nenhum dos seus detalhes específicos. Ou seja, apesar de se tratar de ficção científica, em função do desgaste histórico da obra, não há surpresa nos fatos narrados; isso mais por conta do leitor (hoje) do que do livro, pois o leitor contemporâneo já está acostumado com esse gênero e provavelmente já assistiu desenho animado demais. Tudo bem, esse não é o tipo de obra que se deva ler pelas surpresas, há muito mais em jogo.

Das centenas de edições de "Viagem ao centro da Terra" (voyage au centre de la terra, no original) a que li foi a da Editora Ática, lançada em 1994 na coleção "Eu leio", traduzida por Cid Knipel Moreira. Quanto a qualidade da tradução não posso testemunhar, pois não sou habituado com o estilo de Verne, nem com o francês, mas no geral a edição é boa. No livro há cerca de 10 páginas tratando do autor e do livro, constando inclusive uma reprodução de uma das ilustrações originais da obra; Júlio Verne teria sido muito cuidadoso para que a obra fosse bem ilustrada, considerava fundamental a percepção visual de sua obra escrita. As ilustrações da edição que li foram feitas por um tal de "Bilau" e têm um estilo HQ, ou seja, com bastante atenção aos detalhes dos personagens (desenhados basicamente em caneta nanquim de ponta fina) e fazendo muitos jogos de luz e sombra. Esse estilo é interessante, mas eu acredito que peque um pouco na interação personagem/cenário. Fazendo uma analogia com o cinema, parece que as ilustrações foram "filmadas com fundo azul"; o cenário está lá, o personagem também, mas parece que eles não estão "juntos". Pela impressão que tive da gravura original, no original, em função do próprio estilo da ilustração, estão mais inteirados homens e paisagens, o que garante mais movimento para a cena.

Sobre a estória contada no livro há muitos aspectos que podem ser observados. Em linhas gerais ela relata a estória de um cientista do século XIX, defensor de uma antiga teoria que afirmava que a Terra era oca, que em seu centro provavelmente existiriam lagos e oceanos, possivelmente um sol central e talvez até formas de vida. Essa teoria, mesmo no século XIX nunca foi muito bem aceite pela comunidade científica, embora possuísse alguns vários adeptos; por outro lado a teoria do "fogo central" era a mais aceita (e continua assim até hoje), ela afirmava que o centro da terra é composto por uma fusão de metais em altíssimas temperatura e pressão. Na época houveram disputas épicas entre cientistas defensores de cada uma das teorias, alimentadas principalmente pelas falhas mútuas e impossibilidade de prática de testar a teoria (ir efetivamente ao centro da Terra e "ver" a verdade). Pois bem, o cientista da estória acha um registo de uma suposta viagem ao centro da Terra feita por um alquimista do século XVI. Com base nas anotações do alquimista ele parte para um vulcão que possuiria uma caverna que levaria ao centro da Terra. Junto com ele vai um guia nativo e seu sobrinho, este último completamente descrente de qualquer possibilidade de sucesso da expedição; o sobrinho é um jovem pesquisador defensor ferrenho da teoria do fogo central. Um aspecto interessante da obra é que durante toda a expedição tio e sobrinho travam várias batalhas teóricas, cada qual defendendo algumas das teorias e apelando aos "fatos" para convencer o outro do "delírio" que estaria sofrendo (a ambiguidade desta frase é propositada, faz parte de uma interpretação minha do tema). No decorrer da obra a teoria da terra oca é comprovada, fornecendo material para a explanação de vários fatos não explicados pela ciência da época, há encontros com animais fantásticos e os viajantes passam por uma série de problemas frente as dificuldades impostas por um terreno tão indeterminado e desconhecido; mas sempre seguem em frente como numa espécie de loucura científica, um fator psicológico bastante explorado na obra.

Essa obra é muito útil caso queiramos traçar paralelos com as crenças populares e o furor do desenvolvimento científico. Os séculos XVII à XIX foram muito felizes para a ciência, sobretudo quanto as expectativas que foram criadas quanto a sua profundidade (como no caso do positivismo). Com a ciência positiva muitos passaram a acreditar que poderíamos, com aquele método determinado, conhecer todas as coisas, sob todos os aspectos. De lá para cá foram só estocadas contra essa concepção e a própria ciência teve que se adaptar à muita coisa. Hoje, ficção científica é um gênero bastante respeitável, mas já perdeu muito espaço para tudo o que trata do espiritual, indeterminado, oculto e inexplicável. Essa atenção às verdades não-científicas já existia, mas, de maneira geral, foi tratada pejorativamente como crendice e era deixada um tanto de lado pela camada "culta"; hoje ressurge das cinzas e disputa espaço lado à lado com livros que retratam teorias conspiratórias - "sabe tudo aquilo que você julgava verdade, eles mentiram para você" -, enquanto a ficção científica cambaleia procurando uma nova forma.

Crítica escrita por Fernando Moreira, autor do blog Canecas: Idealismo Antártico, e cedida gentilmente para o blog JVernePt.

Se pretender comentar esta crítica faça-o aqui. Caso pretenda comentar a obra use a secção correspondente. Qualquer pessoa pode escrever uma crítica para qualquer obra. Para isso leia o tópico 'Críticas das obras'.

domingo, 1 de julho de 2007

Crítica 'Robur, o Conquistador (1886)'

A ficção científica tem bem mais do que a sua conta de personagens anti-sociais mas geniais, poços frequentemente irascíveis tanto de inteligência como de arrogância e desprezo pelo comum dos mortais. Não é o único género em que este tipo de personagem surge, naturalmente, mas na FC ele é particularmente abundante, e por cada Nero Wolfe ou Sherlock Holmes que surgem noutros tipos de literatura haverá na FC uns dez capitães Nemo ou Professores Challenger.
Robur, o Conquistador, é mais um membro desse ilustre clube.
Não é, aliás, a única personagem deste romance que partilha dessas características. Quer o Uncle Prudent quer o Phil Evans, as outras duas personagens principais do livro, não são desprovidos de arrogância ou inteligência. Mas não ponhamos a carroça à frente dos bois e comecemos pelo princípio.

De forma algo incaracterística no contexto da obra de Verne, Robur, o Conquistador inicia-se envolto em humor. Começa por descrever uma série de acontecimentos insólitos que giram em torno de estranhas luzes ou sons sobre várias cidades do mundo inteiro e toda a agitação e disputas que esses acontecimentos ocasionam nos meios académicos, alvos de um sarcasmo impiedoso nesse primeiro capítulo. Logo em seguida, Verne conduz-nos a Filadélfia e a uma tempestuosa reunião de um clube de balonistas, o Weldon Institute, onde somos apresentados às três personagens principais sem que o sarcasmo esmoreça. Uncle Prudent é o presidente do Weldon Institute e de uma facção dentro dele e Phil Evans é o cabecilha da facção oposta, dedicando-se ambos a discutir com toda a veemência que se possa imaginar a posição mais adequada de um propulsor num dirigível. E é nesse momento que Robur irrompe pela sala adentro acusando todos aqueles defensores do mais leve que o ar de não passarem, bem vistas as coisas, de um bando de patetas, o que causa um burburinho que é fácil de imaginar.
Sai Robur da sala, perseguido por vaias e insultos, dá o Uncle Prudent por finda a assembleia e sai também, ainda embrenhado na discussão com Phil Evans, os dois acompanhados por Fricollin, o criado negro de um deles, e o romance toma aí o rumo aventuresco mais habitual nas histórias de Verne, se bem que intercalado por tentativas de humor muito menos bem sucedidas do que a princípio, girando em geral em torno do criado Fricollin, que é retratado como um poltrão ignorante, supremamente preguiçoso e indigno de confiança.

E entramos numa espécie de versão condensada e aérea das Vinte Mil Léguas Submarinas. O capitão Nemo é agora Robur, outro homem misterioso, detentor de uma tecnologia revolucionária que neste caso é uma espécie de Nautilus aéreo, o Albatroz, um aparelho semelhante ao helicóptero mas com uma multiplicidade de rotores em vez de apenas um. Os dois balonistas e o criado vão acabar na mesma posição do Professor Aronnax e companheiros: raptados e sem possibilidade de fuga, a bordo do aparelho comandado por Robur e tripulado por uma tripulação que lhe é tão fanaticamente dedicada como a tripulação do Nautilus é a Nemo. E partem também numa viagem em volta do globo, sem fim à vista.
Ou seja: num romance publicado quase vinte anos depois da longa viagem submarina a bordo do Nautilus, Verne repete tema e enredo de forma condensada (este livro tem apenas um terço da extensão das Vinte Mil Léguas Submarinas), e até personagens, como se o objectivo de escrever este Robur fosse pouco mais do que apresentar a nova ideia de maravilha tecnológica e descrever algumas coisas que se poderiam fazer com ela caso existisse, e o autor tivesse decidido que isso bastava para tornar o livro interessante. Mas esse facto transforma este romance num sucedâneo e portanto num romance menor, que ainda por cima se revela tingido de racismo, sempre desagradável mesmo que saibamos bem que a ideologia da superioridade do homem branco era a fruta da época a que só muito poucos eram capazes de escapar.
Apesar de tudo, Verne é sempre um óptimo contador das histórias mais extraordinárias, em especial quando não se deixa perder em descrições demasiado longas. E assim, a leitura de Robur, o Conquistador flui com bom ritmo, e acaba por deixar qualquer coisa ao virar a última página: a ideia do Albatroz, precisamente, no fundo a personagem fundamental neste livro.
E com uma tradução de bom nível (e já muito antiga) remata-se um livro que em geral é agradável. Se aqui houvesse meias estrelas talvez desse três e meia, mas não há e fecho nas: ★★★★

Crítica escrita por Jorge Candeias, um dos melhores críticos nacionais, e cedida gentilmente para o blog JVernePt. É o autor do magnífico site E-nigma, Revista Electrónica de ficção-científica e fantástico, um site que eu recomendo bastante.

Se pretender comentar esta crítica faça-o aqui. Caso pretenda comentar a obra use a secção correspondente. Qualquer pessoa pode escrever uma crítica para qualquer obra. Para isso leia o tópico 'Críticas das obras'.

domingo, 24 de junho de 2007

Crítica 'A Volta ao Mundo em 80 Dias (1873)'

Inúmeros clássicos da ficção se tornam clássicos não apenas pela originalidade frente a seu tempo, mas, sobretudo, pela ousadia de empreender uma trama baseada em hipóteses que futuramente podem soar ridículas. É o caso da obra-prima de Júlio Verne, escrita em 1873, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, uma das primeiras que inspirariam milhares de livros e filmes de entretenimento consumidos pela posteridade.

Mas qual o atrativo de tal aventura terrestre, se um avião pode circundar o globo em menos de 72 horas? A verdade é que, 200 anos depois do lançamento da ficção (que hoje caberia em um reality show), não deixa de ser incrível a saga de Phileas Fog, um inglês que apostou altas quantias em dinheiro para vencer o desafio de percorrer o mundo em dois meses e meio – um abuso para os cálculos da época.

Acompanhado de seu dócil criado, o francês Jean Passepartout, o apostador atravessa oceanos a navios a vapor, estradas a trem, selvas a pé e até em um elefante. Tudo cronometricamente planejado para que, em 80 dias, Phileas Fog esteja novamente em seu ponto de partida, Londres, ao encontro de seus desafiantes. Mas como toda boa aventura, o inglês encontra uma série de empecilhos que provocam o atraso da viagem. E como se a história tivesse bem menos que 200 anos, os ingredientes de qualquer filme de ação convencional podem ser encontrados na obra de Júlio Verne: a mocinha, na pele de uma jovem indiana, é salva pelo herói – o personagem principal – que a livra de ser morta, em plena viagem, por tribos religiosas nas selvas orientais.

Para encontrar a qualidade ímpar do livro, é preciso se despojar de qualquer esperança hiper-realista, e, naturalmente, considerar o contexto social em que foi escrita a ficção: é claro que Verne não dispensa pitadas de romantismo logo nos momentos quando tudo parece perdido. Em outras palavras, nada que a sorte extrema ou o dinheiro inesgotável não resolvam, seja uma ajuda inesperada e improvável que cai do céu, seja um suborno que convence qualquer personagem a adiantar a viagem do inglês – neste ponto, o ser humano prova que é universal. Quem não gosta de histórias que abusam da sorte, no entanto, pode se decepcionar.

Deixando de lado a aventura quase fantástica em volta do planeta, a graça do livro encontra-se exactamente na sua curiosa arquitectura, que não passa de uma alegre brincadeira matemática, do início ao fim. Levando-se em conta as limitações da época, a baixa velocidade dos trens e navios do século XIX tornam a aventura mais electrizante – tamanha lentidão que os tempos modernos destruiriam sem esforço: qualquer tentativa de vencer o espaço antes do tempo em nosso século é prontamente atendida pela velocidade do avião, esse estraga-prazer. Não podemos nos dar ao luxo de percorrer o globo em 80 dias e virarmos heróis. Mas o personagem de Júlio Verne pode. Aí reside o espírito de um clássico.

Crítica escrita por Taís Laporta, autor do blog Arte Facto, e cedida gentilmente para o blog JVernePt.

Se pretender comentar esta crítica faça-o aqui. Caso pretenda comentar a obra use a secção correspondente. Qualquer pessoa pode escrever uma crítica para qualquer obra. Para isso leia o tópico 'Críticas das obras'.

domingo, 10 de junho de 2007

Crítica 'A Invasão do Mar (1902)'


Parece-me que estou a ouvi-los: "Quê?! Júlio Verne?!"
Sim, Júlio Verne, e depois? É um dos grandes clássicos da FC, mesmo que aquilo que escreveu tenha sido na sua maior parte reciclado para literatura juvenil. Escreveu romances e contos da FC mais "hard" do seu tempo, ainda que, em retrospectiva, a fantasia pareça por vezes delirante. O cinismo sabichão do século XXI pode rir-se, por exemplo, da ideia de viajar até ao centro da Terra e lá encontrar um ecossistema mesozóico, mas no século XIX tudo isso estava bem dentro do reino do possível. Parece que o bom velho Verne fazia questão nisso. E aqueles que, mesmo que não o saibam, são seus seguidores, continuam a fazê-la.
Quanto a este livro, A Invasão do Mar, está longe do melhor Verne. Um grupo de engenheiros da França colonial embarca num projecto megalómano que pretende, através de canais que façam comunicação com o Mediterrâneo, criar um mar interior na cadeia de chotts (Djerid e Melrir) que atravessam a zona central da Tunísia e entram pela Argélia. O projecto é contrariado pelos tuaregues locais, que vêem o seu estilo de vida ameaçado. E eis o conflito gerado.
O livro desenvolve-se à boa maneira dos romances de aventuras, género em que Verne era exímio. São 200 páginas de peripécias e perigos de que os heróis têm de escapar, sejam naturais (o meio ambiente é bastante adverso), sejam artificiais (os inimigos são ardilosos e conhecem melhor a zona que os heróis). Tudo isto é coroado por um deus ex-machina que encerra a história e põe fim ao suspense num capítulo de 9 páginas intitulado "Desfecho" e onde, à boa maneira das telenovelas, tudo acontece ao mesmo tempo. Obviamente não vou falar mais dele - o livro perde interesse se se conhecer a sua chave de antemão. Mas tenho de dizer que é fundamentalmente devido a esse desfecho e a uma certa atmosfera que hoje lembra o steampunk, que o romance se pode enquadrar dentro da literatura fantástica.
Os deus ex-machina, quando aparecem, são sinal seguro de que algo não correu lá muito bem com a história. É o caso. Não só dá por vezes a ideia de que Verne perde o fio à meada, como os personagens estão muito longe da riqueza de um Nemo ou de um Phileas Fogg, e o respeito que o senhor francês costumava demonstrar pelas culturas indígenas, mesmo que temperado pelos preconceitos típicos da época, custa a ver-se neste livro.
A Invasão do Mar é dos livros mais desconhecidos de Jules Verne. Merecidamente.
Quanto à tradução, de Joaquim dos Anjos, é regular. Notam-se aqui e ali algumas falhas, mas nada de gritante, e o tradutor respeita bem a simplicidade da prosa do autor.
Em resumo: três estrelas.
Crítica escrita por Jorge Candeias, um dos melhores críticos nacionais, e cedida gentilmente para o blog JVernePt. É o autor do magnífico site E-nigma, Revista Electrónica de ficção-científica e fantástico, um site que eu recomendo bastante.
Se pretender comentar esta crítica faça-o aqui. Caso pretenda comentar a obra use a secção correspondente. Qualquer pessoa pode escrever uma crítica para qualquer obra. Para isso leia o tópico 'Críticas das obras'.

domingo, 26 de novembro de 2006

Crítica 'Da Terra à Lua (1865)'

Júlio Verne é, sem dúvida, um dos maiores nomes da literatura mundial do século XIX, sendo suas principais obras permanentemente relançadas em novas edições, em diversos idiomas e países. Segundo a crítica, o estilo de Júlio Verne conseguiu associar a literatura fantástica do Romantismo de segunda geração (Byron, Poe), mas com muito menos morbidez, com o cientificismo da literatura Real-Naturalista (em português, representada por Aluízio de Azevedo e Eça de Queirós). Dessa fusão entre dois estilos aparentemente antagônicos, Verne iniciou a literatura denominada "Ficção Científica", que explora a narração de temáticas fantásticas, criativas e, principalmente, não-convencionais do ponto de vista da sociedade, sob uma forte fundamentação das leis científicas conhecidas na sua época.

Todavia, se Júlio Verne produziu obras-primas como "Viagem ao Centro da Terra" e "A Volta ao Mundo em 80 Dias", certamente não se pode dizer o mesmo de "Da Terra à Lua". Aqui, a fundamentação científica da narrativa é demasiadamente predominante, rompendo o equilíbrio entre "Fantástico" e "Científico" que deu ao autor toda a sua fama mundial e o seu lugar de honra na história da literatura de ficção. A quase ausência de acção, assim como a extrema irrealidade do enredo (uma sociedade privada de ex-combatentes da Guerra Civil Americana resolve construir um mega-canhão para dar um tiro na Lua, por iniciativa unilateral e arrecadação de recursos próprios, e um intelectual meio louco francês pede para ir junto com o projéctil), acaba por tornar o livro um tanto monótono, o que o diferencia muito dos demais textos do autor.

Chamam a atenção no livro a analogia a teorias da época que hoje não seriam aceitas como "científicas", já que se voltam muito mais para a filosofia e a metafísica do que para a observação empírica da natureza e da realidade, e são essas teorias que dão um fundamento lógico para a empreitada dos personagens. Por exemplo, vemos, citado pelo próprio personagem principal Miguel Ardan, o princípio na inexistência de não-utilidade. Segundo essa curiosa teoria metafísica, nada no Universo é inútil, não há desperdícios naturais. Portanto, a vida não pode ser desperdiçada no Universo, o que faria com que todos os astros tenham condições ideais para a vida humana. Obviamente, sob a luz da ciência contemporânea, tais princípios são quase piadas, e praticamente toda a engenharia realizada pelos personagens seria fracassada.

Contudo, é inegável o mérito de Júlio Verne de ter imaginado a possibilidade de o homem chegar à Lua, e até ter proposto um meio para alcançar esse objectivo, a cerca de 100 anos antes de o homem ter conseguido de fato chegar lá.

Crítica escrita por Ricardo Agostini, autor do blog Essa Metamorfose, e cedida gentilmente para o blog JVernePt.

Se pretender comentar esta crítica faça-o aqui. Caso pretenda comentar a obra use a secção correspondente. Qualquer pessoa pode escrever uma crítica para qualquer obra. Para isso leia o tópico 'Críticas das obras'.