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segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Jules Verne e Portugal - O Livro

 

Capa de Verne e/y Portugal, Ediciones Paganel, 2024

A relação entre Jules Verne e Portugal encontra-se finalmente publicada em livro. Da minha autoria, e com a chancela das Ediciones Paganel da Sociedad Hispanica Jules Verne, 192 páginas de texto e fotografias que narram 152 anos (entre 1871 e 2023) de uma história com muitos mistérios, alguns equívocos e umas quantas picarescas "estórias".

Por exemplo, sabia que:  

- Na década de 1870, um conto de Verne foi incluído "secretamente" no final de um livro de um dos autores espanhóis mais populares da época e que ninguém deu por isso? 

- Nas duas visitas de Verne a Lisboa (1878 e 1884), o escritor francês recusou ficar alojado num hotel da capital portuguesa? 

- A Sociedade de Geografia de Lisboa resolveu comemorar o centenário do nascimento do escritor... cinco anos antes da data real da efeméride? 

Poderá encontrar a resposta a estas (e a outras) "perguntas existenciais" em Verne e/y Portugal

Aos interessados, o livro pode ser encomendado aqui.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Jules Verne em Folhetim 6 - Matias Sandorf in O Século, 24 de Dezembro de 1922

 


Jules Verne em Folhetim 5 - A Espantosa Aventura da Missão Barsac in Díario de Notícias, 7 de Setembro de 1919

 


Jules Verne em Folhetim 4 - Gil Braltar in O Commércio do Minho, 5 de Novembro de 1887

 


Jules Verne em Folhetim 3 - O Romance da Lua in O Commércio do Minho, 8 de Abril de 1886

 


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Jules Verne em Folhetim 2 - Cinco Semanas em Balão in Jornal de Coimbra, 27 de Março de 1873



Jules Verne em Folhetim 1 - Da Terra à Lua in Archivo Popular, Outubro de 1871. O primeiro "Habemus Verne" em Portugal

Como era prática corrente no mundo editorial dos anos 1870, a primeira vez que Jules Verne chegou às mãos dos leitores portugueses não foi em formato livro. Há 150 anos, por cá e lá fora, qualquer autor consagrado começava por ver as suas histórias publicadas nos jornais. 

Era o tempo dos romances folhetim em que aquele "continua" no final da coluna que o jornal dedicava à obra de um escritor aguçava amiúde a curiosidade dos leitores para a edição do dia ou da semana seguinte. E a publicação da obra durava semanas, meses ou, inclusive, mais de um ano. Que o diga Alexandre Dumas que, antes de Verne, fazia das histórias de aventuras em  romance folhetim o seu modus vivendi por excelência. 

A primeira vez que Verne foi publicado em folhetim em língua portuguesa ocorreu no Brasil, a 23 de Janeiro de 1867. No Jornal do Brazil, um dos mais conceituados jornais do Rio de Janeiro da época, aparecia As aventuras do capitão Hatteras




Em Portugal, de forma algo surpreendente, o escritor só surgiu quase cinco anos mais tarde. A primeira vez que Verne se deu a conhecer ao público português foi em Outubro de 1871. O Archivo Popular, jornal sediado no Porto que teve actividade entre 1871 e 1874, trouxe para as suas páginas Da Terra à Lua, que foi publicado durante o último trimestre desse ano. Em livro chegaria dois anos depois e em folhetim registam-se publicações que vão, pelo menos, até 1926. Entre outros, Verne foi publicado neste último formato pelo Século (1922-1923), Diário de Notícias (1919, 1926), Jornal de Notícias (1914-1915) e Commércio do Minho (1886, 1887).

Eis da Terra à Lua, no Archivo Popular, do já longínquo ano de 1871, a primeira vez que em Portugal se disse: "Habemus Verne". 





segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Verneando - Uma Volta ao Portugal Verniano em 180 minutos

Verneando: um programa televisivo criado em Fevereiro de 2023 por Ariel Pérez Rodriguez, o actual presidente da Sociedad Hispánica Jules Verne, que, entre outras actividades, tem publicado nas Ediciones Paganel (a editora oficial da Sociedad Hispánica) variadíssimos títulos inéditos do autor francês em língua castelhana. 

Verneando: no segundo domingo de cada mês, no canal oficial do programa no Youtube, um convidado fala sobre um tema relacionado com Verne. No mês de Dezembro coube-me a mim, e com enorme prazer, discorrer amplamente sobre a história e a relação de Verne com Portugal desde o seu início até à actualidade. A história das edições portuguesas em livro e folhetim, os personagens portugueses que Verne criou, os locais portugueses presentes nas suas obras e, imagine-se, a comemoração do centenário do nascimento do autor... cinco anos antes de realmente ter acontecido.  

Para quem tenha (ou mesmo que não tenha) alguns conhecimentos de espanhol e estiver interessado em assistir, aqui fica disponibilizado o vídeo . Recomenda-se alguma paciência e disponibilidade porque o programa durou três horas exactas. Trata-se, portanto, de Uma Volta ao Portugal Verniano em 180 minutos




quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Jules Verne no Mercado do Livro Antigo - As Edições Portuguesas Mais Raras

No mundo dos alfarrabistas/leiloeiros, com loja física ou online e de vendedores particulares presentes em sites como o OLX ou o Custo Justo, Jules Verne já não é dos autores que mais se venda. A oferta é muita e a procura é o inverso. 

Nos sites que costumo consultar, os anúncios de obras de Verne reciclam-se periodicamente sem que os livros à venda encontrem novo dono. E por ali permanecem meses (ou anos, no caso  de alguns) a fio até que ganhem poeira virtual. Há diversas razões para isso, mas a mais flagrante é a de que Verne é um autor que passou de moda.

A primeira edição publicada no Porto (1873/74), Vinte mil léguas submarinas, é bastante difícil de encontrar, no entanto surgiu em leilão online nos últimos anos. 

As edições de luxo saídas no século dezanove e que continham todas as gravuras originais, apesar de alguns títulos serem mais raros, ainda se encontram com relativa facilidade. O preço depende, claro está, do estado de conservação em que se encontram. Quanto mais bem estimadas, mais caras. O difícil é encontrar a colecção completa publicada entre 1874 e 1901. 

A Grande Edição Popular, com apenas duas ilustrações por livro, ainda está bem representada, principalmente em alfarrabistas online. Livros individuais encontram-se por aí a preços bastante convidativos (até 10 euros em muitos anúncios que encontrei). A colecção completa pode atingir valores exorbitantes tendo em conta o espaço que Verne representa hoje no mercado português do livro antigo. 

O mesmo  acontece com as reedições das décadas de 1920, 1930 e 1940. Os livros de capa vermelha e preta abundam no mercado do livro em segunda mão presencial e virtual e encontram-se com bastante facilidade a preços bem acessíveis (a partir de 3 euros). Em relação à colecção completa, aplica-se o mesmo que disse acima. 

Ainda assim, a edição portuguesa de Verne contém algumas raridades que, essas sim, são extraordinariamente difíceis de encontrar. E não, não se trata de primeiras edições. O critério de raridade que defini tem a ver com o facto de nunca as ter conseguido encontrar em lugar nenhum, seja presencialmente ou online em Portugal ou no estrangeiro. 

As três edições portuguesas extremamente raras, com as quais não tive ainda o prazer de me cruzar, são as seguintes:

- Os filhos do Capitão Grant, 2 ª edição, 1881

- Aventuras de três russos e três ingleses, 2ª edição, 1883

- A volta ao mundo em 80 dias, 9ª edição, década de 1930 ou 1940 

A quem seja seguidor deste blogue e possua as edições acima mencionadas, peço por favor que deixe uma mensagem na caixa de comentários.

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Once upon a Time in Lisbon - Jules Verne e Portugal em versão inglesa na revista Verniana

Há cerca de ano e meio atrás, se alguém me dissesse que eu iria realizar um trabalho de investigação sobre a presença de Jules Verne em Portugal e a história da sua edição portuguesa, jamais poderia acreditar. Por diversas razões: porque era um tipo de trabalho que estava completamente fora da minha área e, sobretudo, dos meus interesses de investigação, porque não sou especialista em Jules Verne e, muito menos, em história do livro e da edição em Portugal e porque tinha (e tenho) outro projecto vocacionado para outros horizontes. 

Razões e desrazões à parte, em Abril de 2022, por sugestão de um amigo Verniano e sem esperar publicar fosse o que fosse sobre o tema, comecei a pesquisar por curiosidade a edição portuguesa de Verne, da qual resultou um artigo publicado em inglês, em Julho, na revista Verniana, a principal publicação internacional de referência no que a Jules Verne diz respeito. Nascia assim a primeira versão de "Once upon a Time in Lisbon: The Extradordinary Editorial Voyages of Lusitânia Verne". 


Alguns meses mais tarde, outras (importantes) novidades surgiram e foi necessário acrescentar uma espécie de errata ao artigo original que foi publicada esta semana na mesma revista. Mas esta história não acabou aqui...


Alguns meses mais tarde depois dos primeiros meses mais tarde, fui convidado para escrever um livro sobre Jules Verne e Portugal, o que me permitiu (dizendo melhor, obrigou e ainda bem que assim foi) a fazer novas investigações que, agora sim, deram por encerrado o tema.  O livro está terminado e será publicado, assim espero, ainda durante este ano. 

Para quem tiver interesse em ler em inglês o resultado (provisório) do meu trabalho, acima ficam os links da revista Verniana. A história completa de Jules Verne e Portugal estará disponível brevemente em língua portuguesa. 

quinta-feira, 29 de junho de 2023

1905 - O Magazine Bertrand, o Escritor Fantasma e um texto português que Jules Verne nunca escreveu

Na primeira década de 1900, o nome de Jules Verne continuava a ser um notável fenómeno de popularidade, consolidada por uma longa carreira literária já com mais de quarenta anos. O papel de criador do romance de antecipação científica que a fortuna lhe consagrou tornava-o um dos nomes incontornáveis num início de século perdidamente apaixonado pelo progresso tecnológico, em que, pensava-se então, o futuro seria sempre radioso e brilhante graças à confiança ilimitada nos auspícios prodigiosos da ciência. 1914 colocou um fim definitivo a essa confiança e foi o fim de uma época a que, retrospectivamente, se deu o nome de Belle Époque. 

No Portugal de 1900, Verne era, também, um autor extremamente popular, malgrado alguma intermitência na publicação das suas obras por estes anos (algumas delas continuam ainda hoje inéditas entre nós e outras surgiram muitas décadas mais tarde). Contudo, se não se publicava tudo o que Verne escrevia, pelo menos publicava-se o que ele... nunca escreveu. 

Em Portugal, pelo menos uma vez, Verne (seguramente sem o saber) teve um escritor fantasma que deu à estampa um texto publicado em seu nome e que inaugurou o primeiro número do Magazine Bertrand, propriedade da casa editorial responsável pela divulgação da sua obra a partir de 1913, a Livraria Bertrand. 


1905, capa do número 1 do Magazine Bertrand


1905, página de rosto do número 1 do Magazine Bertrand

Corria o ano de 1905 e a Livraria Bertrand associava ao seu Almanaque (publicado desde 1900) o Magazine na lista das suas publicações periódicas. Ao contrário do primeiro, que só terminou em 1971 e foi retomado já este século, o Magazine Bertrand não conheceu a mesma regularidade temporal. Teve uma edição quinzenal entre 1905 e 1910 (não sendo publicado em 1908 e 1909) e voltou mensalmente às bancas entre 1926 e 1933. Em Dezembro deste ano, no último número vindo a lume, a Bertrand anunciava o fim temporário (mas que seria definitivo) do Magazine porque o tipo de papel utilizado, o papel couché, não era fabricado em Portugal e a sua importação era demasiado cara, tornando inviável a continuação deste projecto editorial.


Magazine Bertrand, Dezembro de 1933


O texto que Verne nunca escreveu intitula-se "O que será o mundo no século em que estamos" e surgiu, como disse acima, no primeiro número do Magazine Bertrand, em 1905. Nas palavras de quem o escreveu (o verdadeiro autor permanece no mais secreto mistério, mas poderá tratar-se de José Bastos ou de Fernandes Costa; o primeiro era um dos proprietários da Bertrand na época e o segundo foi o tradutor de Mathias Sandorf e editor-chefe do Almanaque Bertrand), trata-se da tradução de um artigo que Verne teria escrito, em 1904, para o jornal americano New York World

O jornal efectivamente existiu e as suas edições estão disponíveis online, porém nunca consegui encontrar a (suposta) versão original do texto. Segundo dois especialistas na obra Jules Verne que consultei, Verne nunca escreveu nenhum artigo com o título acima mencionado, pelo que o texto é, de facto, apócrifo. De qualquer forma, vale a pena lê-lo como se se tratasse de um verdadeiro texto de Verne porque, sem o conhecimento que possuímos hoje sobre o escritor, o artigo poderia passar perfeitamente como tendo saído da sua pena. Muitos parabéns ao habilidoso escritor fantasma português do início do século vinte pelo verdadeiro golpe de marketing que talvez tenha ajudado a vender mais o primeiro número do Magazine Bertrand


 1905, Magazine Bertrand, número 1


 1905, Magazine Bertrand, número 1


 1905, Magazine Bertrand, número 1

domingo, 7 de maio de 2023

A.J. Ferreira - Como Jules Verne Conquistou Portugal 5 (Nº13, 46 - Novembro de 1994)







 

A.J. Ferreira - Como Jules Verne Conquistou Portugal 4 (Nº13, 45 - Outubro de 1994)





 

A.J. Ferreira - Como Jules Verne Conquistou Portugal 3 (Nº13, 44 - Setembro de 1994)





 

A.J. Ferreira - Como Jules Verne Conquistou Portugal 2 (Nº13, 43 - Agosto de 1994)





A.J. Ferreira - Como Jules Verne Conquistou Portugal 1 (Nº13, 42 - Julho de 1994)

A 6 de Maio de 2022, António Joaquim Ferreira deixou-nos, aos 97 anos. Quem foi A.J. Ferreira? Era esta pergunta que, na mesma data, fazia para mim mesmo, à medida que ia desfiando o novelo da história das traduções portuguesas de Jules Verne para um artigo que estava a escrever sobre o tema. Só depois de terminar a primeira versão do texto (os últimos meses viriam a confirmar que havia mais elementos à espera de serem desencantados) vim a descobrir alguns dos seus dados biográficos. Embora o nome de Ferreira seja praticamente desconhecido, pertence-lhe o primeiro trabalho detalhado sobre a edição de Jules Verne em Portugal. Quem foi, pois, A. J. Ferreira? Reproduzo o breve texto que o seu editor, José Manuel Vilela, escreveu nas badanas de um dos livro que o autor publicou na chancela Bonecos Rebeldes:

«António Joaquim Ferreira nasceu a 25 de Outubro de 1924, no edifício Serpa Pimentel, em Gouveia. Vem para Lisboa, aos 8 dias de idade, onde vive actualmente. Estudou no Liceu Gil Vicente, à Graça. Profissionalmente exerceu funções, desde 1946, na Direcção-Geral da Aeronáutica Civil, que lhe proporcionou estadias, mais ou menos, prolongadas, em cerca de duas dezenas de cidades em todo mundo. Termina a carreira, em 1984, como funcionário das Nações Unidas. Investigador nas áreas da literatura infanto-juvenil e do cinema tem vasta e importante obra publicada: o JIPI (Jornal Infantil Português Ilustrado), obra de referência, que lista todos os jornais infantis publicados em Portugal desde 1874 até 1975; o Dicionário Emílio Salgari, referenciando todas as edições portuguesas deste autor italiano tão popular em Portugal; o Nº13, mensário, que terminou no nº78, com matérias de investigação na área da literatura popular; e ainda o Era uma Vez, que publicou histórias em quadradinhos "vintage", que atingiu o nº50. Em 1986, com chancela da Cinemateca Portuguesa, é publicado A Fotografia Animada em Portugal, ficando desde logo no IPC [à data o entretanto extinto Instituto Português do Cinema] conhecido, como "as erratas aos livros de Félix Ribeiro". De 1986 a 1989, em seis tomos, publica Animatógrafos de Lisboa e do Porto, que acrescenta mais de cem salas de exibição, só em Lisboa, às então conhecidas. É membro da Sociedade Sherlock-Holmesiana Portuguesa ». 

Outro trabalho de Ferreira é O Cinema Chegou a Portugal, publicado pela primeira em vez, em 1986, em versão policopiada e reeditado, em 2009, pela Bonecos Rebeldes. 



Contudo, foi através de "Como Jules Verne conquistou Portugal", publicado no Nº13, entre Julho e Novembro de 1994, que cheguei a A.J. Ferreira. Este texto já tinha sido publicado neste blogue em versão condensada pelo Frederico Jácome em 2008. Encontrei a versão integral (ainda em forma dactilografada) nas obras que o próprio autor legou à Biblioteca Nacional de Portugal, local que, segundo o seu editor, Ferreira frequentou diariamente (ou quase) durante quinze anos. Tirando um ou outro erro marginal (não por incompetência, mas porque o autor não teve acesso a algumas traduções de Verne que eu consegui encontrar), os factos estão quase todos absolutamente correctos. E mais digno de louvor é constar que Ferreira realizou a sua investigação numa era em que a internet, e os seus inumeráveis recursos de pesquisa, ainda não se tinham materializado na vida quotidiana (segundo percebi o autor realizou a sua investigação em 1991/1992). 
      
Em jeito de homenagem ao primoroso trabalho que Ferreira realizou, o JVernePt disponibiliza a versão completa do texto original para quem tiver curiosidade de o ler.   







sábado, 6 de maio de 2023

Jules Verne e Eu ou a História de um Declínio - por João Bénard da Costa


João Bénard da Costa (1935-2009) desempenhou várias actividades ao longo da sua vida, mas, entre nós, ficou conhecido, sobretudo, pela sua paixão pelo cinema. Como crítico e ensaísta da sétima arte (vale a pena ler, entre outras, a monografia que dedicou ao realizador americano Nicholas Ray), como actor (sob o pseudónimo de Duarte de Almeida participou em vários filmes de Manoel de Oliveira) e como director da Cinemateca (entre 1991 e 2009).

Bénard da Costa, tal como muita gente da sua geração, conviveu intensamente com os livros de Jules Verne durante a sua adolescência, à semelhança das gerações anteriores à sua. Durante a primeira metade do século vinte, Verne foi um autor quase incontornável na construção de "autoestradas" onde se declinava prodigiosamente o verbo sonhar e em que a imaginação deslocava-se livremente sem limites de velocidade.

Reproduz-se a seguir o testemunho de Bénard da Costa sobre a sua relação com Jules Verne, extraído de um artigo que escreveu para o jornal Público, a 1 de Abril de 2005. De acordo com ele, as gerações posteriores à sua, sobretudo a partir de 1960, começaram a deixar de adoptar Verne como o seu companheiro preferido de viagens imaginárias e a procurar "autoestradas" para o sonho noutras paragens.

Há uma frase do artigo de Bénard da Costa que se deve reter: «Verne durou de 1860 a 1960, pelo menos como "leitura global”». Existe algum fundo de verdade nesta afirmação. O arco temporal de 1960 em diante confirma, de facto, um declínio no interesse que Verne suscitava. Por diversos motivos: a nível internacional, em pleno auge da Guerra Fria, vivia-se a era nuclear e as "antecipações" Vernianas (ou muitas delas) já tinham sido concretizadas, mas também porque a definitiva implantação da televisão como meio preferido de entretenimento popular começou a subtrair potenciais leitores para a sua esfera de influência e a propiciar outras formas (mais fáceis e mais ligeiras) de formar a faculdade da imaginação.

O caso português, em parte, também acompanhou esta tendência. Comprova-se isso em números: as edições Vernianas lançadas pela Bertrand na segunda metade da década de 1950 tinham, quase todas sem excepção, tiragens de 10000 exemplares.


Contudo, em meados dos anos sessenta, a editora viu-se confrontada com um declínio acentuado de vendas. Por desinteresse crescente por ou saturação do público leitor, a marca Verne já não era tão apelativa comercialmente e as suas obras não escoavam tão facilmente como em décadas anteriores. 

Em finais de 1966, a Bertrand reformulou por completo a estratégia editorial e lançou a "Júlio Verne - Nova Colecção Ilustrada": capas originais para cada uma das obras e cada título continha entre oito a dez ilustrações em vez das duas que acompanhavam os famosos livros de capa vermelha e preta da Grande Edição Popular que eram dados ao prelo da mesma forma desde a década de 1920 (na verdade vinham desde 1886, mas até então com capas de cores diferentes consoante a obra; o vermelho e preto nas capas ganharam foros de exclusividade entre 1926 e 1955).


As tiragens foram reduzidas a metade: 5000 exemplares por cada obra. Contudo, o número de reimpressões que grande parte das obras teve durante a década de 1970 e início da de 1980 (a Bertrand daria por terminada esta colecção em 1982) sugere que Jules Verne tinha ainda uma legião de leitores portugueses bastante assinalável (não existe informação sobre as tiragens das Publicações Europa-América ou dos Amigos do Livro da década de 1980 mas não devem ter superado estes números; só a edição de A volta ao mundo em 80 dias dos Editores Associados, em 1973, atingiu números verdadeiramente extraordinários: 30000 exemplares).

Para se ter uma noção dos números médios de edição no mercado nacional actual: um livro com uma tiragem inicial de 1000 exemplares, a não ser que seja já um nome bem implantado no mercado ou um tema/figura que dê garantias de sucesso comercial imediato, é um empreendimento bastante arriscado. À luz disto, nos dias de hoje, uma tiragem inicial de 5000 exemplares é uma raridade só partilhada por alguns "eleitos".

Considerações à parte, aqui fica o texto João Bénard da Costa (que pode ser lido na íntegra em https://e-cultura.blogs.sapo.pt/59799.html.).

«Tanta conversa para quê? Para observar que, além do autor de Les Misérables (e, neste caso, era preferível escrever Os Miseráveis) Júlio Verne é o único escritor do século XIX a que raríssimos portugueses chamam Jules Verne. A imensa popularidade tem que ver com isso, no caso de Hugo como no caso de Verne? É bem possível. Eles foram dos pouquíssimos que foram quase integralmente traduzidos no seu tempo e lidos por portugueses que não sabiam palavra de francês, coisa que no século XIX, e até cerca de 1960, era sinal de incultura grassa. A "sociologia cultural", embora não explique Miguel Ângelo ou Rafael, pode explicar o Júlio Verne, que se pegou aos espíritos cultivados por contágio dos baixíssimos ou dos pré-adolescentes que em tempos idos o liam.

Júlio Verne, assim o conheci eu também, entre os meus 8 e os meus 12 anos, mais coisa menos coisa. Em casa dos meus avós, como em casa dos meus pais, havia prateleiras de estantes cheias, com as edições que começaram por ser de David Corazzi, subnominadas "imprensa horas românticas", e passaram depois para a Bertrand (Aillaud e Bertrand), mantendo-se idênticos o formato, a encadernação, o encarnado (às vezes o verde) e as gravuras da capa: uma bananeira com uma serpente enroscada no caule; um leão; um navio naufragado com um vago vulcão ao fundo; e um balão pelos ares. Para além do título da obra, lia-se em maiúsculas itálicas, a quase toda a altura, a expressão Viagens Maravilhosas.

Por uma dessas edições (de 1888 - mas já era a terceira) conto eu trinta e dois volumes já editados nesse ano em português, sendo que vários deles eram duplos ou triplos (A Aventura do Capitão Hatteras, Os Filhos do Capitão Grant, Vinte Mil Léguas Submarinas, A Ilha Mysteriosa, Miguel Strogoff, O Paiz dos Pelles, Heitor Servadac, Um Heroe de Quinze Annos, A Casa a Vapor, Keraban o Cabeçudo, Mathias Sandorf, Norte Contra Sul) e um (As Grandes Viagens e os Grandes Viajantes) era quíntuplo, o que, bem feitas as contas, perfaz quarenta e oito livros, que haviam de chegar aos setenta e dois, à data da morte do escritor.

A grafia usada era o esplêndido português anterior ao malfadado acordo de 1911, em que se escrevia A Esphinge dos Gelos e Luctas de Marinheiro, tanto na Rua Garrett em Lisboa como na Rua do Ouvidor no Rio de Janeiro. Esses livros, esse encarnado, essa ortographia, essas figuras da capa, mergulhavam-me em tal êxtase, que me consolava bem de não me deixarem tocar nas luxuosas edições da Hetzel, com gravuras de Neuville, Férat, Laplante ou Doré, que havia em casa do meu Avô Bénard, no original. Numa delas, escreveu o meu Avô a lápis: "Donné par mon père le 27 Juin 1880". 

Era o dia dos anos dele, 11 no caso em questão, que é o de Vingt Mille Lieues Sous Les Mers, que tivera primeira edição em 1870. Só 71 anos depois, a 1 de Maio de 1951, passaram tais livros à minha posse, oferecidos pela minha Avó. O meu Avô leu Verne em 1880, como o meu Pai o leu em 1907 e eu o li em 1945. Três gerações educadas a Verne, mas já não juro pela quarta, pois que, apesar dos meus esforços, em 1970 ou durante essa década, os meus filhos já não devem ter terminado nenhum dos romances dele. Verne durou de 1860 a 1960, pelo menos como "leitura global”. Raros serão hoje os maiores de 50 anos que entraram na adolescência guiados pelos filhos do Capitão Grant ou reencontraram o Capitão Nemo na ilha misteriosa. "Chamaste-me Capitão Nemo?" A mim chamou-me (e de que maneira!) naquele escritório da Rua do Jardim do Tabaco, que ficava logo à direita da porta da entrada e onde uma escura livreira de mogno guardava as viagens maravilhosas que me levaram aos pólos e ao equador, à lua e ao fundo dos mares, à estrela do sul e ao centro da terra.

Mas a minha introdução a Verne não foi escrita, foi oral. Tinha eu 9 anos e andava no Lar Educativo João de Deus. Uma das netas do poeta, que era minha professora - Maria da Luz de Deus Ramos que, depois de casada, já fora desse tempo, se chamou Maria da Luz Ponces de Carvalho, a Luzinha como então todos lhe chamávamos - ocupava parte da aula da tarde a ler-nos Verne. O primeiro livro que assim nos leu foi As Índias Negras, que se situava nas hulheiras de Aberfoyle, na Escócia de outras eras.



"Pede-se ao engenheiro Jaime Starr o obséquio de se dirigir amanhã às hulheiras de Aberfoyle (...) onde lhe será feita uma comunicação da mais alta importância." Assim começava esse livro. A hulha havia-se esgotado nas minas que foram abandonadas, mas estranhos mistérios ocorriam nas profundezas dela. Após muitas peripécias - e para muito resumir - descobria-se que o antigo capitão da mina ("Overman", chamou-lhe o tradutor), um velho de nome Silfax, que todos julgavam morto, se refugiava nas galerias dela, acompanhado por uma neta e por uma estranha ave, um harfang, tão mais insólito quanto nunca consegui perceber de que espécie de pássaro se tratava. O velho ensandecido procurava uma vingança contra quem lhe roubara o último filão das velhas hulheiras e também o amor da neta. O plano dele era libertar grisú, um gás explosivo, e fazer ir a mina abaixo, com todos os que o haviam roubado. Terrível era a aparição final do velho, no meio de um lago subterrâneo, "de olhar sinistro, barbas alvíssimas, caindo sobre o peito, roupas talares e a cabeça coberta por um capuz". Tinha na mão uma lâmpada de Davy e com ela queria fazer explodir o gás, o grisú. "Oh, grisú, oh grisú... Soou a hora da minha vingança!" No último minuto, dava-se a salvação e a morte de Silfax. Mas, até chegar aí, foram tardes e tardes em que eu nada mais esperava do que saber que mistério escondia a mina e quem era o fantasma que a habitava. O suspense foi demasiado. Precipitei-me para o livro e, nesse mesmo dia, começou a minha compulsiva paixão por Verne, que durou três anos e trinta livros. Começaram também os meus pesadelos com Verne, revendo o velho e o harfang de "penas brancas mosqueadas de pintas negras". Os pesadelos ainda os consegui transmitir. Em carnavais da Serra da Estrela, em casa da Zézinha e do António Alçada, quando a neve caía lá fora, antes de deitar os meus filhos mais velhos (7 e 6 anos à época) eu contei-lhes resumidamente esse extraordinário romance, detendo-me, como a Luzinha fizera comigo, na descrição das tenebrosas galerias da mina, no pássaro sinistro e na aparição do velho com o seu grito de vingança. Imitava o gesto de "horrível imprecação" que Silfax soltou ao ver frustrados os seus intentos. Grito que foi o último que proferiu, pois se precipitou nas águas do lago que não quiseram restituir à sua presa.

As crianças ouviam-me aterradas e, ainda hoje, a minha filha Ana estremece a evocar os pesadelos infantis, provocados pelo grisú, pelo harfang e pelo velho Silfax com a sua barquinha e o seu "riso cavernoso", enquanto se espalhava o cheiro do "hidrogénio protocarbonado". Imaginem que eu lhe tinha contado a história dos canibais da Galera Chancellor! Não conhecem? Esperem até à próxima sexta-feira. Já não têm 7 anos.»

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Jules Verne - História da Edição Portuguesa (1873-2021) 11 - Algumas Confirmações e Novas Descobertas

Toda e qualquer história tem o seu modo peculiar de indicar que ainda não está totalmente esgotada. Vai revelando lentamente novos indícios que permitem clarificar certos pontos que careciam de confirmação e para os quais parecia não haver uma solução à vista. 

É o caso da história da edição portuguesa de Jules Verne. Esta nunca se deu por inteiro, de uma só vez. Quase como se tivesse vontade própria, foi-se desvelando de acordo com a sua íntima vontade, ao seu próprio ritmo, conduzindo, várias vezes, a caminhos absolutamente surpreendentes. Obrigou a diversas revisões do texto, uma dose substancial de imaginação em termos de pesquisa e, também, alguma sorte em encontrar as fotografias que comprovassem o que já se sabia e o que não se sabia ainda. 

Foi a primeira vez que fiz um trabalho de investigação na área da história do livro em Portugal, pelo que desconheço se existe algum caso paralelo ao de Jules Verne na história da edição portuguesa no que diz respeito ao seguinte, e absolutamente fundamental, aspecto: para se poder conhecer na totalidade os (muitos) meandros da história da edição de Verne em Portugal, é indispensável recorrer à consulta de (muitas) imagens.

Eis então os novos dados que esta história propiciou já neste início de 2023:

1) Confirmações

A prova das edições Aillaud e Bertrand em 1926 e 1927

Anúncio da revista Ilustração de 16 de Outubro de 1926


Anúncio da revista Ilustração de 1 de Outubro de 1927

Nas páginas da revista Ilustração (propriedade da Bertrand), publicada quinzenalmente entre 1926 e 1939 e irregularmente entre 1961 e 1975, não consta qualquer outro anúncio de reedição de obras de Verne. 

2) Novas descobertas

Já se sabia que, de 1956 em diante, a Livraria Bertrand reeditou os oitenta e dois volumes das Viagens Extraordinárias de acordo com a ortografia estabelecida em 1945.

Anúncio da reedição de acordo com a nova ortografia 
na 12ª edição de A Volta ao Mundo em 80 Dias (1957)

Antes disso, a editora tinha publicado isoladamente alguns títulos saídos com a ortografia anterior. A grande questão que se colocava era saber a) quais as obras publicadas e b) em que data(s) teria ocorrido essa edição. 

A alínea a) permanece ainda, em parte, sem resposta. Contudo, a datação destas edições isoladas só pode ser feita de forma aproximada e recorrendo, uma vez mais, à história comercial da casa editorial e dos seus consórcios luso-brasileiros. Entre 1948 e 1951 (de acordo com as capas do Almanque Bertrand, publicação anual da editora que se mantém até aos dias de hoje), a Bertrand iniciou uma nova parceria brasileira, desta vez com a Editora Paulo de Azevedo Ltda. Esta era propriedade de Paulo de Azevedo, director da Livraria Francisco Alves entre 1919 e 1946, ano da sua morte.

Capa do Almanque Bertrand de 1948


Capa do Almanque Bertrand de 1951

No ano seguinte, 1947, a designação comercial da sua antiga casa editorial, Paulo de Azevedo e Cia. transformou-se na Editora Paulo de Azevedo Ltda*. Dado que as capas do Almanaque Bertrand de 1952 em diante deixaram de apresentar na capa o nome de Paulo de Azevedo, é possível concluir que a data das reedições Vernianas com o alinhamento editorial da foto abaixo ocorreu entre 1948 e, no máximo, 1951.

Alinhamento editorial das edições Bertrand 1948-1951

Dito isto, a não ser que surjam novos dados, o último grande enigma da história da edição Verniana que ainda persistia sem resposta ficou agora resolvido.  


* Aníbal Bragança, "Revisões e provas: notas para a história editorial de Os sertões de Euclydes da Cunha: as edições Francisco Alves", Revista de História das Ideias, Vol.20, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1999, p. 345.