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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Júlio Verne em Crotoy (1869-1871) - 4ª Parte

Continuação do artigo 'J. Verne - Um precursor da ficção científica' cuja 3ª parte foi aqui colocada no dia 14 de Julho.

Júlio Verne em Crotoy (1869-1871)

Depois de mudar-se dos grandes bulevares e dos teatros para o bairro de Auteuil, em 1863, Júlio Verne deixou definitivamente Paris em meados de março de 1869. Com a idade de 41 anos, instalou-se na região de Amiens onde sua esposa Honorine voltou a conviver com os parentes. No curso dos anos que precederam essa mudança, toda a família passou as férias no pequeno porto de pesca de Crotoy, na margem norte da baía de Somme. Jules Verne alugou neste ano, na Rua Lefèvre, próximo ao porto, uma casa de um andar - La Solitude - com uma pequena dependência na qual fez o seu escritório.

Em Crotoy, Júlio Verne redescobriu a sua paixão pelo mar, não pelo mar distante que fascinou a sua infância, mas aquele que entraria na sua vida e em seus escritos. Picardia, ao mesmo tempo em que sua carreira literária se estabelecia em modo definitivo iniciam-se as suas grandes aventuras marítimas. Adquiriu o seu primeiro iate de 8 a 10 toneladas que batizou com o prenome do seu filho, Saint-Michel.

O mar se tornou a sua verdadeira fonte inspiradora no que permanecerá durante cerca de 20 anos. Em seu iate, Jules Verne tomou notas, pensou no infinito das grandes aventuras humanas. Reconstituiu a sua energia, sonhou com a liberdade, e redigiu o que permanecerá como um dos seus maiores romances, Vingt mille lieues sous les mers (Vinte mil léguas submarinas, 1869-1870). Este romance foi concebido desde 1866 por ocasião de umas férias de verão na casa dos seus pais em Chantenay. Ele começou a sua redação no início de 1868 e terminou em junho de 1869. Ele escreveu no seu iate, deixando o texto de lado para escrever Autour de la Lune (Ao redor da Lua), retomando as vinte mil léguas mais tarde. Foram necessários cinco anos para concluir o seu romance e criar um dos mais notáveis personagens verniano: o capitão Nemo.

Nemo é um herói feito de paradoxo, onde coabita um egoísmo cego com a rejeição total do interesse pessoal. Como Hatteras, sua obra constitui um sonho apaixonado, preocupado em conquistar um conhecimento útil ao bem coletivo. Na realidade, é a imagem do autor: Nemo é introvertido e um grande pensador. Homem de ação, Nemo constitui por seu imenso ideal pouco comum um aventureiro diferente de todos. Esses dois heróis de Jules Verne se parecem por sua audácia, temeridade, convicção racional e obstinada.

Enquanto o capitão conduziu a sua energia super-humana para a loucura, o capitão Nemo permaneceu prudentemente como se houvesse conservado a lição do predecessor. Procurou livremente o universo que lhe é permitido descobrir - um território infinito que ele insere nos seus conhecimentos - para uma epopeia inédita, estimulada por uma razão direcionada para o combate entre o bem e o mal. É, na realidade, um terrorista pacifista.

Esse personagem é uma síntese do homem do seu tempo, cujas novas formas morais estavam em construção. É um homem que aspira a uma sociedade de cidadãos responsáveis pela razão, mas cuja razão é ainda precária e frágil. A correspondência entre Verne e o seu editor Hetzel, a propósito de Nemo, permite detetar um desacordo entre esses dois que ultrapassa o problema dramatúrgico. Na realidade, as ideias de Verne e Hetzel convergem em matéria moral. Os dois estão igualmente convencidos que a humanidade deve caminhar para uma sociedade mais lúcida e mais justa.

Mas, nesses pontos comuns, a aplicação dos conceitos morais tende a seguir uma divergência. A ciência sobre a visão de Hetzel é a moral positivista de Augusto Comte, que sucede a moral teológica e metafísica. Jules Verne aceita essa evolução; no entanto, não quer opor esses dois conceitos radicalmente. Essa distinção permite melhor compreender as discussões que separam esses dois homens. Na verdade, Verne ultrapassa o pensamento moralista do seu editor. Nemo é o maior personagem concebido por Jules Verne. Segundo o escritor francês Jean-Paul Dekiss, Nemo constituiu o retorno de Prometeu que o escritor antecipou de 20 anos ao de Nietzsche em Assim falou Zaratustra.

Seu gosto pelo jogo etimológico das palavras, estimulou Verne a dar a Nemo um duplo sentido. Literalmente o vocábulo latino Nemo significa ninguém, que não vem de nenhuma parte, sem objetivo pessoal, fora da sociedade civilizada que ele rejeitava, e aparentemente não possuiu nenhuma identidade particular. Na realidade, Nemo se funde na água e se dissolve na totalidade do mar do globo. Nemo é portanto um personagem humano, irredutível no seu desejo de independência. Aliás, na sua fortaleza submarina, tudo possuía a marca desta independência: o capitão Nemo tinha como lema do Nautilus a expressão latina Mobilis in Mobili, ou seja, móvel num elemento móvel. Nemo era totalmente livre, era e é ainda a personificação do ser humano, mestre de si e do seu destino. Essa exposição mais longa sobre o personagem Nemo se justifica pela associação que se pode fazer entre o escritor e seu personagem, a quem Jules Verne dedicou dois volumosos romances. Depois das Vinte mil léguas, Nemo retorna na L'Île mystérieuse (A Ilha misteriosa, 1874-75).

BREVE CRONOLOGIA EM CROTOY (1869-1871)

1869-70: Publicou no Magasin: Vingt mille lieues sous les mers (Vinte mil léguas submarinas). No periódico Le Débats, Autour de la Lune. Deixou Paris por Le Crotoy. Michel é enviado a uma pensão em Abbeville.

1870 : No periódico Débats: Une ville Flottante. Com Hetzel: Découverte de la Terre. Durante a guerra, Jules Verne colaborou como guarda-costa em Crotoy: Honorine, Michel, Valentine e Suzanne partiram para residir em Amiens. Foi nomeado cavaleiro da Légion d'Honneur.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Júlio Verne em Paris (1847-1870) - 3ª Parte

Continuação do artigo 'J. Verne - Um precursor da ficção científica' cuja 2ª parte foi aqui colocada no dia 11 de Julho.

Júlio Verne em Paris (1847-1870)

Um poeta aos quinze anos

No início dos anos de 1850, Júlio Verne se instalou em Paris para terminar seus estudos de Direito. Não sabia ainda que seria escritor mas sabia que não seria jurista. O estudo de advocacia sugeriu ao seu pai que Júlio assumiria a sua sucessão em Nantes. Esperando que as suas poesias lhe dessem glória e fortuna, Júlio aproveitou o máximo da vida parisiense, na medida que a modesta pensão paterna lhe permitia. Suas cartas aos pais registram a sua vida diária assim como as suas dificuldades. Para fazer face às dificuldades de um jovem que objetivava a carreira literária – frequentar os salões e adquirir uma coleção de livros – Júlio começou a publicar os seus primeiros textos no periódico Musée des familles, dirigido por Pierre-Chevalier.

Júlio Verne foi sempre considerado um autor dramático; desde os 17 anos, escreveu dramas românticos inspirados em Victor Hugo, mas foi com vaudeville e operetas que ele obteve os primeiros sucessos. Em 1850, graças a Alexandre Dumas, sua primeira peça Les Pailles Rompues (Contratos Rompidos), foi apresentada em Paris no teatro Lyrique, no Châtelet, do qual se tornou mais tarde secretário. Essa mesma peça foi reprisada em Nantes no teatro Graslin, e Colin-mallard do qual fiel amigo Artistide Hignard escreveu a música. Estes pequenos sucessos se transformaram em verdadeiros triunfos alguns anos mais tarde, em 1874, quando ele adaptou para o palco, em colaboração com Dom Ennery, o Le tour du monde em quatre-vingt jours, Michel Strogoff e Les enfants du capitaine Grant. A capacidade do dramaturgo associado ao grande espetáculo enchia todas as noites durante meses, a plateia dos teatros do Châtelet e de Le Porte Saint-Martin. É o teatro sua primeira vocação: assim como os seus romances, Júlio Verne deve ao teatro a sua glória e fortuna que o imortalizou durante a sua vida e o faria muito conhecido, mais tarde, pela mão dos cineastas após a sua morte.

Influência de Edgar Allan Poe

Ao descobrir os fantásticos contos de Edgar Allan Poe, através das traduções em francês de Baudelaire, Verne decidiu consagrar-lhe um grande estudo no Musée de familles. Essa monografia foi redigida em 1862, mas só publicada em abril de 1864.

“Edgar Allan Poe inventou”, escreveu Júlio Verne “uma nova forma na literatura; criou um género à parte que só poderia proceder dele mesmo e do qual ele parece possuir o segredo; pode-se dizer o chefe de uma escola do misterioso, que ele recuou ao limite do impossível; ele terá os seus imitadores”.

Sem dúvida, um deles foi Júlio Verne, que começou a escrever o romance Voyage en l’air, mais tarde, denominado Cinq semaines en ballon.

Em carta a seu pai, em fevereiro de 1862, ao fazer alusão ao conto Lê Canard au ballon (“A balela do balão”), de Poe, escreveu Verne:

“Eu não penso embarcar, no meu próprio balão, um pato nem mesmo um peru que será um peru da farsa, mas seres humanos. Este aeróstato deverá, portanto, ser provido de um mecanismo irrepreensível”.

Verne procurou associar a estranheza ao rigor científico. Na realidade, Poe constituiu o sinal que permitiu a Júlio Verne encontrar o seu próprio género literário totalmente pessoal, embora outras influências tenham estimulado o aparecimento da serie “Voyages extraordinaires”, um deles foi sem dúvida o escritor Daniel Defoe através de sua obra “Robinson Crusoé”.

O nascimento de um romancista

Entusiasmado pela Voyage em l’air, o editor Pierre-Jules Hetzel - mais tarde, amigo e conselheiro – aceitou publicá-lo com a condição que o título fosse substituído por Cinq semaines en ballon (Cinco semanas em balão) . O contrato desse livro foi assinado em 23 de outubro de 1862 e o romance apareceu em 31 de janeiro de 1863. A venda desse primeiro romance de um escritor ainda desconhecido teve uma tiragem inicial de 2.000 exemplares. Durante a vida do autor foram vendidos cerca de 76 mil exemplares(1) .

Assim surgiu o romance científico, e mesmo o geográfico, que comportava também de maneira discreta uma sátira social. Na realidade, essa obra correspondia ao estado de espírito que dominava Júlio Verne, nesta época, ou seja, desejo que aspirava se tornar um novo Balzac. Fundamentando-se para alcançar este objetivo descrever a sociedade moderna pela audácia e crueldade das suas imagens, como expôs na entrevista a Brisson, em 1898.

O editor

Antes de instalar a sua editora em 18 Rue Jacob, Hetzel conheceu uma primeira vida de editor e homem político. Em 1844, lançou Le diable à Paris, periódico no qual colaboraram Balzac, Théophile Gautier, Alfred de Musset, Gerard de Nerval, Charles Nodier, Georges Sand, Stendhal e Eugène Sue, tendo como ilustradores Gavami, Grandville e Bertall; a essa plêiade de intelectuais e de escritores se associou Victor Hugo e Jules Sandeau. Além de sua atividade de editor, Hetzel foi tradutor e escritor. Com o pseudónimo de P-J Stahl, contribuiu para as colunas do Magasin d’éducation et de récréation. Republicano, participou da revolução de fevereiro de 1848, tendo servido ao governo provisório como chefe de gabinete de Lamartine, ministro de negócios exteriores. Em consequência, teve que se exilar na Bélgica, durante o governo de Napoleão III, só retornando a França em 1859.

Uma biblioteca de educação e recreação.

No entanto, Hetzel projetava a elaboração de uma biblioteca associada à educação e à recreação. Com esse objetivo convenceu o jovem escritor e romancista a se lançar em uma nova “Comédie humaine” estimulando-o a prosseguir no género das viagens imaginárias dando lhes uma dimensão épica, onde o maravilhoso se apoiava nas descobertas cientificas da época. Deste modo, apoiado no estímulo do seu editor, Júlio Verne elaborou um romance satírico, Paris au XXe siécle, o qual se concentrava na forma da Voyage extraordinaire.

“É moderno, é novo, é a magia científica” assim anunciava aos seus amigos. “Se eu conseguir sucesso, abandono tudo porque encontrei o caminho que há anos ruminava poder um dia desenvolver.”

Lamentavelmente, esse romance sobre Paris, escrito entre 1860 e 1862, permaneceu na gaveta durante 150 anos(2) , pois foi recusado por Hetzel em 1863. Trata-se de uma sátira da sociedade do segundo império numa visão de antecipação. Alguns elementos desse romance foram aproveitados em Une ville idéale (1875), La Journée d’un journaliste américan en 2889 (1889) e L’Île à hélice (1895). No entanto, essa recusa não significou que outras Voyages extraordinaires não fossem escritas: Voyage au centre de la Terre (1864), De la Terre à la Lune (1864-65) e Les enfants du capitaine Grant (1864-65).

Depois do sucesso desses romances, Júlio Verne assinou com Hetzel um segundo contrato em 11 de dezembro de 1865, em que se comprometia a fornecer três volumes por ano de obras que tivessem as mesmas características das editadas anteriormente para o mesmo público e com a mesma extensão. Mais tarde, em 1871, um novo contrato reduz a quantidade de três a dois volumes por ano. Verne aceitou o novo contrato, pois como dizia em carta de abril de 1864 ao seu editor: “quero me tornar antes de tudo, um escritor”.

Na realidade, dessa colaboração com Hetzel permaneceu até 1886, quando seu filho tomou a sucessão e continuou a publicar as Voyages extraordinaires (Viagens Extraordinárias), que representam um total de 62 títulos reunidos em 47 volumes. Na editora de Hetzel, Jules Verne não foi só um autor fértil, mas também o co-diretor do Magasin d’éducation et de récréation (Revista da Educação e da Recreação) , periódico fundado por Hetzel e Jean Mace.

A intenção era reatar com a tradição didática do século XVIII. De fato, essa publicação bi-mensal alternando pequenos trechos de ficção, contos, lições morais e artigos de divulgação científica, tinha como objetivo subliminar propor as famílias um periódico moderno e bem ilustrado no qual predominava “um ensino sério e atraente ao mesmo tempo que agradava aos pais com o proveito das crianças.”

O primeiro número do Magasin d’éducation et de récréation, de 20 de março de 1864, publicou o primeiro episódio do Voyage et aventures du capitaine Hatteras, de Júlio Verne, cujo nome aparece entre os redatores da revista na parte Educação dirigida por Jean Mace. No entanto, foi necessário esperar por 1867 para que o objetivo educativo da obra verniana fosse nitidamente formulado, quando foi criada a coleção Voyage extraordinaires na qual foram re-editados, sob o formato maior, com ilustrações e com modificações no texto, os primeiros romances: Cinq semaines en ballon, Voyage au centre de la Terre e Voyage et aventures du capitaine Hatteras. Este último foi precedido de uma advertência do editor que vai constituir o verdadeiro programa a ser adotado pelo autor.

Les romans de M. Jules Verne sont d'ailleurs arrivés à leur point. Quand on voit le public empressé courir aux conférences qui se sont ouvertes sur mille points de la France, quand on voit qu'à côté des critiques d'art et de théâtre, il a fallu faire place dans nos journaux aux comptes rendus de l'Académie des Sciences, il faut bien se dire que l’art pour l’art ne suffit plus à notre époque, et que l'heure est venue où la science a sa place faite dans la littérature. [...]” “Les oeuvres nouvelles de M. Verne viendront s'ajouter successivement à cette édition, que nous aurons soin de tenir toujours au courant. Les ouvrages parus et ceux à paraître embrasseront ainsi dans leur ensemble le plan que s’est proposé l’auteur, quand il a donné pour sous-titre à son oeuvre celui de Voyages dans les mondes connus et inconnus. Son but est, en effet, de résumer toutes les connaissances géographiques, géologiques, physiques, astronomiques, amassées par la science moderne, et de refaire, sous la forme attrayante et pittoresque qui lui est propre, l’histoire de l’univers.(3)

Esta apresentação-advertencia escrita por Verne e retocada pelo editor apresentava dois pontos de vista aparentemente divergentes. O primeiro correspondia indubitavelmente à intenção de Hetzel de “resumir todos os conhecimentos ......... recolhidos pela ciência moderna”. Tratava sem dúvida de educar sobre uma forma atraente e pitoresca. O outro ponto de vista de origem verniana estava associado às idéias de Flaubert, Zola e Hugo sobre abertura da literatura a sua época, opondo-se às teorias românticas: “é necessário dizer que a arte pela arte não é mais suficiente em nossa época e que é chegada hora onde a ciência tem a sua posição feita na literatura”.

Na verdade, o projeto de Júlio Verne constituía um verdadeiro desafio para um romancista. Como reunir os conhecimentos científicos numa perspectiva didática e ao mesmo tempo em que se criava uma ficção? Como se engajar num empreendimento enciclopédico quando não se tem uma formação científica. Júlio Verne conseguiu, como ninguém jamais o fez até hoje, em todos os seus romances que se seguiram, sem nenhuma crise de inspiração, elaborar romances científicos e geográficos que, além de apresentar uma maturidade e uma coerência, constitui admirável exemplo de criação literária.

Great Eastern

Em março de 1867, Jules Verne embarcou para os Estados Unidos no Great Eastern – o maior transatlântico da época – acompanhado do seu irmão Paul; passou uma semana em Nova York e visitou a Catarata do Niágara. As notas redigidas durante essa viagem dão origem a um romance completo – Une ville flottante (Uma cidade flutuante). Antes de chegar a Nova York, escreveu a Hetzel:

Eu sinto a necessidade de lhe dizer que amo muito a França e não muito menos a América. Ah! Se você tivesse vindo conosco, o seu coração teria palpitado mais de uma vez, pois os incidentes e, infelizmente, os acidentes não faltaram durante a viagem. Acredito que o meu livro sobre o Great Eastern será mais variado do que eu pretendia que o fosse, graças às provas por que passamos nestes últimos 15 dias. Assistimos a ventos insuportáveis: o Great Eastern, apesar da sua massa, dançava como uma pluma sobre o oceano.

Antes do fim de abril, Júlio Verne estava de volta a Paris, onde esperava o seu editor. De 1867 a fevereiro de 1868, Júlio Verne trabalhou intensamente, em colaboração com Théophile Lavallée, na elaboração de La Géographie de la France et de ses colonies (uma geografia da França e das suas colônias, 1866-68) em virtude de uma encomenda do seu editor Hetzel, que neste intervalo de tempo ocupava-se da revisão do romance Les enfants du capitaine Grant (1865-67).

BREVE CRONOLOGIA EM PARIS (1847-1870)

1847 : Jules Verne passou no primeiro exame de direito, em Paris. Começou a escrever peças de teatro

1848 : Jules Verne instalou-se em Paris, onde se preparou o seu segundo exame de direito que lhe permitiu concluir sua licença em direito. Decepção sentimental, a jovem de Nantes – Herminie Arnault-Grossetiere (1827- ?) – a quem dedicou diversas poesias, casou-se em 19 de julho de 1848. Passou a freqüentar os salões literários da capital, quando definiu seu interesse mais pela literatura do que pelo direito. Conheceu Alexandre Dumas.

1849: Licenciado em Direito. Após a decepção amorosa, associou-se a Alexandre Dumas Filho e fundam os “Onze-sans-femme”.

1850 : Em 12 de junho, première de Les Pailles Rompues, comédia em verso, primeira peça de teatro de Jules Verne apresentada Théâtre Historique, em Paris, graças à ajuda de Alexandre Dumas, em seguida em Nantes. Faz amizade com diversos compositores dentre eles: Léo Delibes, Talexy e Le Nantis, Aristide Hignard, para os quais escreveu os livretos de ópera cômica.

1851 : Primeiros contos publicados no Musée des familles, dirigido Breton Pitre-Chevalier: Les Primiers Navires de la marine méxicaine et Un Voyage en ballon. Em outra primeira crise de paralisia facial. Começa a escrever Monna Lisa. Deixa a rua da Ancienne-Comédie pela Rive droite (margem direita do Sena). Entre 1851 e 1860 residiu num bairro de Notre-Dame de Lorette; 1853, 11bd Bonne-Nouvelle e em seguida no 18, que deixou para residir na rua Saint-Martin. Jules Verne conheceu Jacques Arago.

1852-1854 : Jules Verne residiu no Boulevard Bonne-Nouvelle, com seu amigo Aristide Hignard. Recusou a sucessão do seu pai, para se dedicar às letras. Escreve no Musée, Martin Paz e Les Châteaux en Californie. Tornou-se secretário do Théâtre Lyrique.

1853: Première de Colin-Maillard, música de Hignard. Seu irmão Paul retornou do Haiti, sua volta é comemorada em La Guerche, na casa do tio Prudent.

1854: Em junho, morte de Jules Seveste, diretor do Théâtre lyrique. Júlio Verne deixa as suas funções de secretário. Publica no Musée, Maître Zacharius.

1855: Prmière des Compagnons de la Marjolaine, música de Hignard. Segunda crise de paralisia facial. Júlio Verne quer casar. Ele escreve Le Mariage de M. Anselme des Tilleul, e trabalha com a peça Les Heureuz do jour (Felizes do dia). Publica no Musée, Un hivernage dans les glaces. Primeira canção publicada: En avant les zouaves!

1856 : Em 17 de maio, partiu Amiens, onde assistiu, em 20 de maio, esteve em Amiens, para assistir o casamento do seu amigo Auguste Lelarge com Aimée Deviane, quando conheceu a irmã caçula de Aimée, a jovem viúva Honorine. Mãe de duas filhas. Correspondência com o seu pai sobre a vontade de trabalhar na Bolsa para melhorar as suas finanças. Adquiriu uma parte da carga de Eggly, agente de câmbio, a 72, rue de Provence, em Paris. Escreveu San Carlos. Publica a canção Daphné, música de Hignard.

1857 : Em 10 de janeiro, casamento de Júlio Verne, com Honorine Morel nascida Deviane Honorine de Viane, na igreja de Ste-Cécile em Paris. Primeira coletânea de canções musicadas, por Hignard.

1858: Em 17 de fevereiro, première de M. de Chimpanzé, música de Hignard. Terceira crise de paralisia facial.

1859 : Primeira viagem de Júlio Verne, com Aristide Hignard, na Inglaterra e na Escócia. A paisagem escocesa lhe inspiraram Les Indes noires e Le Rayon vert. Seu irmão Paul deixou a marinha e casa-se com Berthe Meslier de Montarand; quando começou também a trabalhar na Bolsa de Paris.

1860 : Conheceu o fotógrafo e aeróstata Nadar. Entre 1860 e 1861, Júlio e Honorine residem na rue Saint-Martin; 54, rue du Faubourg-Montmartre; 45, bd Magenta e 18, passage Saulinier. Suzanne e Valentine, filhas de Honorine, moram com o casal.

1861 : 1º de junho première de Onze jours de siège. Em 2 de julho, segunda viagem marítima de Júlio, com Hignard, a Noruega e a Escandinávia, que lhe inspirou Un billet de loterie. Em 3 de agosto, em sua ausência, nasceu o Michel Verne, o seu único filho, para o qual escreveria Um capitão de quinze anos.

1862 : Por volta de outubro, encontrou com o editor Hetzel que aceitou o manuscrito de Un Voyage em l’air que se transforma em Cinq semaines en ballon. Em 23 de outubro, assinou o primeiro contrato com o editor, a quem deveria fornecer dois volumes por ano durante vinte anos.

1863 : Em 31 de janeiro, o seu primeiro romance da futura série das Voyages extraordinaires : Cinq semaines en ballon chega as livrarias. Júlio Verne deixou a Bolsa de Paris. Escreve Paris au XXe siècle, provavelmente, com base em notas redigidas. Encontro com o aeróstata Nadar que o convida para participar da Société d’encouragement pour la locomotion aérienne au moyen d’appareils plus lourds que l’air. Publicação da segunda coletânea de canções musicada por Hignard. Publica no Musée: À propos du Géant, no qual descreve o grande balão de Nadar. Deixa a região dos teatros e se instala em Auteuil, 39, rue La Fontaine.

1864: Em 1º de janeiro, assinou o segundo contrato com Hetzel. No Musée publica Edgard Poe et ses oeuvres (Edgar Allan Poe e suas obras). Hetzel recusou o manuscrito de Paris XXe siècle. Em 20 de março aparece o primeiro número de Magasin d’Éducation et de Récréation (revista de educação e recreação), fundada por P.J Hetzel e Jean Mace, contendo Aventures du capitaine Hatteras (Aventuras do Capitão Hatteras). Nas livrarias apareceram Voyage ao centre de la Terre e no Musée: Le Comte de Chanteleine. Quarta crise de paralisia facial.

1865: Nas livrarias parecem: De la Terre à la Lune. No Musée: Les Forceurs de blocus. Publicação do romance no Magasin, Les Enfants du capitain Grant sobre a forma de folhetim de 20 de dezembro de 1865 a 20 de dezembro de 1867. Passa o verão na Baía de Somme, em Crotoy, quando começa a navegar no mar. Assina um novo contrato com Hetzel para escrever três volumes por ano. Eleito membro da Société de géographie.

1866 : Em Crotoy, onde passou a residir com mais freqüência, escreveu Géographie de la France et de sés colonies, iniciada por Lavallée. Durante uma permanência em Chatenay começou a escrever Vingt Mille lieues sous le mers (Vinte mil léguas submarinas).

1867 : Embarcou para os EUA com seu irmão Paul, a bordo do Great-Eastern – o maior transatlântico da época – quando visita Nova York e as quedas do Niágara. Escreve Le Humbug.

1868: Em Crotoy, adquiriu o seu primeiro barco – uma chalupa de pesca -, batizado de Saint-Michel, homenagem ao seu filho Michel.

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1 Esta tiragem só seria superada por Le tour du monde em quatre-vingt jours (À volta ao mundo em oitenta dias), com 108 mil exemplares.

2 Publicado em 1994, esse romance inédito descoberto em 1989 vendeu mais que 200 mil exemplares na França.

3 Os romances do Sr. Júlio Verne aliás já alcançado o seu ponto. Quando se vê o público apressado correr às conferências que são abertas em mil pontos da França, quando se vê que ao lado das críticas de arte e de teatro, se fez necessário colocar nos jornais os comptes rendus da Academia de Ciências, é preciso dizer que a arte pela arte não é mais suficiente para a nossa época, e que chegou a hora em que a ciência tem o seu lugar na literatura.
As novas obras do Sr. Verne virão se juntar sucessivamente a essa edição, que teremos o cuidado de manter sempre atualizada. As obras aparecidas e aquelas a serem publicadas compreenderão também em seu conjunto o plano a que se propõe o autor, quando ele deu para subtítulo de sua obra o de Voyage dans le mondes connus et inconnus (Viagem no mundo conhecido e desconhecido). Sua finalidade é, com efeito, resumir todos os conhecimentos geográficos, geológicos, físicos, astronómicos, recolhidos pela ciência moderna e de refazer, sob uma forma atraente e pitoresca que lhe é própria, a história do universo.

sábado, 11 de julho de 2009

Júlio Verne em Nantes (1828-1847) - 2ª Parte

Continuação do artigo 'J. Verne - Um precursor da ficção científica' cuja 1ª parte foi aqui colocada no dia 9 de Julho.

Júlio Verne em Nantes (1828-1847)

Pierre Verne, oriundo de Provins, assumiu em 1826 a função de procurador público em Nantes, onde se casou, no ano seguinte, com Sophie Allotte de la Fuye. Dessa união nasceram cinco filhos: Jules, Paul, Anna, Mathilde e Marie.

A ilha de Feydeau, onde se encontra a casa natal de Jules Verne, era uma ilha fluvial situada entre os dois braços do Loire. O imóvel de número 2, do cais Jean-Bart (hoje Cours des 50 Otages), onde ele passou os primeiros quatorze anos da sua vida, dominava a confluência do Loire com o Erdre. A casa de campo de Chantenay, permitia acompanhar a atividade do porto. Jules Verne só viu o mar pela primeira vez, com a idade de 12 anos, mas as ilhas, os portos e os navios que serão temas favoritos da maior parte de suas obras, desde de muito tempo já faziam parte da sua vida e dos seus sonhos.

Na família Verne, praticava-se a poesia de circunstância: os eventos de nascimentos e de casamentos eram ocasiões a serem celebradas em versos de alegria e de amor. Jules começou a redigir as suas primeiras poesias muito jovem. “Desde a idade dos 12 ou 14 anos”, declarou a um jornalista, em 1904, “tinha sempre um lápis comigo e quando estava na escola não parava de escrever, elaborando sobretudo poemas desde a adolescência.” Preencheu dois cadernos de poesia que o acompanharam por toda sua vida e que permaneceram inéditos até a sua morte e só foram publicados em 1989. Poesia lírica ou satírica, amorosa ou rima de cancioneiros eram os géneros que mais o atraíam.

Mais tarde, foi também letrista, fornecendo ao seu amigo, o compositor Aristide Hignard, poemas que foram musicados. Suas canções reunidas apareceram em 1857, com o título Rimas e melodias.

Lavanguardia, uma cadeia de televisão de língua espanhola, fez uma reportagem de quase 6 minutos com o título La Nantes de Julio Verne que nos oferece uma viagem à imaginação de Júlio Verne através da sua cidade natal, Nantes, o lugar que o inspirou e estimulou a escrever:


BREVE CRONOLOGIA EM NANTES (1828-1847)

1828 : Em 8 de fevereiro, Jules Verne nasceu na ilha de Feydeau, a 4, rua Olivier-de-Clisson, em Nantes, filho de Pierre Verne, procurador judicial, e Sophie Allotte de la Fuÿe.

1829 : Em 26 de junho, nascimento de Paul, irmão caçula de Jules. A família Verne instalou-se no cais Jean Bart .

1833 : Freqüentou o Instituto de Madame Sambin.

1837-1844 : Jules Verne realizou seus primeiros estudos em Nantes (colégio Saint-Stanislas e Petit Séminaire)

1837: Nascimento da irmã Anna (1837-1919), esposa de Ducrest de Villeneuves.

1839: Nascimento da irmã Mathilde (1839-1920), esposa de Fleury .

1841: Aluno do pequeno Seminário Saint-Donatien.

1840 : A família Verne instalou-se em 6, rua Jean-Jacques Rousseau. No verão, a família Verne residia em Chantenay, casa de campo nas proximidades de Nantes.

1842: Nascimento da sua irmã Marie (1842-1913), esposa de Guillon.

1844-1845 : Frequentou o Collège Royal, futuro Lycée de Nantes, onde escreveu um primeiro romance que permaneceu inacabado (Un Prêtre en 1835) e poemas.

1846: Bacharel. Júlio Verne começou seus estudos de direito em Nantes.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

J. Verne, um precursor da ficção científica - 1ª Parte

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, astrónomo e escritor brasileiro, Doutor pela Universidade de Paris (Sorbonne) foi o criador e primeiro diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins do Rio de Janeiro (Brasil). Professor visitante da Universidade do Vale do Acaraú, Sobral, Ceará é membro titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia Brasileira de Filosofia, da Academia Carioca de Letras e da Academia Luso-Brasileira de Ciências, Letras e Artes. Primeiro Prémio José Reis (1979). Autor de mais de 100 artigos de pesquisa publicados em revistas cientificas internacionais e mais de 75 livros, dentre eles o Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica – 2ª edição revista e ampliada -, o único dessa especialidade no mundo com mais de 30.000 verbetes.

É também um apaixonado pela vida e obra de J. Verne tendo já escrito vários artigos e apresentado várias palestras (aqui a sua última em Portugal) sobre o escritor francês.
O Blog JVernePt entrou em contacto com o Dr. Ronaldo Mourão, considerado por muitos um dos grandes vernianos mundiais, tendo-lhe pedido autorização para publicar o seu melhor artigo/biografia sobre Verne no nosso blog. A autorização foi nos dada com extrema simpatia e gentileza e nos próximas dias iremos apresentar, em várias partes, os seguintes temas:


Júlio Verne - Um precursor da ficção científica

No ano de 2005, a França comemorou o centenário de morte de Júlio Verne, um dos romancistas mais imaginativos e populares. Sua obra, uma das mais traduzidas no mundo, transformou-o em um dos escritores franceses universalmente mais conhecidos. Espírito extraordinariamente curioso, foi um grande leitor. Nutria a sua cultura nas enciclopédias e nos periódicos que lia sistematicamente todos os dias. Soube como ninguém revelar os sonhos da sua época, expondo as visões de um novo mundo. Suas especulações baseavam-se numa documentação científica impressionante que acumulava antes de iniciar os seus romances. A estas pesquisas se associava uma imaginação literária e poética de grande sensibilidade político-social que valorizava a importância da ciência e da tecnologia. Como disse o filósofo e escritor Serres: desde a morte de Verne falta um escritor que dê a ciência a valorização que ela merece. Até hoje, o próprio nome Jules Verne evoca as imagens de um mundo, onde o cientista era uma mente preocupada em preservar um futuro feliz e justo para a humanidade – como, por exemplo, a do capitão Nemo, capaz de destruir os seus inventos, pois acreditava que os governos ainda não estavam prontos para recebê-los - em relatos fantásticos ricamente ilustrados das Viagens extraordinárias, que mais tarde seriam aproveitados pelo cinema. Em consequência dos seus textos de visionário e do seu permanente aproveitamento cinematográfico, o nome de Jules Verne tornou-se um mito universal e imortal.
Júlio Verne viveu 20 anos em Nantes, 23 em Paris e 34 em Amiens.


segunda-feira, 22 de junho de 2009

A megalomania de Michael Todd



Baseado na obra literária de Júlio Verne, o filme “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, de 1956, consegue ser uma das comédias mais fascinantes, suntuosas, faraónicas e megalomaníacas de seu tempo. A história, que cativava muitos produtores desde os anos 40, estava engavetada em alguma escrivaninha da Warner. Era tida como algo tão nababesco que seria impossível transpor sua concepção literária para a materialização do cinema. Até que o produtor Michael Todd resolveu quebrar todos os dogmas envolvendo o assunto e, remando contra a maré, arriscou suas fichas e apostou na ideia. Ele, de fato, sempre fora um inveterado apostador.

Para a história do cinema contemporâneo, Todd será sempre lembrado como o produtor de A Volta ao Mundo em 80 dias. Fora o seu primeiro e único filme. Resultado: foram 8 indicações ao Oscar e 5 estatuetas; melhor fotografia, melhor roteiro adaptado, melhor edição, melhor música e, para arrebatar, melhor filme. Um índice invejável.

A concepção da película tornava sua produção demasiadamente cara: a maioria das gravações ocorria em ambientes externos; 13 países serviriam como pano de fundo para ambientar a história; 68.894 figurantes; 74.685 peças de figurino; 6 milhões de quilómetros percorridos ao término das filmagens; 90 domadores que ficaram responsáveis por 8.500 animais que entrariam em cena; 140 cenários construídos.

Detalhe: Todd foi conseguindo um empréstimo aqui, outro acolá... Teve de driblar seus credores, inúmeras vezes, durante as filmagens e precisava provar a todos que aquilo não se tratava da maior barca furada da história de Hollywood. Para ajudar, o primeiro diretor do filme, John Farrow, foi sumariamente demitido logo em sua primeira semana. Em seu lugar, o jovem e desconhecido à época, Michael Anderson, que ficaria mais tarde conhecido por filmes como “As Sandálias do Pescador” e “Operação Crossbow”, fora recrutado.

Na obra em questão, fica claro a predileção do diretor em usar e abusar de takes com as lentes “Grande Angular”, para dar discernimento de espaço, amplitude e pontos longínquos ao cerne da cena. Tudo, sempre com movimentos absolutamente perfeitos amparados por um edição de primeiríssima linha.

O elenco é outro show à parte. Um verdadeiro grupo, que contava com o mestre David Niven, o fabuloso Cantinflas e a ainda novata Shirley Maclaine. Mas, como tudo aqui tem um “q” de afetação, Todd criou uma nova modalidade em se tratando de aparições em filmes: o papel camafeu. Tratava-se de uma pequena ponta feita por um grande nome da indústria. Não que seu papel fosse pequeno; nessa nova concepção de Todd era como se um espaço fosse aberto para a “assinatura” de um grande astro. E, no decorrer das gravações, uma corrente de estrelas fez questão de participar. Há aparições de gente como Frank Sinatra, Peter Lorre, Buster Keaton e Marlene Dietrich, só para citar alguns.

O filme nos dá um retrato da sociedade burguesa da Inglaterra, em fins do século XIX. A aristocracia costumava se reunir em clubes ultra tradicionais, para ler os jornais, jogar xadrez, tomar chá e fazer apostas com as cartas. Numa dessas reuniões, um figurão bretão aposta que Sir David Niven seria incapaz de dar uma volta completa no mundo em 80 dias. É o ponto de partida para uma das mais divertidas aventuras já realizadas pelo cinema.



Ninguém melhor nesse mundo que Niven para ilustrar o típico inglês: sistemático, sempre pontual, de modos pragmáticos, de ar petulante, senso imperialista, tom sofisticado, gestos delicados, muito educado (até quando ofende alguém), enfim, todas essas características fundidas, com precisão de dosagem, deixam o personagem de Niven sempre com um ar cómico. Impossível não rir e não se apaixonar. Mesmo ficando claro que para eles, os ingleses, o resto do mundo era visto como uma aldeia tribal, composta por seres ferozes e animalescos, prontos para serem doutrinados e dominados pela cultura da Rainha. Incrível ver o enorme desdém despejado por Niven por tudo o que é americano, durante a passagem dos aventureiros por lá.

Impossível, também, é não falar da presença do maior comediante da história do México: Cantinflas. Ele era o ator mais rico do mundo, em 1955, quando foi convidado a participar do projeto. Trata-se de seu primeiro filme em língua inglesa e um dos raros em que atuou até o fim de sua carreira. Mario Moreno, o Cantinflas, arrasa nesse filme. Além de notório comediante, ele dança, faz malabarismos, enfrenta um touro durante uma tourada na Espanha, doma cavalos e inventa as mais improváveis peripécias. Seu modo visceral, gestual e físico de fazer comédia pode ser comparado com o de Buster Keaton, ainda mais pela ausência total de dublês. Cantinflas, oriundo dos palcos de pequenos e modestos circos mexicanos, emana a mais pura luz, em cada cena que aparece. É o showman, um artista nato, daqueles tão raros de se encontrar nos dias de hoje.



Com um final escandalosamente incrível e engraçado, seria , no mínimo, injusto de minha parte não dar a nota máxima a essa obra que, ainda, abriu as portas para que outros profissionais ingleses fossem respeitados e premiados nos Estados Unidos, pondo fim a um ranço histórico entre colonizado e colonizador. Compará-lo ao remake de 2004, com Jackie Chan, seria de uma deselegância com David Niven que sinto-me na obrigação de me abster sobre o assunto.

Fiquem com o trailer deste magnífico filme:



Por Thiago Fernando Secco, do blog Salada de Filmes e cedido gentilmente para o Blog JVernePt.

terça-feira, 12 de maio de 2009

'Um livro à volta do Mundo' na Revista BANG!

A Bang! é a única revista de Portugal dedicada à literatura fantástica (ficção científica, fantasia, horror, história alternativa, etc...). Depois de três números em papel passou a formato digital e desde então é inteiramente grátis!

De periodicidade trimestral, a Bang! procura trazer ao leitor português os autores incontornáveis da literatura fantástica mundial, apresentar os autores portugueses consagrados e dar oportunidade às novas vozes nacionais.


A número 6, além de vários contos onde se encontra um inédito de Edgar Allan Poe (Verne foi um dos seus mais devotados admiradores), traz um artigo, escrito por mim, sobre a extraordinária viagem do livro de Júlio Verne, "A Volta ao Mundo em 80 dias". Neste viagem à viagem à volta do Mundo, o livro passou pelas mãos de diversos vernianos dispersos por todo o planeta antes do seu regresso a terras lusitanas.

Poderá fazer o seu download da revista visitando o sítio da editora Saída de Emergência.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

É J. Verne o pai do Steampunk?

Para quem desconhece Steampunk é um subgénero da ficção científica, ou ficção especulativa, que ganhou fama no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Trata-se de um universo semelhante a uma época anterior da história humana, no qual os paradigmas tecnológicos modernos ocorreram mais cedo do que na História real, mas foram obtidos por meio da ciência já disponível naquela época.


O género foi baseado num universo de ficção cientifica criado por autores consagrados como Júlio Verne, H.G. Wells, Mark Twain e Mary Shelley, entre outros, no fim do século XIX, onde mostra uma realidade espaço-temporal na qual a tecnologia mecânica a vapor teria evoluído até níveis impossíveis (ou pelo menos improváveis), com automóveis, aviões e até mesmo computadores movidos a vapor naquela época.

Muitos dizem que Verne foi o verdadeiro pai do estilo Steampunk pois não só as suas obras foram escritas na época vitoriana (a ficção steampunkiana foca-se mais sobre a tecnologia real, teórica ou cinemática da era vitoriana (1837-1901)) como a sua ficção se baseava na ciência e tecnologia do seu tempo. Será? A verdade é que muitas «máquinas maravilhosas» vernianas como o Nautilus de "20.000 Léguas Submarinas", o Albatros de “Robur, o conquistador", o interior de cápsula de "Da Terra à Lua", as lâmpadas portáteis em "Viagem ao centro da Terra", o magnífico balão Victória de "Cinco semanas num balão", e até o Épouvant de "Senhor do mundo", foram “criadas” usando a tecnologia disponível na altura e isso é associado ao Steampunk.

Mais tarde algumas destas obras foram adaptadas ao grande ecrã como Viagem ao Centro da Terra (1959), Master of the World (1961), Cinco Semanas num Balão (1962),... e este estilo foi mais popularizado, ainda que por vezes se tenham exagerado alguns elementos de forma a torná-los mais evidentes como no caso de A Volta ao Mundo em 80 Dias (2004) e no de 20,000 Léguas Submarinas (1954) como por exemplo no aspecto exterior do Nautilus.

Também outros filmes/séries contendo elementos vernianos mostraram o estilo Steampunk. Foi o caso de Back to the Future III com o comboio (Br: trem) a vapor Jules Verne, da Liga dos Cavalheiros Extraordinários com o seu (mais uma vez exagerado) Nautilus e da recente série baseada na vida do escritor francês The Secret Adventures of Jules Verne.

 Back to the Future III

Outros filmes se têm feito que incorporaram este estilo na sua estética sendo os mais recentes “A Bússola Dourada” e “Stardust” o que nos leva a concluir que o Steampunk, veio para ficar!

Ficam algumas fotos do que seria o material informático na realidade do Steampunk:




Visite o seguinte site para mais informações:
Steampunk.com.br (site brasileiro sobre o tema onde foram retiradas duas fotos para este artigo)

sábado, 11 de outubro de 2008

Os amores de Júlio Verne

OS AMORES DE JÚLIO VERNE

Apresentamos no nosso blog, com a grafia original, um artigo sobre a interessante vida amorosa de Júlio Verne publicado no jornal Folha da Manhã (S. Paulo - Brasil) no dia 28 de Março de 1929.

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Julio Verne, o potente creador de tantas ilhas fluctuantes e artificiaes, cujas novellas e prodigiosas antevisões contribuiram tão efficazmente para que certos homens de sciencia puzessem ao serviço da humanidade alguns dos innumeraveis recursos que a natureza nos offerece, possue debaixo de suas apparencias de homem frivolo e leviano um forte temperamento romantico.

Em sua época estudantil, Julio Verne se enamora perdidamente de sua prima Carolina, jovem formosa que, apenas sahida do collegio, consegue reunir em torno de sua pessoa uma infinidade de pretendentes, attrahidos não só por sua belleza como pelo pingue dote que seus paes lhe concederam. No meio da embriaguez de seus exitos mundanos a bella Carolina não presta maiores attenções ás declarações que em prosa e verso lhe dirige seu primo, e um dia em que este, sentado ás escanchas sobre o muro exterior de suas propriedades em Nantes, lhe lia um ardente poema composto em sua honra, não pôde resistir á hilariedade da scena comica, e deu uma estrondosa gargalhada. Julio, que no fundo possuia grande timidez, sobre tudo quanto se encontrava em presença de mulheres formosas, dissimula seu enjôo e fingindo tratar-se de um incommodo, foge a implorar de seus paes lhes permittam dirigir-se a Paris, afim de proseguir em seus estudos.

J. Verne em 1850 com 22 anos

Mezes mais tarde, já na capital, respondera ao convite para assistir ao casamento de sua prima, da seguinte maneira:

"Era certo! Este deploravel casamento effectuar-se-á! O dito de Eschilo viria a calhar. Prefiro, porém, dizer-lhe simplesmente: "Perdoae-lhes, senhor, elles não sabem o que fazem!" Demais, hei de me vingar. Matarei seu gato branco, na primeira occasião em que o encontre a geito".

*
Annos mais tarde, quando já começava a abrir caminho no mundo literario, volta a sentir velleidades de formar um lar. Seus paes o apresentam á senhorita Laurencie Jauner, formosa jovem de rosto fresco e palido, ornado com um belissimo par de olhos de terciofelo negro.
Dizem que possue um caracter phantastico, porém parece haver-se deixado conquistar por Verne.

O presidente da Côrte de Amiens, Javier de la Motte, dá um grande baile á phantasia, no qual se apresenta Julio Verne, trajado de "Incrivel", tornando-se assim um conquistador irresistivel, segundo declaram todas as mães das jovens casadoiras. Laurencie disfarçada de cigana o envolve em languidos olhares. Num intervallo do baile Verne junto a dois amigos, representa um "intermezzo", do qual é autor. Seus formosos versos são longamente applaudidos e agradecidos pelos bellos olhos da gitana. O feliz casal é o alvo de todos os olhares.

Repentinamente, porém, atrás dos galanteios, surge uma tirada humorista do joven autor. Laurencie acaba de confessar muito em segredo a uma de suas amigas que seu namorado, muito estabanado, lhe ferira o busto. Julio, que apanhou a phrase no ar, não poude resistir ao proprio genio brincalhão, e, inclinando-se ante a bella offendida, faz graciosa allusão a respeito. O pae de Laurencie indigna-se. A mamã enrubesce. O correcto Duverger, aproveitando-se desta desgraça, rouba Laurencie ás barbas do rival.

Os terciofelados olhos da gitana pousam tristemente sobre o rosto do poeta buffo, e este tem a impressão de que esta conquista lhe escapa das mãos.

Ao dia seguinte, o pae de Verne, enviado como amigavel intercessor, volta desconsolado:

- Meu filho, nada se póde fazer. Tua piada, sobre as baleias, foi considerada offensiva... Laurencie casar-se-a com Duverger...

Julio chora amargamente, porém só lhe fica o recurso de resignar-se e voltar á capital, cançado, moido, desilludido...

*
São passados tres annos.

Nas bodas de seu amigo Lelarge com a senhorita de Vianna, trava relações com a seihora Honorina Viana, viuva de Morel, formosa mulher de 26 annos e mãe de duas preciosas creaturas.

Com seu porte elegante, sua pelle resplandecente, seus olhos risonhos, seu caracter alegre e sua deliciosa voz de soprano ligeiro, conquista rapidamente a Julio Verne. A decisão deste é irrevogavel. Desposará Honorina. Mas, ha um inconveniente: a modicidade de seus proventos literarios não lhe permitte estabelecer uma casa, e então tratará de encarreirar sua vida por outros caminhos. Estimulado por seu futuro cunhado, solicita que o sr. Verne lhe facilite a somma necessaria para poder comprar um cargo de corretor de bolsa. Sem desfallecimentos executa durante mezes o assalto á bolsa paterna, com toda a furia de um homem que quer e lucta por amor. Argumenta com todos os methodos de um individuo que desde seu nascimento está habituado a ver os "considerando" alinhar-se methodicamente sobre o papel de officio.

Numa carta dirigida a seu pae ao fim do anno 56, Julio Verne lhe dizia: "Acho que já é tempo: não serei franco dizendo-te o contrario. Redige o teu pedido official, meu querido pae, emprega tua mais bella letra; aquella com a qual solicitaste a mão de mamãe".

Si a carta do sr. Verne foi redigida em termos solennes, a resposta com a qual acceitava a incumbencia, não a desmerecia; mas, si os paes gostavam do estylo protocollar, o filho guardava sua independencia de redacção.

"Escrevo-te do meu quarto do hotel de Amiens, onde a temperatura faz nascer esquimaus e ursos brancos. Herminia e eu desejamos nos casar o mais depressa e o mais simplesmente possivel. Ella possue um mobiliario muito pobre: sofá, duas poltronas, quatro cadeiras, um relogio de estufa com terciofelo vermelho e bronze. Não é o sofá que é de bronze, nem o relogio que é de terciofelo vermelho".

O casamento deverá realisar-se em Paris, e só assistirão a elle os paes e as irmãs de Verne. A seus amigos de Amiens lhes annuncia que se casará em Nantes, e os daqui que a cerimonia realisar-se-á nas Antifodas.

"Convidar amigos a uma missa de esponsaes? - escreve, - Meus cabellos se eriçam de pavor só de pensal-o. Não desejamos nenhum apparato. Minhas irmãs, para serem formosas, lhes basta apresentar-se ao natural. Depois da cerimonia iremos todos juntos almoçar num hotel qualquer a tanto por cabeça, e tudo estará acabado".

Como não podem encontrar habitações, resolvem deixar as crianças em casa dos avós e irem passar a lua de mel no quarto de solteiro do sexto andar.

Sem embargo, esse navegante que vislumbra ao longe a Ilha dos Prazeres, se estremece pensando que suas illusões podem desvanecer-se como uma bolha de sabão. Na ultima carta de homem livre que envia a seu pae, inserta esta phrase cheia da secreta inquietação que nunca o abandonará no transcurso de sua dilatada existencia.

"Alcanço a felicidade! A menos que algo a venha desmantellar".

A 10 de Janeiro de 1857 poude ver-se o mais feliz dos mortaes casar-se na maior simplicidade e alegria com a senhora Honorina Ana Hebe Freyson de Viana de Morel:

"Eu era o noivo - escreve Julio Verne. - Vestia um terno branco e luvas negras! Não comprehendi nem entendi nada, porém paguei a todo o mundo: empregados do registro civil, bedel, sacristão, cura. Chamavam: o noivo era eu! Graças a Deus, só havia 12 espectadores".

Julio deu seu coração por toda a vida á sua Honorina, que enchia o abysmo tão completamente quanto difficil o parecia ser. Em seus primeiros passeios, o jovem casal correu ao museu do Louvre, e ante a Venus de Milo, Julio fez a Honorina esta solenne declaração:

- Eis aqui a unica mulher da qual poderá ter ciumes!

Venus de Milo

E manteve sua palavra, pois até sua morte, ocorrida a 24 de março de 1905, foi o companheiro fiel e amantissimo que jurara ser.

Fonte: Folha de São Paulo

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

J. Verne no 'Google Earth'

A empresa Google conseguiu juntar o planeta Terra num só mapa e mostrar todos os países ao pormenor, as ruas, as casas, as árvores, uma a uma.



No Google Earth, download aqui, é possível fazer uma pesquisa detalhada do planeta.
Existem zonas do planeta com maior detalhe e outras com menos, mas o Google está constantemente a actualizar e a melhorar a base de dados. Com a ajuda dos utilizadores, qualquer um pode marcar locais neste espaço, assinalar o sítio onde é a sua casa, ou a rua que tem que ver com uma determinada notícia.
Foi o que fez um colunista do jornal espanhol La Nacion, que apaixonado pela obra de Júlio Verne "A Volta ao Mundo em 80 dias", desenvolveu um arquivo para o Google Earth que ao ser executado, coloca 19 marcas pelo programa que correspondem às 19 paradas de Phileas Fogg e do seu fiel escudeiro Passepartout - personagens de "A Volta ao Mundo em 80 dias"!
Para verem tudo isso, precisam em 1º lugar, instalar o programa Google Earth e depois fazer o download das localizações aqui.

Dias mais tarde, o mesmo colunista, desenvolveu outro arquivo para o Google Earth baseado na obra "Viagem ao Centro da Terra". O criador apenas marcou os pontos terrestres, visto que os outros encontram-se debaixo da terra. Ao ser executado, o arquivo coloca 14 marcas pelo programa que correspondem às 14 paradas do Professor Otto Liedenbrock. Vejam aqui.

Para não estragar a surpresa dos locais por onde Verne nos leva, apenas deixamos as localizações da acção destas duas obras. No entanto, fica o desafio para que os nossos visitantes deixem nos comentários as localizações da acção das vossas histórias preferidas. Vou deixar a minha.
Mas há outros locais, para além dos que se inserem nas Viagens Extraordinárias, que também merecem uma visita. É o caso, por exemplo, da localização das três casas do escritor em Amiens onde se inclui a Casa-Museu Jules Verne (casa da torre em Amiens), do Anfiteatro Jules Verne que o próprio inaugurou em 1889, do seu túmulo (acreditem, está mesmo debaixo da árvore), ou do Grand Hotel Central onde o escritor jantou com celebridades portuguesas aquando da sua visita (faz este ano 130 anos) de dois dias a Portugal.

Instruções:
1) Clique no link do arquivo. Vai aparecer uma janela a perguntar se deseja abrir ou salvar o arquivo;
2) Se optar por abrir o arquivo, ele será transferido e, depois, apresentado no Google Earth (o programa será executado se estiver fechado);
3) Se optar por salvar o arquivo, será necessário escolher uma pasta para guardá-lo. Depois, basta executá-lo para que o local seja apresentado no Google Earth.
4) Já com o programa aberto poderá ver do lado esquerdo o ficheiro com as suas várias localizações. Para as visitar, basta clicar em cada uma delas e deixar o programa correr.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

J. Verne e a Amazónia

Neste dia, 5 de Setembro comemora-se o Dia da Amazónia, a grande floresta do Mundo.

Como Júlio Verne nunca esteve na Amazónia, a paisagem real da sua obra foi desenhada a partir dos relatos de naturalistas que viajaram pela imensa floresta e a descreveram com as minúcias permitidas pelo conhecimento da época, como também pelas enciclopédias e pelos jornais que lia sistematicamente todos os dias.

A essas pesquisas associava-se uma imaginação literária e poética de grande sensibilidade político-social que valorizava a importância da ciência e da tecnologia.
Como disse o filósofo e escritor Michel Serres: “Desde a morte de Verne falta um escritor que dê à ciência o valor que ela merece. Até hoje, o próprio nome Júlio Verne evoca as imagens de um mundo onde o cientista era uma mente preocupada em preservar um futuro feliz e justo para a humanidade.

A Jangada


O que poderia justificar que sete anos depois da publicação da A Galera Chancellor (1874), Júlio Verne tenha retornado às águas amazonenses? O romance A Jangada, oitocentas léguas pelo Amazonas, é o primeiro de três romances de Júlio Verne consagrados exclusivamente ao curso de rios (os outros dois são: O Soberbo Orenoco, de 1898 e O Piloto do Danúbio, de 1908). Ao contrário do que ocorreu na A Galera Chancellor, a trajectória da jangada dá-se no sentido oposto: a embarcação construída numa pequena aldeia desce o rio Amazonas.

A Jangada é o relato de uma viagem até Belém, realizada pela família de um próspero fazendeiro que habitava Iquitos. O romance tem um duplo objectivo. O primeiro - anunciado para todos os membros da família -, era o casamento de Minha, a filha de João Garral, com um colega de estudos do irmão dela; o segundo era a solução de um problema jurídico de natureza criminal.

Na realidade, João, o pai, tinha as suas razões secretas: mesmo correndo o risco de uma execução, desejava obter a revisão de uma sentença que o condenara injustamente à morte pelo roubo de diamantes, 26 anos antes. Na época em que foi acusado, Garral trabalhava nas minas imperiais do Brasil em Vila Rica (hoje Ouro Preto), sob o nome verdadeiro de João da Costa. Depois de escapar à perseguição das autoridades foi morar em Iquitos, onde fez fortuna. De lá, partiu para recuperar sua inocência, depois de mais de um quarto de século.

Uma vez que o objectivo anunciado era um projecto familiar, Garral imaginou um meio de transporte que permitisse deslocar-se com toda a família. Com esta finalidade decidiu pela construção de uma enorme jangada, na verdade, uma gigantesca aldeia flutuante, capaz de conduzir todos os membros de sua fazenda pelo rio abaixo até Belém.

Uma 'mini-jangada' a subir o Amazonas

Profunda admiração pela Natureza

Ao lado dessa visão preconceituosa encontramos as mais belas, e por que não dizer, poéticas descrições sobre a natureza amazónica, nas palavras da personagem Minha:
Nada de mais magnífico que a parte direita do Amazonas. Aqui, numa confusão pitoresca, levanta-se uma grande quantidade de árvores diferentes, que, no espaço de um quarto de légua quadrada, podemos contar até cem variedades dessas maravilhas vegetais. (...) É uma sinfonia curiosa perante a qual nenhum indígena pode ficar indiferente. (...) Aqui revelam-se os mais belos representantes da ornitologia tropical. Os papagaios verdes, as araras barulhentas parecem ser os frutos naturais dessas gigantescas essências”.

Essa profunda admiração pela extraordinária mega biodiversidade é talvez um dos pontos mais objectivos da obra de Verne.

Diante do entusiasmo de Minha com referência à beleza e à riqueza da floresta amazónica, ela proíbe o irmão de usar o fuzil como caçador. Nesse trecho do romance, encontramos uma das mais belas conceituações relativas aos princípios do que seria a ecologia, disciplina científica que teve somente o grande desenvolvimento na segunda metade do século XX. Era a extraordinária perspicácia de Júlio Verne em antever os princípios do equilíbrio ecológico, justificando, sem dúvida, a admiração que cerca o trabalho de antecipação científica do escritor francês.


Interesse do autor é razão da escolha amazónica

A razão pela qual Júlio Verne - considerado o criador do romance geográfico - retornou à Amazónia está, sem dúvida, associada ao seu interesse de estudar - sob o ponto de vista geográfico - todas as regiões do globo terrestre; em especial aquelas que, por serem pouco exploradas, possuíam um belo aspecto misterioso, capaz de atrair não só a sua admiração, mas principalmente a dos seus leitores. Aliás, o seu interesse pelas viagens exploratórias estava associado à sua devoção pela natureza, em particular, características exóticas que envolviam a floresta amazónica, assim como a liberdade que dominava a vida nessas regiões longe da civilização.


O longo período de sete anos, que decorreu entre os romances A Galera Chancellor e A Jangada, deve estar associado ao seu grande interesse em concluir a sua pesquisa sobre a Amazónia. Com efeito, as referências ao Rio Amazonas e à floresta são sempre de admiração, os personagens manifestam-se assim:
O maior rio de todo o mundo!”.
O mais admirável e vasto sistema hidrográfico que existe no mundo!”.


Os viajantes: fontes bibliográficas de Verne.

Aliás, toda a visão sobre esse imenso território, que despertou o interesse dos viajantes estrangeiros que desde o século XVI estiveram a explorar e relacionando a riqueza da região: Orellana, oficial de um dos irmãos Pizarro, desceu o Rio Negro em 1540; Pedro Teixeira, o português que subiu o Amazonas até o encontro com o Rio Napo, em 1636; La Condamine, cujas pesquisas permitiram estabelecer de forma científica o curso do Amazonas, tendo sido completada por Humboldt e Bonpland, 55 anos mais tarde.

O próprio Júlio Verne relacionou os nomes de inúmeros exploradores e cientistas que estiveram na Amazónia. No livro de Verne, podemos verificar as informações de Bates, Agassiz, Humboldt, Spix, Martius, d’Orbigny, Condamine, entre outros. E foi a partir daí que Verne construiu a base científica do seu romance.

Na realidade dezenas e dezenas de aventureiros que exploraram e reviraram a região de ponta a ponta, como muito bem definiu Michel Riaudel, que concluiu, enquanto esperava ser beneficiado nessas viagens.

O Brasil ambicionava controlar melhor um território subpovoado enquanto as potências financiadoras esperavam tirar vantagens políticas, económicas ou comerciais.
É fácil verificar em Verne a visão do mundo dominante na época em que foi escrito o livro. Hoje é alvo de especulações e inveja de grande parte das nações do mundo, principalmente das poderosas, cujo grande objectivo é apoderar-se de uma dádiva que veio florescer em pleno território brasileiro a riqueza da Amazónia.

Mega-biodiversidade

Ao lado desta visão preconceituosa encontramos as mais belas e porque não dizer poéticas descrições sobre a natureza amazônica, nas palavras da personagem Minha:

Nada de mais magnífico que a parte direita do Amazonas. Aqui, numa confusão pitoresca, se levanta uma grande quantidade de árvores diferentes, que no espaço de um quarto de légua quadrada, podemos contar até cem variedades dessas maravilhas vegetais. (...) É uma sinfonia curiosa perante a qual nenhum indígena pode ficar indiferente. (...) Aqui se revelam os mais belos representantes da ornitologia tropical. Os papagaios verdes, as araras barulhentas parecem ser os frutos naturais dessas gigantescas essências.

Esta profunda admiração pela extraordinária megabiodiversidade é talvez um dos pontos mais objetivos da obra de Verne.

Diante do entusiasmo de Minha com referência à beleza e à riqueza da floresta amazônica, ela proíbe o irmão de usar o fuzil como caçador. Nesse trecho do romance, encontramos uma das mais belas conceituações relativas aos princípios do que seria a ecologia, disciplina científica que teve somente o grande desenvolvimento na segunda metade do Século 20. Era a extraordinária perspicácia de Júlio Verne em antever os princípios do equilíbrio ecológico, justificando, sem dúvida, a admiração que cerca o trabalho de antecipação científica do escritor francês.


A desflorestação da Amazónia

Salvar a Amazónia

Mas Verne também queria evitar que isto acontecesse, queria salvá-la, queria que quando falássemos em Amazónia nos lembrássemos da sua densa floresta tropical, biodiversidade incrível, da sua riqueza.

E ajudando o "Pulmão do Mundo" é com certeza algo que Verne gostaria e se sentiria orgulhoso pela sua obra ser um motor de arranque para este movimento.
E como a podemos salvar? Para começar, por exemplo, e se for uma das vencedoras já é um bom caminho, podíamos votar na grande floresta para ser eleita uma das 7 Maravilhas da Natureza no Mundo.
A organização das 7 maravilhas abriu essa votação e será uma chance para nós começarmos com o nosso movimento.

Esta vitória seria com certeza uma forma de homenagear J. Verne, neste ano em que se comemora o 180º aniversário do seu nascimento, como também a Amazónia, a personagem principal da magnífica obra que é A Jangada.

Fonte: Vários artigos sobre a Amazónia e Verne, A Jangada e citações do astrónomo/verniano Ronaldo Mourão.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Artigo - Como Jules Verne conquistou Portugal (3ª parte)

Continuação do artigo 'Como Jules Verne conquistou Portugal' cuja 1ª parte foi aqui colocada no dia 14 de Agosto e 2ª parte no dia 26 de Agosto.

3ªParte


Lista de todas as obras editadas


Alguns títulos da lista não foram traduzidos à letra, e o conhecimento do título original, francês, ajudará à mais fácil identificação da obra:

A Galera “Chancellor” – Le “Chancellor”
Os piratas do Arquipélado – L’ Archipel en Feu
A Mulher do Capitão Branican – Mistress Branican
A Carteira do Repórter – Claudios Bombarnac

O Náufrago do “Cynthia”, "Os 500 milhões da Begum" e "A estrela do Sul" são obras de colaboração: J. Verne e André Laurie (pseudónimo de Paschal Grousset, membro do Governo da Comuna de 1871, deportado e evadido da Nova Caledónia).

Alguns dos volumes continham, além do romance titular, outras obras de Jules Verne (ou do seu irmão Paul):

Miguel Strogoff – Um Drama no México
Uma Cidade Flutuante – Os Violadores do Bloqueio
O Dr. Ox – Mestre Zacharius
Um Drama nos Ares
Uma Invernada nos Gelos
Quadragésima Ascensão Francesa ao Monte Branco (por Paul Verne)
A Galera “Chancellor” – Martin Paz
Os 500 milhões da Begum – Os Revoltosos da “Bounty”
A Jangada – De Rotterdam a Copenhague a Bordo do Yacht “Saint-Michel” (por Paul Verne)
O Raio Verde – Dez horas de Caçada
O Caminho da França – Gil Braltar

Ilustradores identificados, por ordem de aparição: De Montaut, E. Bayard, A. De Neuville, J. ferat, Riou, De Beaurepaire, P. Philippoteaux, L. Benett, Schuler, E. Yon, H. Meyer, Crosbie, Gédéon, G. Roux, G. Tiret-Bognet.

A Livraria Bertrand, associada à Editora Íbis[7], publicou, em 1962, na Colecção Histórias, alguns pouco títulos vernianos (A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, Cinco Semanas em Balão, Miguel Strogoff) numa mistura de texto adaptado alternando, direita/esquerda, com páginas de Quadradinhos/BD. A adaptação literária e a disposição especial, eram propriedade da Editorial Bruguera, Espanha.

Surge em 1967 o último empreendimento verniano (até à data) da Livraria Bertrand: a reedição “inteiramente revista”, com capas individualmente distintas, montagem de antigas gravuras a preto-e-branco num fundo de fotografias coloridas actuais, papel brilhante (à semelhança duma edição francesa contemporânea, do Livre de Poche).
As ilustrações são agora 10 ou 8 por volume. Os revisores das traduções não são identificados (mas não conhecemos todos os volumes).
Vêem-se agora, nas listas, 56 ou 57 títulos, em 83 ou 84 volumes, mas tudo se explica: não são dados os títulos das divisões em duas ou três partes; Mathias Sandorf passou de 3 para 2 volumes; Os piratas do Arquipélago também figuram como Arquipélago em chamas; e há títulos “novos”, que não passam das obras de pequeno porte incluídas como contrapesos nos volumes de outros tempos.
Por fim, um título novo, e não listado: A Caça ao meteoro (1978).

À roda da Lua, edição da Livraria Bertrand

Outros editores, sem nada trazerem de novo, exploraram o filão Jules Verne:
1960 – Editorial Aster.
1961 – Edições Fernando Pereira (Livros do Tio João).
1973 – Círculo dos Leitores.
1974 – Editores Associados (livros Unibolso).
1980 – Amigos do Livro.
1980 – Europa-América (Livros de bolso com magníficas capas e ilustrações).
1990 – Livros do Brasil

Em álbuns de Histórias aos Quadradinhos/BD, ou de texto intercalado em grandes ilustrações, várias editoras como por exemplo Editorial Verbo, Porto Editora ou Editorial Pública, publicaram títulos de Jules Verne. Em jornais infantis, não faltaram adaptações do autor francês, em texto e em HQ.
Mas sobre isto falaremos mais detalhadamente numa próxima oportunidade.

Obras de Jules Verne realmente “novas” (fora dos Corazzi-Bertrand) foram publicadas por outros Editores, em livro próprio ou em colectâneas:

Livraria/Editorial Minerva
1932 – Uma invenção diabólica
1936 – A Família Ratão

Editora Arcádia
1971 – Os melhores contos de Júlio Verne contendo: Martin Paz; Um Drama nos Ares; Gil Braltar; Uma campanha de pesca; Aventuras da família Ratão; O Sr. Ré-Sustenido e a menina Mi-Bemol; O Humbug; No século XXIX: O dia de um jornalista americano em 2889.

Edições António Ramos, Lda
1978 – A espantosa aventura da missão Barsac
1978 – Ontem e amanhã, seguido por: O destino de Jean Morenas; A mistificação; No século XXIX: O dia de um jornalista americano em 2889; O eterno Adão
1978 – O segredo de Guilherme Storitz
1979 - Histórias Inesperadas, contendo: Mestre Zacharius ou O relojoeiro que perdeu a alma O conde de Chanteleine Frrit-Flacc Gil Braltar Aventuras da família Ratão
1980 - Antecipações e textos esquecidos, contendo: Crónicas Científicas, Estudos Literários, Declarações e Testemunhos, Impressões e Memórias, Antecipações e Discursos Diversos.




Ficou prometido o lançamento de O Piloto do Danúbio, e em dois volumes, O Homenzinho (P’tit Bonhomme).

Assim foi, em linhas gerais, o roteiro da conquista de Portugal pelo génio literário de J. Verne, que continua, até os dias de hoje, a encantar leitores de diversas gerações de luso-brasileiros".

[7] A Editorial Íbis, por si só, publicou, em 1970, “Os Filhos do Capitão Grant”, na mesma forma mista texto-HQ, mas em pequeno formato.

FIM

Fica o meu agradecimento a A. J. Ferreira pela autorização da cedência do seu excelente artigo publicado nos nºs 42 a 46 da "Nº13 Informações e Estudos sobre Jornais Infantis. Literatura Popular e Histórias aos Quadradinhos" de Julho a Novembro de 1994, como também a Geraldes Lino que tornou este contacto possível.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Artigo - Como Jules Verne conquistou Portugal (2ª parte)

Continuação do artigo 'Como Jules Verne conquistou Portugal' cuja 1ª parte foi aqui colocada no dia 14 de Agosto.

2ªParte

Em 28 de Novembro de 1896 morre David Corazzi, que se contava “entre os homens de mais iniciativa em o nosso paíz”… “vitimado por uma lesão cardíaca”.

No artigo em baixo, aquando do falecimento do editor, que se contava “entre os homens de mais iniciativa em o nosso paíz”… “vitimado por uma lesão cardíaca”, é explicado a novidade em 1889 (1884, como se vê impresso, não pode deixar de ser um lapso), ano em que surgiu o aparecimento da Companhia Nacional Editora (e do seu monograma), “Sucessora de David Corazzi e Justino Guedes”.
Acrescentamos que o “sindicado” era dirigido pelos próprios David Corazzi e Justino Roque Gameiro Guedes, que compravam com a mão direita o que vendiam com a esquerda.

Artigo necrológico da revista O Occidente, de 28 de Novembro de 1896, por ocasião do falecimento de David Corazzi, assinado pelo gravador Caetano Alberto.

No ano seguinte, 1890, a Administração da Companhia Nacional Editora, abandonou as velhas instalações e mudou-se para o Largo do Conde Barão, 50. A tipografia (agora também da CNE) permaneceu na Rua da Rosa.
Sete anos depois, A Companhia Nacional Editora, agora administrada unicamente por Justino Guedes, continuará a publicação da obra de Verne, a partir de “O Castello dos Cárpathos”. Nesta data, também a sua tipografia se encontra no Largo do Conde Barão.
Em 1899, o topo das páginas de rosto da “Grande Edição Popular” tornou-se igual ao da “edição de luxo”: apenas “Viagens Maravilhosas”.
Mas a frase por extenso, “Grande Edição Popular Das Viagens Maravilhosas Aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos” reaparecerá (em 1911?).

Surge dois anos antes da morte do autor francês, em 1903, o desaparecimento do nome de Justino Guedes que coincide com nova transformação da razão social: simplesmente “A Editora”, ficando as páginas de rosto privadas do habitual monograma do Editor… até 1908, quando foi reintroduzido na forma actualizada.

Logotipo de A Editora

A partir de 1911, os romances de Jules Verne aparecem agora numerados nas listas publicadas em frontespícios e em contra-capas de brochuras.
A numeração (que atingia, por então, o nº 75) correspondia à ordem de primeira publicação dos títulos na “edição de luxo” – com excepção dos quatro primeiros volumes de “As Grandes Viagens e os Grandes Viajantes”, que foram avançados até se juntarem aos dois últimos volumes dessa obra (pois não tinham sido consecutivos).

No ano seguinte, o catálogo (introdução em baixo) publicado com o romance nº 79, “O Pharol do Cabo do Mundo” prometia a continuação até ao nº 85… mas essa numeração, prosseguida por outro Editor bem diferente (Livraria Francisco Alves/Livraria Bertrand) em 1937, só comporta mais três volumes, 80, 81 e 82.
Na “edição de luxo”, não conhecemos qualquer título posterior a “O Soberbo Orenoco” (nºs 73 e 74).
(Note-se que a publicação de apenas mais três volumes, até ao nº 85, seria por certo insuficiente para abranger o que faltava das “obras completas”, que o catálogo prometia).

Introdução com a promessa de 85 volumes.

A meio dos anos 20, mais propriamente em 1926, entrou em actividade verniana um novo editor, herdeiro das Horas Românticas, da Companhia Nacional Editora, e de A Editora (que afinal fora sempre o mesmo, que se ia transformando): uma complicada associação de associações multinacionais, que melhor se compreenderá vendo a reprodução (abaixo).
Esta associação de Editores, que pouco produziu (e apenas repetindo), imprimia os romances de Jules Verne na tipografia da Empresa do Diário de Notícias, ou na Imprensa Portugal-Brasil.

Retirado de uma obra de 1927 (no ano anterior, as colunas dos Editores estavam invertidas, esquerda/direita).

Em 1934, a Livraria Bertrand isolou-se da Livraria Aillaud, e, até 1938, será a associação Livraria Francisco Alves (Brasil)/Livraria Bertrand (Portugal) que publica os volumes nºs 80, 81 e 82 (dando enfim parcial cumprimento ao prometido pela “A Editora” em 1912).

A obra de Verne estava longe da publicação completa em Portugal (ainda hoje o está), mas estes oitenta e dois volumes representam o mais importante e coerente conjunto entre nós erguido à glória do romancista genial.
Uma nova associação luso-brasileira (Livraria Bertrand (Portugal)/Editora Paulo de Azevedo, Lta (Brasil)) reimprimiu algumas obras isoladas, e, em 1956, lançou a reedição “de acordo com a moderna ortografia” de todos os títulos, 1 a 82.
Para os jovens leitores de então, teria sido, em tom menor, a repetição do experimentado pelos seus bisavós de 1874.

Na forma, mantém-se as características da Grande Edição Popular de 1886 – com uma nova capa de F. Bento.

Continua...

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